Artigo: ‘Carência na medida certa’

Carência na medida certa

Nayara Moreno
Da equipe de colaboradores

Apesar de muita gente infantilizar os idosos e os tratarem como crianças, o que é mais do que equivocado, existe sim uma semelhança entre os pequenos e aqueles com mais de 60 anos. Na maioria das vezes, ambas as faixas etárias são carentes. A diferença é que as crianças deixam isso claro. Os idosos, não.
Os idosos dão sinais de que querem carinho e atenção. E esses sinais são os mais variados possíveis. Para ter os filhos por perto, alguns idosos vivem se queixando, exagerando e até mesmo inventando dores e “doenças” para ter os familiares ao lado. Quando filhos e netos logo se dão conta da tática, pode até dar certo e ser fofo esse jeito manhoso. Mas o tiro pode sair pela culatra. Primeiro porque já existe uma dificuldade grande de separar o que de fato é uma doença em um idoso e o que de fato é fruto de um sentimento. Portanto, não é a melhor maneira de chamar a atenção. Doença depois dos 60 é coisa seríssima e não aceita brincadeira.
Alguns idosos optam pela rabugice, reclamações exageradas e sem sentido e o mau-humor para expressar a carência. Mostram-se sempre “irritados” com algumas situações, como, por exemplo, reuniões familiares, mas, na verdade, o que mais eles querem é a família toda por perto. Sabe aquela história de que “eu tenho que manter minha fama de mau”? Então…existem aqueles que adotam comportamentos estranhos e até perigosos para chamar a atenção, como deixar de dar notícias, mudar drasticamente a rotina para pior, etc.
Mas por que o idoso tem dificuldade de assumir essa carência e verbalizar esse sentimento? Porque, como já abordado aqui algumas vezes, historicamente e culturalmente a sociedade brasileira sempre sufocou as manifestações e os sentimentos dos idosos. Assim, por medo e vergonha, eles acabam escolhendo atalhos para mostrar que sentem falta de algo ou alguém.
E é aí que mora o perigo. A carência é um sentimento natural a todos nós, independentemente da idade. Sufocá-la não faz bem a ninguém. Até mesmo porque, uma das soluções para o fim da carência é exatamente deixar claro sua existência para quem está próximo. No caso dos idosos, a preocupação é ainda maior porque essa situação pode levar, de fato, a problemas mais sérios, como depressão.
Além disso, as famílias ainda têm muitas dificuldades para lidar com os idosos e seus sentimentos. Algumas alternativas equivocadas para demonstrá-los ou escondendo-los deixam os familiares confusos e, no meio desta confusão toda, algumas decisões erradas acabam sendo tomadas.
A vida passa, a situação se inverte e todo mundo passa a gostar do colinho dos filhos. Mas não se pode transformar isso em um empecilho de relacionamento.

* Nayara Moreno
é enfermeira

pós-graduada e
Responsável Técnica
pela AleNeto
Enfermagem 

 

  • Publicado na edição impressa de 18/08/2019
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