Os desafios na inclusão do autista

Ellen Balielo Manfrim avalia que, apesar dos avanços em pesquisas e tratamentos, a maioria dos autistas ainda enfrenta dificuldades básicas de inclusão

Médica fala sobre a síndrome e de como a sociedade
ainda não está preparada para inserir os pacientes

Diego Singolani
Da Reportagem Local

Nunca se falou tanto sobre autismo no Brasil como nos dias de hoje. O debate público a respeito da síndrome que atinge mais de dois milhões de brasileiros e 70 milhões de pessoas no mundo ganhou notória visibilidade, impulsionado por novas pesquisas e tratamentos que possibilitaram uma melhoria significativa na qualidade de vida dos pacientes. Porém, nem tudo são flores. De acordo com a neuropediatra Ellen Balielo Manfrim, quando se trata da inserção dos autistas, a sociedade brasileira ainda está distante do ideal, seja por falta de políticas públicas adequadas ou pela disseminação de informações imprecisas.
O aumento no número de diagnósticos de autismo também ajuda a entender a relevância que o assunto adquiriu. Ellen explica que os fatores de risco conhecidos são mais preponderantes atualmente. Entre eles, pais que concebem com mais de 35 anos, uso de antidepressivo e álcool durante a gravidez e mulheres que engordam mais de 16 quilos na gestação. “A maioria das mulheres engravida mais velha. Com o estresse e correria do dia-a-dia, o uso de ansiolíticos também se tornou algo comum. E qual mulher que não toma uma cervejinha? Ou seja, os fatores de risco são muito mais presentes hoje do que há 30 anos”, disse Ellen. A relação do autismo com fatores genéticos também é indissociável. De acordo com a neuropediatra, existem mais de 400 genes relacionados à síndrome. O diagnóstico geralmente é realizado depois dos três aos de idade da pessoa. “O autismo se manifesta de maneira muito ampla quanto aos sintomas, mas para que se feche um diagnóstico o indivíduo deve ter necessariamente dificuldades na comunicação verbal e não verbal, em menor ou maior intensidade. Sem isso, não há o diagnóstico da síndrome”, afirmou Ellen.
Apesar da maior difusão de informações a respeito do tema, Ellen Manfrim diz que não são raras as vezes em que os pais nunca ouviram falar sobre autismo até o momento que o filho recebe o diagnóstico. “Há muita informação incorreta de fontes pouco confiáveis. Isso também prejudica”, disse. A médica afirma que o acesso aos melhores tratamentos, com embasamento cientifico reconhecido, ainda é restrito e praticamente não disponível no setor público. “Nós já pensamos em fazer um mutirão de diagnósticos na clínica. Mas aí esbarramos na seguinte questão: se confirmado um diagnóstico, vamos jogar essa ‘bomba’ no colo dos pais e eles vão fazer o quê? ”, declarou Ellen,

Sinais de autismo

A Associação Brasileira de Autismo (Abra) classifica o autismo ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), como é denominado cientificamente, como uma síndrome que se caracteriza sempre por desvios qualitativos na comunicação, na interação social e no uso da imaginação. “Alguns sinais característicos são o interesse fixo em determinados assuntos e objetos, movimentos repetitivos, como o do tronco para frente e para trás, e estereotipias verbais – a criança repete sons como ‘uau!’, ‘hmm’, ou algum outro que tenha aprendido”, explica a Ellen Manfrim. Os autistas também podem apresentar alterações sensoriais e hipersensibilidade a determinados alimentos, sons, ambientes e até contato físico. “Enquanto algumas crianças podem ficar reclusas, outras buscam a agitação, o estimulo intenso, porque só assim conseguem se organizar mentalmente. Os sintomas são muito variáveis, mas para o diagnóstico de autismo, a dificuldade na comunicação verbal e não verbal tem de existir”, afirmou a especialista.
A independência do autista depende do grau do transtorno. Quando há uma deficiência intelectual associada, o quadro de dependência é maior. Nos casos em que a manifestação é leve, é possível estudar e trabalhar. Há autistas que conseguem cursar faculdade e desenvolvem suas atividades profissionais, contando com algumas adaptações. No caso das crianças, a recomendação é para que estudem em escolas regulares, embora alguns pais prefiram escolas especiais.
O colégio deve ser inclusivo e permitir a flexibilização do currículo, tendo o cuidado de colocar os autistas em turmas menos numerosas, para que os professores possam atender suas demandas individuais. Aliás, por lei, as escolas devem oferecer monitores aos autistas, quando necessário, tomando o cuidado de não excluir o aluno do convívio com seus colegas da turma.
Entretanto, a realidade que os pacientes encontram no Brasil é bastante diferente desta. “Sobre inclusão, estamos muito aquém. Eu sonho que daqui a 20 anos tenhamos um País mais preparado para essas pessoas, principalmente no interior”, afirmou Ellen.

  • Publicado na edição de 04/08/2019
Sobre Sergio Fleury 4727 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate