Geraldo Machado: ‘Matutando’

Matutando

Geraldo Machado *

Se eu acreditar no
que você diz, perco
tudo o quê já fiz.
(Dilema de quem ouve)

Caboclo não pensa — matuta, cisma. Um colono do meu sítio, o João Alves Moreira, quando estava quieto, desligado do momento, dizia que ficava fazendo parafuso. Eu, de tanto fazê-los, acabei por espaná-los. Não dão aperto. Alisam com o tempo, perdem a rosca e a porca.
Com os anos de sobrevivência extraídos de uma vida longa, granjeamos, por sedimentação, a vivência. Caboclo não cogita — assunta e, por assuntar, nunca lhe falta assunto. Eu, de minha parte, não caio na teia de aranha deste lugar-comum: “nesta altura da vida”. Vida não tem altura, tem comprimento. Medimo-la, olhando para trás, a contra-rasto, lembrando. O coração e a cabeça, estes sim, que não são de répteis, voltam para cima. É o sursum corda e a cabeça-erguida. Os olhos visam o horizonte, lá onde o céu e a terra se juntam, mas sempre com o pé na terra. Sem essa base, somos folhas secas levadas à feição do vento e do tempo juntos.
Ortega y Gasset disse que: “La vida nos es dada, pero no nos es dada hecha”. Não nos é dada feita. Cabe-nos fazê-la. Muitos visam a perfeição, mas Nietzsche em “O Anticristo”, disse: “O Budismo não é uma religião através da qual se aspira a perfeição, a perfeição é o caso normal”. Eu (quem sou eu?), penso com o filósofo: o normal é a perfeição. Aperfeiçoar o normal, é progresso é aspiração. A perfeição é intangível e a virtude está no meio (in medio stat virtus). O meio está aí, conciliado com o normal. Nem os gênios alçam à perfeição. São, simplesmente, anormais (aceita essa expressão não como uma negação da norma, mas como fora dela).
O comum não é norma, é forma aceitável pelo costume. Normal é o satisfatório, como regra, na apreciação dos valores perseguidos ou almejados.
O filósofo alemão disse mais: “A vida é mais dura quando mais se visa o sublime”. Nunca iremos encontrar o sublime no normal, embora possamos encontrá-lo na simplicidade e no amor sem interesse.
Nada mais normal; que a Natureza. À vista curta, ela é perfeita. A começar pelo Cosmos, tudo está ligado à normalidade das leis gravitacionais, regidas com perfeição matemática.
A vida na terra, a flora e a fauna (aonde o homem está inserido como um detalhe), desde o começo, da simples célula até à organização mais superior, alcançou uma normalidade equilibrada pela seleção das espécies.
Desde que o mundo é mundo, a aranha faz a mesma teia, o joão-de-barro a mesma casa e o beija-flor o mesmo ninho. A flor, a semente e a planta alcançaram uma forma definitiva, normal e perfeita.
Dentro desse contexto, dessa harmonia, tudo é normal e essencial no complexo universal. Só o homem pode quebrar essa harmonia, porque dela se abstraiu sem entendê-la na sua complexidade, certo de que, dela, é o senhor absoluto e privilegiado por Deus. Mesmo o chamado perfeccionista, acaba num maníaco: mania de perfeição e de superioridade. Repetindo João Guimarães Rosa: “E, quase que o dia inteiro, um sapo, sentado no barro, se perguntava como foi feito o mundo”.
Já contei algures, a história de um maníaco da limpeza, no tempo em que se preparava chá, pondo uma brasa dentro da vasilha com água. Quando uma criança levava um susto, dava-se a ela essa “água assustada”. Esse perfeccionista da mania, depois de limpar a sabão a caneca de água filtrada, achou que devia lavar a brasa antes de usá-la para queimar o chá…
A arte visa a perfeição porque ela é diletante. Miguel Ângelo achou que o seu Moisés de mármore de Carrara devia falar. Mona Lisa sorri até hoje para Leonardo da Vinci. No mais, nada mais do que o normal: fora disso, é desperdício e desajuste.
“A mentira mais comum é aquela que mentimos a nós mesmos, mentir aos outros é, relativamente, uma exceção”. É o que disse o filósofo alemão. E explica o porquê: “Por conseguinte, esse não-querer-enxergar o que se vê (a mentira), esse não-querer-enxergar-da-forma como se vê, é a primeira condição para tornar todos aqueles que, de alguma forma, são parciais. O homem parcial torna-se necessariamente um mentiroso”. O perfeito é parcial e a perfeição uma mentira. O normal não mente normalmente: mente por exceção. Perfeição é alheamento. Só o homem normal aceita viver na terra, seu habitat. Devemos humanizar o homem para a vida ao invés de divinizá-lo para a morte. O próprio Deus se fez homem para morrer na carne.
Matutar não faz mal. Matutar a respeito da santidade do mortal em um mundo mal entendido. Ver o que está passando por aí, nessa queda-de-braços entre Alá e Jeová, Maomé e Jesus, o Corão versus a Bíblia. Isso é monoteísmo? Todos visam o céu e a perfeição. Esquecem da terra com o suicídio, vendo o paraíso como um harém de Salomão. Isso me faz lembrar José Saramago em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Vamos tirar de lá dois extratos, onde ele diz quase perguntando: “Para que houvesse quem prendesse e matasse é que foram feitos os homens comuns”. Com mais coragem, diz Saramago: “Então o diabo disse: é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue”.

* In Memoriam

  • Publicado originariamente em 2006
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