A dor de uma ausência

A viúva Silvana mostra fotografia do marido em camiseta: "Quero justiça"

Família do Parque das Nações passa o segundo
ano sem o pai, brutalmente morto após discussão

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Antes uma data alegre, o domingo passado foi de tristes lembranças para a família de Aparecido Seabra Filho. Ele morreu aos 51 anos no final de fevereiro do ano passado, ao ser propositalmente atropelado por João Albino no Parque das Nações. Testemunhas afirmaram que o condutor passou várias vezes sobre Seabra. Minutos antes, eles estavam num bar e discutiram. A família de Aparecido sofre neste domingo com o segundo “Dia dos Pais” sem ele, mas ainda espera por justiça. “O responsável está solto e certamente passou o domingo com os filhos”, reclama a viúva Silvana Gonçalves Seabra, 48.
Na casa humilde do Parque das Nações, tudo lembra o pai. O pássaro de Aparecido, uma maritaca, ainda o chama pelo apelido que o próprio dono ensinou: “Baguá”. Segundo as filhas, Aparecido era alegre e brincalhão e não gostava de se envolver em brigas. Porém, gostava de beber uma cachaça, principalmente antes das refeições, mas era amigável. A família conta que ele já vinha sofrendo ameaças, mas nunca soube o motivo.
Silvana lembra que naquele sábado, 25 de fevereiro, o marido avisou que ia no bar antes de jantar. Momentos depois, alguém avisou: Aparecido havia sido atropelado brutalmente e estava em estado grave. “Ele sempre tomava uma pinguinha. Eu nem acreditei, pois ele nunca foi violento”, disse.
Segundo testemunhas, Aparecido estava no bar quando Albino chegou. Ambos discutiram e Aparecido resolveu deixar o estabelecimento. Quando caminhava pela rua, foi atropelado pelas costas pelo Fusca de Albino. Testemunhas revelaram que o motorista ainda voltou e o atropelou novamente.
Aparecido foi levado para o hospital, passou por uma cirurgia e morreu na noite do dia seguinte. O autor do homicídio se apresentou três dias depois, prestou depoimento e foi liberado em seguida, já que escapou do flagrante.

REVOLTA — A viúva Silvana (com a camiseta) e as filhas Francielly, Juliana e Débora Seabra

Segundo a filha Francielly, 33, que é técnica de enfermagem na Santa Casa de Misericórdia, o “Dia dos Pais” passou a ser um misto de tristeza, revolta e indignação. “Eu me lembro que, naquela tarde, ele pediu para escrever os nomes de todos os oito filhos para guardar. Estava alegre e até hoje o papel está na carteira dele”, disse.
Ela conta que a família sempre foi muito unida, embora sem posses. “A nossa alegria era reunir todo mundo nas datas festivas, como aniversários, e fazer churrasco. Hoje, meu pai faz muita falta. Ele era muito presente”, completou.
Silvana conta que a família começou a passar necessidades após a morte de Aparecido, inclusive com desempregos. “Ele sempre trazia um dinheirinho para casa. Trabalhava sem registro”, conta. “Quando eu me levanto, parece que o Aparecido ainda está aqui”, diz a viúva.
Foi o pai, por exemplo, quem construiu alguns cômodos nos fundos para a filha Débora, 27, morar. “Eu pagava aluguel com muita dificuldade e meu pai disse que iria me livrar disso. No sol quente, ele construiu sozinho este espaço e me trouxe para cá”, lembra.
O maior drama, segundo a filha Francielly, é que a família não consegue saber como anda o processo. “Nós não fomos chamados nem na delegacia, mas sabemos que o responsável está livre. Somente na semana passada, através de informações da OAB, recebemos a notícia de que o caso agora está no Fórum”, explicou. “Nós queremos uma solução, que a justiça seja feita. Nada vai trazer meu pai de volta, mas pelo menos ficará uma sensação de conforto”.
Com mais de 80 anos, o pai de Aparecido entrou em profunda depressão após a morte do filho. “Ele diz que logo estará com meu pai”, diz Francielly. “Nós queremos justiça. Ninguém é capaz de sentir a dor de perder um pai de forma tão estúpida”, disse Débora. Enquanto isso, a família vai continuar buscando informações no Fórum e aguardar o desfecho do caso.

  • Publicado na edição impressa de 11/08/2019
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