Santa Cruz enfrenta onda de estelionatos: conheça o “golpe do carro”

FAKE — Golpistas usam o endereço, CNPJ e fotos de garagens de Santa Cruz

Golpes envolvendo veículos são os mais frequentes; apesar
de simples, golpe do bilhete premiado também faz vítimas

Antonielson, 55, viajou de Batatais-SP a S.Cruz para ver carro que não existe

Diego Singolani
Da Reportagem Local

De acordo com a Polícia Civil, Santa Cruz do Rio Pardo já registrou 13 ocorrências de estelionato em 2019. O número parece baixo, porém, de acordo com as autoridades, este tipo de crime costuma ser subnotificado, já que a grande maioria das vítimas fica constrangida após ter caído em golpes rudimentares, caso do famoso “bilhete premiado”. Nos últimos meses, criminosos também tem usado dados de garagens de Santa Cruz para publicar anúncios falsos de venda veículos na internet. Em um dos estabelecimentos, o proprietário recebe em média oito ligações por dia de pessoas de todo o pais interessadas em carros que nem existem.
Segundo o delegado Renato Caldeira Mardegan, pelo menos uma vez por mês alguém comparece à Central de Polícia Judiciária vítima do golpe do bilhete premiado. O modus operandi dos criminosos é quase sempre o mesmo: alguém aparentando simplicidade ou nervosismo aborda a pessoa alvo dizendo que ganhou na loteria, mas que não sabe como retirar o prêmio. Ela oferece uma parte da bolada caso a vítima a ajude. Ela entrega o bilhete, porém pede uma garantia em dinheiro. Geralmente, um segundo golpista participa da ação fingindo não conhecer o primeiro e atuando para dar veracidade a história. Quando a vítima percebe, já perdeu a grana e ficou apenas com um papel que não vale nada. “Santa Cruz é uma cidade com muita circulação de dinheiro, por isso é procurada por estelionatários. Só que a verdade tem que ser dita: quem cai nesses golpes é por pura ganância. A pessoa acredita vai ter uma vantagem que é irreal”, afirma Mardegan.
Existem casos mais elaborados, em que os criminosos falsificam boletos, por exemplo. A orientação de Mardegan é para que as pessoas prestem atenção no nome do beneficiário e no código de barras. “Se houver qualquer disparidade, não pague. Entre em contato com o credor e confirme a veracidade do documento”, disse. “A expansão do comércio eletrônico, via web, exige mais cautela. E, novamente, se o cliente se deparar com um produto por um preço que não condiz com o praticado no mercado, não caia nessa, não acredite que vai tirar vantagem de alguém”, diz o delegado.

Vítima mostra falsa negociação através de aplicativo do celular

Negócio da “China”

Vários comerciantes do ramo de automóveis em Santa Cruz do Rio Pardo têm relatado casos de pessoas que chegam aos estabelecimentos para retirar veículos que não existem. As vítimas são de fora da cidade e dizem ter negociado a compra pela internet. Em algumas situações, afirmam até que já fizeram depósito como “sinal”. Na verdade, essas pessoas caíram no golpe de estelionatários que usam o nome, endereço e o CNPJ de empresas de Santa Cruz para enganar os compradores.
De acordo com um garagista ouvido pela reportagem, a prática criminosa aumentou significativamente a partir de julho deste ano. “Recebemos em média oito ligações por dia de pessoas querendo saber sobre anúncios que na verdade não são nossos. Já denunciamos à polícia e alertamos os sites de compra e venda pela internet, mas infelizmente alguns anúncios ainda continuam disponíveis”, afirmou. O comerciante, que preferiu não se identificar, revelou que houve casos de vítimas que disseram ter depositado até R$ 6 mil como sinal, acreditando ter fechado negócio com a sua garagem. “É uma situação que nos prejudica. Estamos há décadas no mercado, a população de Santa Cruz nos conhece. Mas nesses casos de fora, até explicar que ‘focinho de porco não é tomada’, a imagem de um negócio sério pode ser arranhada”, declarou.
Enquanto a reportagem do DEBATE estava na garagem, o proprietário recebeu duas ligações de pessoas interessadas em veículos que constavam no seu endereço. Além disso, um motorista morador de Batatais revelou que ter ido até a garagem após negociar a compra de Fiat Uno. “Aproveitei a carona de um amigo e vim ver pessoalmente o carro. Aí me dei conta que não existia nem o Uno e nem a vendedora que falou comigo. Eu não depositei nada, não tive prejuízo. Pelo menos a viagem serviu de passeio, para conhecer Santa Cruz”, disse.

  • Publicado na edição impressa de 11/08/2019
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