Beto Magnani: ‘Os documentos’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

Os documentos

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

As pessoas atravessaram correndo a avenida da metrópole. Eram oito faixas. Eu e ele ficamos para trás. Tivemos que parar no canteiro central para esperar a próximo farol. Ele carregava uma pasta transparente cheia de papeis.
— Correram porque devem estar acostumados. Da próxima vez corro também. Achei que ia dar tempo. Nunca atravessei aqui, sou novato na cidade. Pois é, sobramos nós dois. Presos pra trás.
Eu não estava exatamente a fim de conversar, mas não resisti:
— De onde você veio? – perguntei em voz mais alta por causa do barulho do caminhão que passou no momento.
— De longe. – respondeu ele sem identificar sua origem, também em voz mais alta.
— Sei.
— To indo pra longe também. – já em tom mais baixo.
— Que bom.
— E o senhor?
Sou do interior.
— Eu também. Meu longe é no interior.
— Coincidência encontrar alguém do interior também.
— Aqui a gente encontra sempre. Todo mundo aqui é de fora. Não percebeu ainda?
— É.
— Esse povo todo que tá correndo é de fora.
— Correm mesmo.
— É sempre corrido. Eu mesmo to com pouco tempo pra tirar cópia desses documentos todos. São de uma moça que tá vendendo a casa, fechando a conta em dois bancos e resolvendo a fatura de uma televisão nas Casas Bahia.
— Como você sabe?
— Pelos documentos. Leio tudo que me mandam copiar. E todo dia tem cópia pra fazer. Hoje pela manhã copiei os documentos de um senhor que teve um infarto e sobreviveu. Agora tá processando o vizinho que desde 1998 invade o seu espaço na garagem do prédio. Vai vendo…
— Desde 1998?
— Tempo né? Nunca reclamou. Falou pro meu patrão que cansou de ser trouxa. O infarto foi no dia 28 novembro do ano passado. Na época ele tava com a carteira de motorista caçada.
— Você sabe tudo.
— Sei até mais do que você imagina. Ele é jornalista e é locatário do apartamento 22. E o vizinho é juiz de direito e é proprietário do apartamento 32. Um em cima do outro. A mulher dele é artista plástica e maratonista.
— Do jornalista?
— Não, do juiz. Tudo documentado.
O sinal fechou para os carros. Atravessamos rápido.
— Foi um prazer. Nardinho.
— Magú.
— Apelido? O meu também é apelido. É Nardinho desde criança. Meu nome é Reginaldo. Deixa eu correr. A vida não espera! Boa Sorte!
Sumiu no meio das pessoas. Desejei boa sorte para ele também, mas acho que não ouviu; não esperou. Relampeou. Corri. (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 04/08/2019
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