Artigo: ‘Não seja a sua própria caricatura’

Não seja a sua
própria  caricatura

Nayara Moreno
Da equipe de colaboradores

Raul Seixas um dia disse: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. É claro que o Maluco Beleza exagerou e usou da licença poética. Ninguém vai ficar trocando de personalidade e de opinião como se troca de roupa. Mas as palavras de Raulzito são grandes conselhos, principalmente para os idosos.
Nós vamos construindo nosso personalidade (virtudes, defeitos, manias, medos, obsessões) com o passar dos anos. Isso começa a ser moldado na adolescência e não para mais. Ou melhor, nunca deveria parar. Mas, infelizmente, para. Nossa transformação como ser humano (e dentro deste ser humano tem várias pessoas: o profissional, o marido/esposa, o pai/mãe, avô/avó, o cidadão, o amigo, etc) costuma ser brecada na fase idosa.
Isso acontece porque há um freio interno, acionado por nós mesmos quando estamos na velhice. Esse freio tem vários componentes, alguns positivos, alguns negativos, a maioria em excesso: pudor, vergonha, medo, preguiça, restrições físicas, dúvidas. A sociedade oprime e olha torto quando o idoso manifesta algum sinal de mudança em relação à pessoa que todos conheceram. Com certeza você já deve ter ouvido a frase: “Veja só, depois de velho ele resolveu…”.
E qual o problema de se resolver mudar depois de “velho”? Aliás, é bem aconselhável que algum tipo de mudança aconteça depois dos 60. É até coerente: o corpo muda, o tempo ocioso muda, a relação com o mercado de trabalho muda. Se tanta coisa muda, como se manter sendo exatamente a mesma pessoa? É importante se adequar à nova realidade para ser feliz. Essa nova realidade terá coisas boas e ruins. Como todas as fases da vida. É correto aproveitar o merecido tempo sobrando que a aposentaria oferece para viajar, ficar mais com a família, desenvolver um hobby, ir para o baile da Terceira Idade, qualquer coisa.
A vida mudou e você não precisa ser necessariamente a mesma pessoa que era quando tinha 30 ou 40 anos. Permita-se ser feliz diante daquilo que a vida propõe. A idoso deve aproveitar com mais intensidade as coisas boas que essa fase proporciona e se adequar da melhor maneira possível para enfrentar as adversidades.
Para conseguir isso, só mudando. Mudando rotina, conceitos, opiniões. Interromper as transformações naturais na personalidade após os 60 anos é dar um passo para trás e colocar um obstáculo gigante naquilo que todos nós, independentemente da idade, sempre deveríamos procurar: a maior qualidade de vida possível.
Não precisa ser uma metamorfose ambulante. Mas, sempre respeitando a própria história e sua família, é importante caminhar. E só há um jeito certo de caminhar: para frente.

Nayara Moreno
é enfermeira
pós-graduada e
Responsável
Técnica pela
AleNeto Enfermagem 

 

  • Publicado na edição impressa de 1º/09/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate