Esquema criminoso de Sueli Feitosa desviou quase R$ 11 milhões

Residência de Sueli Feitosa está bloqueada pela Justiça e poderá ser leiloada

Prefeito Otacílio Parras anuncia o resultado da perícia
contábil que apurou o desfalque nos cofres municipais

Chácara de Sueli tem piscina e uma grande capela

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A pergunta que o DEBATE vem fazendo ao governo desde o ano passado, através de requerimentos e pedidos de informações, foi respondida pelo prefeito Otacílio Parras (PSB) nos microfones da rádio Difusora na manhã de sexta-feira. A perícia contábil contratada pela prefeitura apurou que a ex-tesoureira Sueli Feitosa desviou R$ 10,9 milhões dos cofres públicos, no maior caso de corrupção da história de Santa Cruz. Em números absolutos o valor é de R$ 3,7 milhões, mas a atualização aos dias de hoje definiu o total do desfalque.

BLOQUEIO — Todos os bens de Sueli e dos familiares estão bloqueados para garantir a devolução dos cerca de R$ 11 milhões

O esquema criminoso foi descoberto na véspera do Natal de 2016, mas até agora a administração não tinha ideia de quanto dinheiro havia sido desviado. Contratado por R$ 100 mil em maio de 2017 para realizar o levantamento em um prazo de seis meses, o contador Gilberto Cordeiro de Jesus teve o contrato renovado várias vezes.
Há duas semanas, a promotora Paula Bond Peixoto anunciou que iria convocar o procurador Rodolfo Camilo — atual controlador do município — e o contador para explicarem a demora no andamento da perícia. Na semana passada, Gilberto Cordeiro entregou os relatórios ao prefeito.
O documento, que será encaminhado ao Ministério Público e Judiciário, informa que o desvio comandado por Sueli Feitosa durante praticamente 16 anos atingiu R$ 3.772.654,00. Atualizado, o valor chega a R$ 10.940.294,35. Todos os bens de Sueli Feitosa e de familiares estão bloqueados judicialmente para o ressarcimento dos valores, através de um futuro leilão. No entanto, não se sabe os valores totais do bloqueio.

Chácara de Sueli Feitosa

Os números da perícia contábil, porém, ainda não são oficiais, já que o Ministério Público ainda deverá analisar o relatório através de técnicos de uma divisão especial. Afinal, o próprio prefeito Otacílio Parras, que contratou a perícia, é um dos investigados pela Polícia Civil, uma vez que o nome dele foi citado por Sueli Feitosa numa “delação pública” feita em 2017.
A ex-tesoureira também citou como envolvidos no crime, direta ou indiretamente, o ex-prefeito Adilson Mira, o ex-secretário Ricardo Moral e o ex-presidente da Codesan Cláudio Agenor Gimenez. Este último, segundo Sueli, retirava o dinheiro já durante o governo de Otacílio Parras, através de envelopes que supostamente eram entregues por um motoboy. Já Ricardo Moral, que foi secretário no governo de Adilson Mira, segundo Sueli teria solicitado a retirada criminosa de valores “a pedido do chefe”.

‘Superiores’

Enquanto não se prova a participação de terceiros no desfalque criminoso de dinheiro público, o prefeito Otacílio Parras afirmou que os superiores da ex-tesoureira Sueli Feitosa não fiscalizaram adequadamente as contas do município. O prefeito não se referiu a si mesmo e a outros prefeitos, mas, mesmo sem citar nomes, sugeriu que o ex-secretário de Finanças, Armando Cunha, teria falhado.
“A forma como ela fazia e a maneira como funcionava a contabilidade da prefeitura e como as pessoas responsáveis pelas Finanças confiavam nesta pessoa, levavam todos a não conferir os números que ela lançava. Isto aconteceu nos mandatos do Mira, da Maura e no meu também”, afirmou. Para Otacílio, as mudanças impostas no setor financeiro tornaram praticamente “impossível” um novo desfalque.
O prefeito lembrou que o próprio Tribunal de Contas não descobriu o desvio do dinheiro ao longo dos anos, provavelmente por “excesso de confiança” na ex-tesoureira. “É aquele que fiscaliza as contas, mas não fez o papel dele”, disse, citando o TCE-SP.
Segundo Otacílio, é provável que, de acordo com os relatórios da perícia, que Sueli Feitosa retirava dinheiro de forma criminosa “de acordo com a sua própria necessidade”. Ele lembrou que a ex-tesoureira praticava, inclusive, “agiotagem” no balcão da prefeitura com dinheiro público.


NÚMEROS FINAIS? — Perícia realizada pela prefeitura apurou que Sueli Feitosa desviou R$ 11 milhões

Ex-tesoureira ganhou
ação contra município

Sueli de Fátima Feitosa deverá ser indenizada pelo município em aproximadamente R$ 18 mil. Este foi o resultado de uma ação trabalhista movida pela ex-tesoureira, reclamando da incorporação de diferenças salariais ao cargo de diretora. A Justiça decidiu que Sueli Feitosa deve ser indenizada pelo município.
Ainda há outra ação em andamento, ajuizada na época em que Sueli foi demitida “a bem do serviço público”, mediante um processo administrativo. O município não pagou os direitos trabalhistas da ex-tesoureira, que recorreu à Justiça. De acordo com o prefeito Otacílio Parras, a retenção das verbas trabalhistas foi uma opção da própria prefeitura. “Tudo foi retido e a Justiça foi avisada, para garantir o ressarcimento dos desvios ao município”, explicou. Segundo consta, Sueli perdeu esta ação em primeira instância, mas recorreu.
Todavia, o processo sobre a incorporação salarial já transitou em julgado e o município deverá pagar os R$ 18 mil a Sueli Feitosa mediante um precatório judicial. O prazo para quitação é 31 de dezembro do próximo ano. “É muito estranho a administração ter de pagar R$ 18 mil a alguém que deve mais de R$ 10 milhões ao município”, reclamou Otacílio.
O prefeito disse que, nos quatro anos do primeiro mandato, ele conversou com Sueli apenas uma única vez. O encontro teria sido no gabinete, numa reunião em que Otacílio anunciou que a gratificação de dezenas de funcionários seria retirada. Na ocasião, segundo o prefeito, Sueli reclamou que não conseguiria pagar a prestação do carro. “Ela disfarçava bem”, disse.

  • Publicado na edição impressa de 1º/09/2019
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