‘O dia mais triste de Santa Cruz’

O SEPULTAMENTO — A foto foi tirada no dia 16 de agosto de 1963, da capela do cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo, na última despedida aos torcedores vítimas do acidente

Tragédia que matou 10 torcedores da Esportiva
completou 56 anos no dia 15, e ainda é lembrada

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Foi o dia mais triste da história de Santa Cruz do Rio Pardo”. A frase é de Edmeia Manzo, hoje moradora em Ribeirão Preto, que perdeu o pai Adalberto no trágico acidente que matou dez torcedores da Esportiva Santacruzense que viajavam para acompanhar o penúltimo jogo do time no ano em que foi campeão. Foi em 15 de agosto de 1963, um dia que muitas famílias de Santa Cruz não conseguem esquecer.
No caso de Edmeia, o pai não iria ao jogo, pois a perua Kombi já estava lotada. Seu irmão, José Manzo estava na turma, mas na última hora ele foi convocado pelo Banco Inco, onde trabalhava, para um trabalho urgente. José, então, cedeu a vaga para Adalberto.
“Eu tinha dois anos, mas a tragédia impactou minha vida até hoje. É difícil falar sobre isto, pois cresci sem a figura do meu pai”, conta Edmeia, sem esconder as lágrimas.
O dia 15 de agosto de 1963 era para ser de festa. A Esportiva tinha apenas dois jogos à frente para sagrar-se campeã da Segunda Divisão de profissionais do campeonato paulista. O penúltimo jogo era em São Caetano, contra o Cerâmica.
Animados, torcedores de Santa Cruz do Rio Pardo programaram caravanas para acompanhar a partida e incentivar os jogadores.
Uma delas seguiria numa kombi com 10 torcedores. O veículo saiu cedo de Santa Cruz rumo a São Caetano, mas horas depois todos os ocupantes estavam mortos. A kombi foi colhida de frente por um caminhão FNM que trafegava na contramão em plena rodovia Raposo Tavares. Na época, a Castello Branco começava a ser construída.
O caminhão, segundo testemunhas, já vinha dirigindo em alta velocidade e de forma imprudente. No quilômetro 191, o FNM estraçalhou a kombi, matando instantaneamente os 10 torcedores. A cena era terrível, com pedaços dos corpos espalhados pela pista. O motorista do caminhão fugiu.
Quem também viajava em outros carros para acompanhar o jogo passaram pelo local. Alguns, nem perceberam que a kombi era de Santa Cruz do Rio Pardo. Mas o vereador José Carlos Camarinha viu a cena horripilante e, ao chegar a São Caetano, avisou os dirigentes da Esportiva.
Foi, então, que tomaram uma decisão: nenhum jogador seria avisado da tragédia antes do final do jogo. O mesmo aconteceu com radialistas da Difusora que transmitiam o jogo numa cabine do estádio.
Entre eles, estava José Eduardo Catalano, que iria transmitir o jogo e seguir em viagem para a capital, pois entraria em férias. “Nós transmitimos tudo, sem saber que a emissora havia saído do ar em Santa Cruz em sinal de luto. Só depois fomos avisados”, lembra Catalano.
Morreram no acidente José Biondo, João Simão Ávila, Adelson Morandim, Sergio Sartorato, José Cardoso, Otorimo Sartorato, Luiz Andrade, Adalberto Manzo, Antonio Benedito de Andrade e José Carlos de Andrade. Os Andrades eram irmãos, daí a dimensão da tragédia. Os outros eram pessoas muito conhecidas e queridas em Santa Cruz do Rio Pardo.
Nenhuma família recebeu indenização e não se sabe se o motorista do caminhão sofreu alguma punição. Segundo informações, ele teria morrido anos mais tarde, em outro acidente, como motorista de ônibus.

O SEPULTAMENTO — A foto foi tirada no dia 16 de agosto de 1963, da capela do cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo, na última despedida aos torcedores vítimas do acidente

Cidade em luto

O despachante Sebastião Degaspari, o “Toko”, conta que ainda se lembra daquela data triste em Santa Cruz do Rio Pardo. “Eu tinha 12 anos e a cidade ficou muito abalada. O velório aconteceu no Santuário Nossa Senhora de Fátima, com os caixões perfilados no chão. Alguns eram brancos”, contou. A cor do caixão indicava, na época, a morte de alguém muito jovem.
O prefeito Onofre Rosa decretou luto oficial e o comércio fechou as portas. Quem acompanhou o sepultamento lembra que foi um dos maiores enterros coletivos — e o mais triste — da história da cidade.
Muitos santa-cruzenses escaparam na última hora ao desistirem da viagem, como Alziro Cândido de Oliveira, que era padeiro e precisou ficar porque um funcionário faltou naquele dia. O nome dele chegou a ser impresso um “santinho” fúnebre.
O aposentado José Lorenzetti também cedeu aos apelos do amigo Luiz Andrade e desistiu de viajar. Luiz queria ir para acompanhar os parentes.

CENÁRIO — A Kombi foi destroçada e os torcedores morreram nba hora

Tristeza

Edmeia Manzo, que era quase bebê na época, sabe de quase todos os detalhes, contados por parentes, porque até hoje procura respostas para a tragédia. “Nós não sabemos sequer se o motorista sofreu alguma condenação”, disse.
Advogada, ela diz que sempre teve vontade de conhecer as consequências daquela tragédia para o responsável. “Mas, ao mesmo tempo, deixo para lá porque estes fatos me fazem muito mal”, diz. “São coisas pesadas, pois os caixões foram lacrados porque todos estavam desfigurados”, lembra, com a voz embargada. “É difícil falar sobre isto, pois eu demorei oito anos para nascer, uma vez que minha mãe não podia ter filhos. Portanto, sou a filha única que não pode desfrutar de um pai”, contou.

O monumento aos mortos, no cemitério de Santa Cruz

Sua prima, Ana Manzo, diretora da escola “Sinharinha Camarinha”, também se lembra vagamente da grande tristeza que se abateu sobre Santa Cruz. “Eu estive no velório na igreja e vi muita gente chorando. Meu tio Adalberto era marceneiro e deixou a família sem nada”, disse. Ana confirma que Adalberto viajou no lugar do pai dela, José Manzo.
“Na verdade, éramos crianças e não estávamos entendendo. Minha mãe nos reuniu e disse que o tio Adalberto havia partido para o céu”, lembra. Ana nunca mais se esqueceu do forte cheiro de cedrinho no velório realizado na igreja.
Os caixões foram levados a pé para o cemitério, acompanhados por uma multidão. Os torcedores foram todos enterrados em jazigos próximos. Meses depois, a prefeitura construiu um pequeno monumento em homenagem aos mortos. Até hoje, o local é um dos mais visitados do cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo.

  • Publicado na edição impressa de 18/08/2019
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