Tintureiro, uma profissão em extinção

MUDANÇAS — A tecnologia avançou, mas a tinturaria continua manual

O ex-vereador e radialista José Paula da Silva, 79, é um dos
últimos profissionais da cidade e admite que o ofício vai acabar

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

No próximo sábado, 3 de agosto, comemora-se o “Dia do Tintureiro”. A data, entretanto, não é motivo para celebração. Quem garante é José Paula da Silva, 79, um dos mais antigos profissionais do ramo em Santa Cruz do Rio Pardo. Na profissão há mais de 50 anos, José Paula admite que tintureiro é uma profissão em extinção. “Veja que não há nenhum jovem no ofício”, avalia.
José Paula nasceu no antigo distrito de Espírito Santo do Turvo e veio para Santa Cruz do Rio Pardo aos 14 anos. “Tentei trabalhar em oficinas e gráficas, mas não me adaptei”, lembra o tintureiro, que tinha alergia a alguns produtos. Foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar em uma lavanderia. “Eu não sabia direito como funcionava. No começo, fui contratado apenas para fazer limpeza e entregas”, conta.
Mas ele passou a observar os serviços. “Meu chefe viu que tinha vontade de aprender e, então, já começou a me ensinar algumas coisas, como passar roupa”, disse. O chefe era Tatsumo Kameda, que José Paula considerava seu “segundo pai”. Na época, segundo ele, existiam 13 lavanderias em Santa Cruz do Rio Pardo. “Eu fui pedir emprego descalço, pois não tinha sapatos. Tinha medo de não ser aceito por ser negro e pobre”, lembrou. O estabelecimento ficava na rua Conselheiro Dantas.
Com o tempo, “Zé Tintureiro” adquiriu experiência e resolveu se arriscar em abrir um negócio próprio. Claro, era uma lavanderia. Foi um desafio, já que a concorrência na cidade era grande. “Eu tinha até medo de fazer alguns serviços”, lembra.
Ao longo de décadas, José passou por diversos endereços. No primeiro deles, ficou 35 anos. Era a “Lavanderia Tropical”, de onde saiu já reconhecido no ramo tintureiro.
Ele se recorda da cautela com que tinha ao tratar as roupas com os produtos químicos usados e da forma como manuseava cada uma. “Não podia misturar cores. As roupas manchavam mesmo, não havia esses produtos de hoje. Cheguei a trabalhar até com sal”, conta. Zé garante que, para ser tintureiro, era necessário muito conhecimento. Eram os anos em que o ferro de passar era alimentado com brasas incandescentes.
“A demanda aumentava quando a cidade celebrava eventos importantes, como bailes ou movimentos políticos. Era quando chegava muito serviço para mim. Cheguei a rejeitar serviço porque não conseguiria dar conta devido ao tempo curto”, lembra.
“Zé Tintureiro” se tornou tão conhecido que foi eleito duas vezes vereador, sendo, inclusive, presidente da Câmara. Depois de adulto, formou-se bacharel em Direito, ainda é radialista e passou a participar de instituições assistenciais, como a AAPIC do bairro da Estação.

ESPÉCIE EM EXTINÇÃO — José Paula da Silva é um dos últimos tintureiros de Santa Cruz do Rio Pardo

Tecnologia

“Hoje a realidade é muito diferente”, lamenta José Paula, admitindo que a profissão de tintureiro será extinta em poucos anos. Com a tecnologia fabricando máquinas, a procura pelo serviço manual caiu muito. “Agora não aumenta nem quando há festas importantes”, lembra. Pergunte a algum jovem, hoje, se ele conhece a profissão. No máximo, relaciona ela com tinta”, afirmou, rindo. De fato, “tintureiro” tanto pode ser aquele que tinge roupas como o outro que lava e passa as peças.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 28/07/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate