Mutuários da CDHU em Santa Cruz reclamam de reajuste abusivo

APERTO — Edson Nunes diz que a párcela está acima dos 15% da renda

Aumento nas parcelas pegou os mutuários de surpresa e deve
impactar orçamento das famílias; reajuste supera o de salários

Jucelina Vicentina perdeu o benefício federal e não sabe como pagar as prestações

Diego Singolani
Da Reportagem Local

Os moradores do conjunto habitacional “Joaquim Severino Martins”, em Santa Cruz do Pardo, tiveram uma indigesta surpresa nos últimos dias, quando receberam os novos talões das prestações dos imóveis. O valor das parcelas subiu consideravelmente, muito acima da inflação. De acordo com os mutuários, quando a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) inaugurou o bairro, há um ano, a previsão era de que as mensalidades não ultrapassariam 15% da renda familiar. Com o aumento, em alguns casos, o valor já chega a 25% e tem comprometido o orçamento principalmente das pessoas de baixa renda.
É o caso de Edson Nunes Coelho, 66, que mora com o filho Josué, 21, portador de uma síndrome rara que o deixa totalmente dependente do pai. Por causa disso, Edson não pode ter emprego fixo e sobrevive basicamente do benefício de um salário mínimo do filho. Edson morava anteriormente em uma área de risco na vila Divinéia e foi contemplado com uma das casas da CDHU sem passar pelo sorteio. “Disseram que a parcela seria simbólica, de no máximo 15% de um salário mínimo. Com muito esforço, apertando aqui e ali, decidimos encarar”, conta.
Edson começou pagando R$ 143,10. Depois, o valor subiu para R$ 174 e as próximas parcelas, de acordo com o novo carnê, irão atingir o patamar de R$ 210 reais. “Eu não estou entendendo este aumento. No meu caso, vai pesar muito. Quase todo o benefício eu gasto com o Josué, com seus remédios, alimentação especial e produtos de higiene”, relata.

AUMENTO — A família de Claudemir, com 13 pessoas, estranhou aumento

Na residência do ajudante geral Claudemir de Paula, 56, moram 13 pessoas. Até o mês passado, a família pagava R$ 643 reais, o que estava dentro dos 15% da sua renda doméstica. Com o aumento da CDHU, a nova prestação foi para R$ 712 reais. “Falaram que depois de um ano a parcela ia cair, e agora sobe tudo isso? Eu não tive aumento no meu salário nesse período”, disse Claudemir.
A diarista Débora Cristina de Moura, 45, vive com as duas filhas e os netos. Ela confirma que, quando assinou o contrato com a CDHU, a companhia informou que os acréscimos nas parcelas ocorreriam conforme o aumento de renda dos moradores. A prestação, entretanto, subiu de R$ 202 para R$ 237. Em contrapartida, seus ganhos com as faxinas seguiram na mesma. “É um dinheiro que faz falta no orçamento, principalmente para a gente que não tem ajuda de ninguém”, declarou Débora.
Já o mecânico Manoel Felipe dos Santos, 63, teve um aumento inesperado de R$ 35 em sua parcela e teme que os reajustes sigam nessa proporção. “O contrato não previa todo esse aumento. O valor da prestação é maior do que 15% da minha renda”, afirmou.
O caso de Jucelina Vicentina Pereira, 53, é emblemático. Ela estava aposentada há 23 anos, mas o Governo Federal cortou o benefício recentemente. Jucelina está recorrendo da decisão e, por isso, recebe pagamentos irregulares, às vezes de R$ 150, outras de R$ 120, sem um valor definido. Como mora sozinha, essa é única fonte de renda da casa. “Minha parcela subiu de R$ 149,80 para R$ 180,66. Não sei o que fazer. Disseram que a parcela iria cair depois de um ano”, reclamou a moradora.
Vanessa Aparecida Silva reside no conjunto habitacional “Joaquim Severino Martins” com o marido e o filho. Quando conseguiram a casa, Vanessa tinha um emprego fixo e a renda era maior. Hoje, ela faz “bicos” e o aumento nas parcelas já afeta a rotina da família. “Subiu de R$ 643 para R$ 709 e a última parcela do carnê novo vai para R$ 740 reais. Estamos assustados. Por ser uma casa da CDHU, eu acho que o valor deveria ser mais barato. A gente passa apertado”, revelou.

Manoel: reajuste não era previsto quando as famílias assinaram os contratos

Fala CDHU

Procurada pela reportagem, a assessoria de comunicação da CDHU encaminhou uma nota informando que as prestações pagas pelos mutuários são calculadas com base na renda familiar mensal. As famílias com renda entre um e três salários mínimos têm parcela equivalente a 15% do rendimento; famílias com renda entre três e cinco salários mínimos pagam prestações entre 15% e 20% da sua renda; quem ganha entre cinco e oito salários, desembolsa de 20% a 25%. Já a faixa salarial mais alta atendida pela CDHU, das famílias com renda entre oito salários mínimos e meio e dez salários mínimos, paga parcelas de 25% a 30% do rendimento mensal.
A empresa estadual informou, ainda, que em casos de suspensão ou corte de rendimento, o mutuário pode pedir a revisão do valor da mensalidade. O problema é a logística: os interessados devem comparecer ao escritório regional da CDHU em Marilia. Há também um telefone disponibilizado para o esclarecimento de dúvidas — (14) 2105-2999.

  • Publicado na edição impressa de 1º/09/2019
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