O colecionador de ‘santinhos’

MEMÓRIA ELEITORAL — Alvair Pereira Nantes mostra livros de sua coleção de ‘santinhos’ eleitorais

Aposentado guarda ‘santinhos’ de todos os
candidatos de S. Cruz desde as eleições de 1992

Eleição de Maura em 2008 está na coleção

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Alvair Pereira Nantes, 62, ex-funcionário da extinta Máquinas Suzuki, adquiriu ao longo dos anos uma mania que acabou empolgando parentes e amigos. Ele coleciona os “santinhos” de todas as eleições municipais, aqueles papéis com a foto e o número do candidato a prefeito ou a vereador. Está tudo encadernado em livros e protegidos por folhas envolvidas em plástico. A coleção, na verdade, se transformou em livros históricos, pois ele deve ser o único santa-cruzense que pode consultar até a fotografia de quem foi candidato ao longo de quase 30 anos.
O aposentado começou o hobby como uma brincadeira, mas “tomou gosto” e começou a caprichar. Logo, teve ajuda da filha Denice, que prepara a encadernação dos ‘santinhos’. “Ela também gostou da coleção”, garante. Alvair lembra que o brasileiro tem a memória curta e nem se lembra de quem foi candidato em eleições. “Às vezes eu conto que determinada pessoa já foi candidata a vereador e ninguém acredita. Aí eu provo e mostro a fotografia e o número”, diz.

RARIDADES — Nos livros, há muitos candidatos que já morreram e outros que poucos sabem que, um dia, foram candidatos
1992— Três vezes prefeito, Onofre Rosa foi candidato a vereador em 1992

No entanto, engana-se quem imagina que Alvair é apaixonado por algum partido político. “Gosto de acompanhar, mas não tenho candidato. Vou a todos os comícios das campanhas eleitorais, independentemente dos partidos, para ver o que eles falam, as novidades e, principalmente, pegar santinhos”, diz. “Com o tempo, aprendi que tudo aquilo que os políticos falam nos comícios, depois fazem ao contrário”, brinca.
Alvair começou a frequentar comícios desde a infância e votou pela primeira vez em 1974, quando Aniceto Gonçalves e Cláudio Catalano disputaram a prefeitura. Mas a coleção começou mesmo em 1992.
Naquele ano, três candidatos disputaram a prefeitura: Eduardo Blumer, Manezinho e o folclórico Primo, cada grupo com dezenas de candidatos a vereador. “Os comícios do Primo eram os mais animados. Muita gente ia assistir porque ele dizia coisas impossíveis. Era muito divertido”, lembra. Wilson Primo de Souza teve 802 votos para prefeito. Oito anos depois, foi eleito vereador com uma votação consagradora. Morreu em 2013.

Alvair mostra parte da coleção de “santinhos” de eleições

Revendo as imagens, é possível se lembrar de candidatos folclóricos e outros que ninguém imagina que, um dia, tentaram alcançar uma vaga na Câmara de Santa Cruz. No entanto, o aposentado também percebeu, ao longo das eleições, que alguns candidatos disputaram eleições sucessivas com boas votações, mas nunca se elegeram. É o caso de “Verinha”, “Vermeio”, “Cabo Edson” e Sérgio Cunha.
Desde o início da coleção de “santinhos”, Alvair teve o cuidado de colocar em cada quadrinho o total de votos do candidato. Há casos curiosos, como um candidato que, casado, tinha oito filhos. Pois ele teve exatos 12 votos.
Os cadernos são separados por eleições e por coligações. Há informações sobre os eleitos e as respectivas votações de todos os candidatos. Algum tempo depois, com o advento da internet, as informações passaram a ser impressas num computador, inclusive resultados oficiais da Justiça Eleitoral.
“Eu decidi começar a coleção em 1992. Ia a todos os comícios e ficava procurando os papéis, já que naqueles tempos a propaganda política era simplesmente jogada nas ruas”, conta. “Se não encontrava o santinho de um candidato, voltava no dia seguinte e ficava procurando pelo chão”, diz, rindo.
Em uma das eleições, Alvair não conseguiu localizar o santinho do candidato Manoel Maia, embora procurasse por todos os cantos. Pois criou coragem e foi pedir ao próprio candidato, que também não tinha mas prometeu levar o papel dois dias depois. “Como político, este cumpriu a promessa, pois levou o santinho em casa”, elogia o colecionador.
Mas ele também tem um “truque” para não escapar nenhum candidato na coleção. Quando não houve meios de encontrar um santinho, ele recorreu às edições do DEBATE, que invariavelmente publica propaganda dos políticos em todas as eleições. “Na época que não existia internet, eu corria para comprar o jornal com medo de acabar. É que eu precisava da votação de todos na eleição”, conta.
Os amigos já conhecem o hobby de Alvair e muitos acabam trazendo santinhos, especialmente alguns mais raros. “Pego muitos na minha caixa de correspondência durante as eleições”, diz. Na verdade, nos últimos anos os políticos se conscientizaram e os papéis não costumam mais sujar tanto as ruas.
O aposentado diz que já varou madrugadas organizando os santinhos. Apesar de apaixonado pela coleção, Alvair admite que a mulher, Maria Augusta Nogueira Nantes, 58, no início torcia o nariz para o monte de papéis. “Ela já sumiu com um jornal velho que eu guardei, todo amarelado”, conta, rindo.
De fato, Maria Augusta diz que hoje “tolera” a coleção. “Eu ficava brava porque ele andava catando papéis na rua. Eu cheguei a jogar muita coisa fora. Hoje, porém, reconheço que é uma paixão dele”, diz a mulher.
Alvair já conta nos dedos a proximidade das eleições municipais do próximo ano. Ele acredita que, pelo fato de estar aposentado, vai conseguir pegar os santinhos de todos os candidatos. “Agora tenho mais tempo”, diz.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 18/08/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate