Pascoalino: ‘Esquecimento’

Esquecimento

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Voltávamos de uma visita a Miguel Cáceres, o autor do livro Piraju: memórias políticas e outras memórias; e Geraldo Machado aproveitava a paisagem que passava numa velocidade controlada por radar. Era agosto, mês que os usineiros queimam o maior talhão do canavial. No espigão que divide as águas pequenas que correm para Piraju das que descem para o Pardo, meu amigo viu no céu azul de metileno um tigre-de-bengala com um rabo muito comprido. “Onde?”, eu perguntei. Ele apontou para os lados das palmeiras imperiais da fazenda Luiz Pinto. Parecia mais a cabeça milenar do cavalo do jogo de xadrez. Reparando melhor, ao mesmo tempo que cuidava para manter o carro na pista, vi que era a cabeça colorada de um galo índio.
Eu pensava no trabalho das nuvens naquela tarde enquanto discava para a casa de Geraldo, na véspera do Ano Novo. Depois de muita insistência, quando eu já ia colocar o telefone no gancho (o gancho que há muito tempo não existe, mas se mantém na frase), ele atendeu. Estava distante, espalhado pela residência ampla, quando o telefone tocou. Ele me reconheceu pela voz e já emendou a justificativa seguida da informação de que passaria a noite com a filha, que decidiu não ir ao encontro das grandes comemorações promovidas pelos clubes da cidade. O filho de longe não viria, ocupado com o vestibular da filha-neta. O filho mais à mão fora passar o Ano com a sogra, enviuvada de pouco. De forma que…
Geraldo fala como escreve: apenas o necessário para que tenhamos uma boa história, mas, acima de tudo, fala com a voz de “baixo”, de negrão protestante do Tennessee. Ele tinha passado o último dia do ano lidando com a sua próxima crônica, o que pareceu uma extravagância para mim, acostumado a guardar o 31 de dezembro que a tudo empresta uma certa transcendência. Um “até logo” dito, ou escrito, no último dia do ano é muito mais do que uma simples expressão que sela o retirar-se. Até o ato de chupar um picolé de groselha tem para mim qualquer coisa de excelso no 31 de dezembro. Meu amigo, pelo contrário, aproveitou o dia para escrever sobre uma de suas árvores favoritas: um baobá ainda na muda que tem todo um milênio pela frente. Árvore é um de seus temas recorrentes: a explosiva sibipiruna, o guapuruvu florido, a canafístula cacheada, o capixingui sombreiro… Talvez para expiar uma culpa involuntária por carregar um instrumento cortante no nome — Machado — Geraldo vive a celebrar essas suas amigas de onde um dia descemos. É verdade: desprovido de rabo, o homem viu que o chão era mais seguro.
Para usar o telefone, os antigos tinham que dar uma volta à manivela, levar o fone ao ouvido e pedir a ligação à telefonista, falando com os lábios bem próximos do bocal afixado num caixote pendurado na parede. Hoje, a única preocupação é a necessidade de desligar. Naquele domingo, o instante de desligar coincidiu com o crepúsculo. Fui para a janela assistir ao adeus de um Sol fugidio que nada sabe dos calendários dos homens. E atrás do Sol, iam as tintas do último entardecer. O Sol sabe tanto das nossas inquietações quanto os peixes de couro, os alfinetes de cabeça e os brotos de bambu. No Universo, como sob a água estagnada, é sempre dia nenhum.
Os fogos de artifício já apertavam quando a Lua Nova foi se esconder atrás da escola do bairro. A cachorrada da vizinhança devia estar estranhando o foguetório. Fui pra cama certo de que não precisava ler uma linha sequer para achar a porta do sono. Mas, um pouco antes de capitular, percebi que tinha me esquecido de por para tocar uma música do Piazzolla que queria ter ouvido naquela noite: Oblivion. Se a corrida de São Silvestre ainda fosse como antigamente, na hora da virada, eu estaria lá na sala, diante da TV, assistindo com meu pai – foi tudo o que pensei.

  • Publicada originariamente em 14/01/2001
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