João Zanata Netto: ‘Futura mente’

Futura mente

João Zanata Netto *

Eu acho que todo mundo é dois. Em casa, na intimidade, o verdadeiro eu aflora sem as amarras. Todo mundo quer relaxar, descansar, ficar a vontade no final do dia. A labuta diária consome as energias mentais até a estafa. De qualquer forma, o sujeito quer festejar o seu happy hour no bar, no boteco ou no sofá da casa. O que importa é se livrar daquela tensão que o horário de trabalho lhe provoca.
Fora de casa, a vida social, profissional evoca ânimos diversos. São as responsabilidades da rotina, o empenho para angariar o sustento da família, que nos condicionam a estados mentais ativos e alertas.
Depois que o longo dia se foi, as horas anteriores ao repouso são uma espécie de desligamento gradual. O corpo humano deve ser poupado para outro dia de trabalho. Para isto, nada melhor que uma boa noite de sono. O seu sono só terá qualidade em um quarto escuro com todos os eletrônicos desligados. Nesta condição, a sua glândula Pineal ativa hormônios que reporão as suas células mortas. Assim, você poderá dizer que acordou renovado.
Isto tudo é bem trivial e garanto que todo mundo experimenta estas sensações de esgotamento das energias mentais. De tudo aquilo que se fala ou se ouve, nem tudo vai ser arquivado, pois nem tudo é essencial ou interessante que mereça ser memorizado. Apesar de que os meios de comunicação entre as pessoas tomam novos formatos, a comunicação está sempre presente e, às vezes, adquire características terapêuticas. Mesmo que hoje a ênfase das mensagens está nas imagens, o predicativo da comunicação é sempre a troca de ideias ou disseminação de fatos.
Contudo, é importante que se diga sobre a invisível mudança que os “novos” meios de transmissão ou recepção de mensagens causam na extensa rede neural. Em um breve resumo, o cérebro infantil tem uma extensa rede neural que se reduz ao necessário durante o seu ciclo de aprendizagem. Isto é importante, pois o excesso de conexões causa muita ansiedade. O convívio social faz uma adequação na rede neural, eliminando as redundâncias. Uma pequena debilidade é necessária para não atropelar a naturalidade do comportamento. Reparem bem que o adaptado socialmente é meio burrinho. E é este carinha que faz o bulling nos gênios.
Falar em inteligência social se torna um eufemismo, pois cada um valoriza o que tem. Por estas e outras considerações, é bem oportuno observar que o excesso de estímulo visual corrobora por eliminar importantes conexões das mensagens faladas. Todos perderão um bocado daquela velha e boa tagarelice. Não creio que há uma compensação em um cérebro que tende a uma especialização. Costumamos dizer que uma imagem vale mais que mil palavras. Eu não concordo com esta afirmação, pois se atribui uma riqueza de expressão a qual ela não possui. A imagem é uma mensagem passiva e tudo o que dela pode ser extraído provém da imaginação de quem a interpreta. Ela é uma singela expressão que só o pensamento pode enriquecer.
O modismo agora é o mudismo. Cada um com o seu forninho de micro-ondas na orelha, candidatando-se a um tumorsinho cerebral. Mas, nem vou falar das perigosas ondas eletromagnéticas se não isto não acaba mais. Quando não está na orelha, está diante dos nossos olhos com a sua luz polarizada. Eu acho que algum dia não conseguiremos nem olhar para a luz do dia, desenvolveremos a telepatia, teremos grandes olhos e pequenas bocas, ou seja, alienígenas.

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição de 04/07/2019
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