Difusora ataca procurador que sugeriu denunciar gastos irregulares ao MP

ALVO — Parecer contra Difusora fez procurador virar alvo da emissora

Pedro Donizeti não perdoa advogado

Desde que sua propriedade foi transferida do saudoso radialista Amerquiz Júlio Ferreira para a sociedade entre Odelair Ferdin e Pedro Donizeti, a rádio Difusora nunca deixou de ser governo. Na verdade, ela passou a ser um instrumento de propaganda da administração e do grupo político dominante, independentemente de partidos. Foi assim com Adilson Mira, que usou e abusou dos microfones da emissora, e na sequência com Maura Macieirinha. Otacílio manteve a velha política de promoção e também faz o mesmo, numa dimensão ainda maior. O adesismo, porém, tem um preço alto para os cofres públicos, já que a Difusora terá recebido perto de R$ 1 milhão somente no atual governo.
Além disso, há outros benefícios, como influência e ajuda política para conseguir no governo federal a migração da emissora AM para o sistema FM. Afinal, o prefeito Otacílio Parras (PSB) chegou a conversar pessoalmente com o então ministro Gilberto Kassab pedindo agilidade no processo da Difusora.
No final de 2018, o prefeito também doou uma área pública para a emissora implantar sua nova antena de FM. Outras emissoras têm suas antenas em terrenos particulares. Antes da votação do projeto, a Câmara decidir realizar uma audiência pública e o próprio Otacílio foi o responsável pelo lobby a favor da emissora de rádio.
Durante a audiência, o ex-vereador Luiz Carlos “Psiu” Marques sugeriu ao dono da emissora que fizesse a publicidade da prefeitura de forma gratuita durante um tempo, como compensação pela área cedida. “Eu não trabalho de graça”, respondeu o empresário Pedro Donizeti.
Em junho de 2018, o prefeito também nomeou o radialista Roger Garcia, da Difusora, como seu assessor de Relações Institucionais. O cargo tem status de secretário e salários de R$ 8 mil. E, de forma surpreendente, é Roger Garcia quem entrevista o próprio patrão nos estúdios da Difusora, sem qualquer preocupação com a ética.

Alvo

Mas a Difusora também não perdoa aqueles que ousam apontar irregularidades nos negócios com o governo de Otacílio Parras. É o caso do procurador da Câmara, o advogado João Luiz de Almeida Júnior. Quando da votação da “Lei das Rádios”, em outubro do ano passado, João Luiz emitiu parecer alertando que o projeto era inconstitucional e que o prefeito já havia transferido mais de R$ 226 mil para a emissora de rádio sem licitação. Ele sugeriu a remessa de documentos ao Ministério Público.
Imediatamente, João Luiz de Almeida Júnior passou a ser atacado nos microfones da rádio. Invariavelmente, a emissora leva vereadores governistas ao estúdio e incita as críticas ao procurador.
Foi o caso dos vereadores Lourival Heitor (DEM), Edvaldo Godoy (DEM) e Marco “Cantor” Valantieri (PL), que chegaram a defender, em “entrevistas”, a contratação de um novo procurador na Câmara. Alguns sugeriram até a abertura de um processo administrativo interno contra o advogado da Câmara.
Na terça-feira, 13, a emissora usou o vereador Cristiano de Miranda (PSB) para atacar o procurador. O dono da Difusora, Pedro Donizeti, questionou no ar: “Por que o procurador ultimamente é contra quase tudo? É contra porque é lei, porque é opinião pessoal ou porque não pertence ao lado político? Ele precisa explicar isto”, disse.
Donizeti não imaginava que, no dia seguinte, quarta-feira, 14, o Tribunal de Justiça de São Paulo julgaria inconstitucional uma lei de Otacílio Parras que pretendia beneficiar a Difusora. A lei foi aprovada pelos vereadores que costumam frequentar os microfones da emissora, mas o procurador da Câmara de Santa Cruz foi contra.

  • Publicado na edição impressa de 18/08/2019
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