Santa Cruz terá carteira para autistas

EMPATIA — Mesmo tendo direito a preferência, Keila e o filho Ian, que é autista, já tiveram de deixar fila de supermercado a pedido de caixa que se sentiu incomodada

Assim como em outras cidades, objetivo do documento  é
garantir que os pacientes tenham seus direitos respeitados

Diego Singolani
Da Reportagem Local

A Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo aprovou por unanimidade no dia 29 o projeto de lei que institui a Carteira de Identificação do Autista (CIA) no município. De autoria dos vereadores Cristiano Miranda (PSB) e João Marcelo Santos (DEM), a proposta busca assegurar o atendimento preferencial às pessoas autistas, direito garantido por lei federal desde 2012. A iniciativa é vista com bons olhos por portadores da síndrome e seus familiares, que acreditam que o documento pode evitar situações de constrangimento.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA), ou simplesmente autismo, é um distúrbio neurológico caracterizado pelo comprometimento da interação social e da comunicação tanto verbal quanto não verbal. Os sintomas são diversos e variam de pessoa para pessoa. Alguns pacientes apresentam hipersensibilidade ao som, luz, determinados alimentos, aglomerações e até ao toque. Desde de 2012, por meio da lei federal nº 12.764, os portadores da síndrome são considerados pessoas com deficiência, para todos os efeitos legais. Com isso, os autistas passaram a ter direito às mesmas prioridades de atendimento que os deficientes já possuíam. O problema é que os sinais do autismo não são tão evidentes para pessoas leigas, podendo causar situações de constrangimento. Muitas famílias chegam a carregar um laudo médico para fazer valer os direitos dos pacientes. Como alternativa, várias cidades no País instituíram as “carteirinhas”, como no caso de Santa Cruz, para facilitar a identificação.

Keila e o filho Ian

Após sanção do projeto pelo prefeito Otacílio Parras (PSB), a Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de Desenvolvimento Social terá 60 dias para implementar as adequações necessárias e começar a emitir o documento. A carteira será produzida pela prefeitura sem nenhum custo ao paciente, mediante a apresentação de requerimento assinado pelo interessado ou responsável legal e um laudo médico confirmando o diagnóstico. Os documentos serão numerados sequencialmente, permitindo a contagem das pessoas portadoras da síndrome no município. No documento também constará os dados pessoais e endereço do paciente. As carteiras de identificação terão validade de cinco anos.

INDEPENDENTE — Universitário, Mateus já morou sozinho e tirou CNH

Famílias aprovam

Ellen Manfrim com o paciente Mateus

Keila Cristina Carvalho Arakaki de Souza, 40, é mãe de Ian, um garoto autista com 10 anos de idade. Moradora de Ourinhos, ela conta que recentemente enfrentou uma situação delicada com o filho em um supermercado. “Estávamos na fila preferencial e a caixa mandou a gente sair. Ela não percebeu que o Ian é autista, mas a forma como aconteceu me deixou tão desconcertada que eu não tive reação, apenas sai da fila”, relatou. Keila acredita que a o documento é muito importante, pois a maioria das pessoas não está preparada para identificar e lidar com os autistas. “Outro dia o Ian teve uma crise no shopping e um bombeiro tentou ajudar, falando com ele, algo que não funciona no nosso caso. Eu acho que também seria importante esses profissionais receberem mais orientações”, afirmou Keila.
O estudante Mateus Firmino Duarte dos Santos, 20, foi diagnosticado com autismo aos 13 anos de idade. Ele cursa análise de sistemas na Fatec de Ourinhos e sua habilidade com números é acima da média, desde criança. Bastante independente, Mateus tirou a CNH normalmente e, quando precisa, dirige. “Na verdade, não gosto muito”, brincou. Ele também aprova a iniciativa da carteira de identificação. “Acho interessante, apesar de que, no meu caso, talvez não use muito, pois não gosto de ir a bancos ou supermercados”, afirmou. Porém, Mateus admite que as vagas de estacionamento preferenciais podem ser de grande valia, já que ele leva um pouco mais de tempo para estacionar o veículo.

  • Publicado na edição impressa de 04/08/2019
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