CARTAS – Edição de 1º/09/2019

‘Bom Jardim’

O trabalho de resgate das comunidades da Vila Divinéia e da Bom Jardim apoiado pela prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo é elogiável. Com imensa satisfação que li neste semanário o lançamento do documentário “Fala Bom Jardim”, justa homenagem ao líder comunitário Ailton dos Reis, assassinado em 2005. Ele foi um dos batalhadores para que o bairro progredisse e abandonasse as precárias habitações de madeira.
Na época, acompanhei o projeto de desfavelamento na gestão do prefeito Clóvis Guimarães Teixeira Coelho, com recursos do governo federal, quando trabalhei na redação do DEBATE. Foi uma luta árdua. Parabéns ao prefeito Otacílio Parras Assis pela sensibilidade de manter esse projeto de valorização dos dois bairros. E, claro, não podemos de esquecer a competência da coordenadora do “Cras Betinha”, Antiella Carrijo Ramos, nesse projeto social.
Me senti honrado pela leitura de um texto de minha autoria publicado na época da morte do líder comunitário nas páginas desse semanário, que chamava a atenção para o legado de Airton Reis, cujo artigo nem me lembrava mais de ter escrito.
— Aurélio Alonso, jornalista (Bauru-SP)

Auscwitzel?
Cena da semana: um saltitante e sorridente governador, dando murros no ar sobre a ponte Rio-Niterói, comemorando o abate do jovem Willian Augusto da Silva, de 20 anos, sequestrador de um ônibus com 39 passageiros, por um sniper escondido em cima de um caminhão de bombeiros. O ex-juiz Wilson Witzel, agora na condição de mandatário-mor do Rio de Janeiro, vibrava com a tragédia que chegara ao fim, convencido de que a orientação que deu para a segurança pública é correta: “mirar na cabecinha e… fogo… matar o bandido! Para não errar”.
Deu certo. Esgotados todos os recursos para a dissuasão do sequestrador, a alternativa que restava era o tiro. No caso, seis tiros. A imagem de sua Excelência, esbanjando alegria e correndo na ponte, ganhou espaços midiáticos pela extravagância da performance. Puro marketing. Por mais que se justifique a ação policial que culminou com o episódio, comemorar a morte de um sequestrador é gesto inapropriado para quem devia conservar (ou não?) traços da nobre missão de administrar a justiça. Witzel deu demonstração que está mais para Rambo do que para ex-juiz.
A estampa de violência que emoldura sua figura faz com que um dos maiores juristas do país, o desembargador e professor de Direito Penal Walter Maierovitch, lembre o horror de Auschwitz, onde os nazistas mataram 1,3 milhão de pessoas em seu maior campo de concentração, dentre as quais cerca de 1 milhão de homens, mulheres e crianças judias. Pergunta ele: o populista Witzel ou Auscwitzel?
O Rio de Janeiro mais parece uma praça de guerra. Os dados dão conta de que no primeiro trimestre deste ano, 434 pessoas foram mortas por intervenção policial. Média de sete óbitos por dia. Foi o maior número desde 1998. O fato é que a política de segurança pública, nesses estranhos tempos, se guia pelo mote: “matar ou matar. Bandido bom é bandido morto”. A doutrina, encampada pelo presidente da República, simpático a medidas como liberação do porte e compra de armas, desce como gigantesca cortina de sangue sobre o território, expandindo milícias, intensificando as agências funerárias, abrindo portões dos cemitérios. Foram 65.602 homicídios no ano retrasado, aumento de 4,2% em relação ao ano anterior e, o mais preocupante, um número recorde que equivale a 31,6 mortes para cada 100 mil habitantes – mais do dobro, por exemplo, da taxa de homicídios do Iraque, segundo estatísticas mais recentes da OMS, a Organização Mundial da Saúde. A entidade considera epidêmicas taxas de homicídio superiores a 10 a cada 100 mil habitantes.
De cinco doentes que baixam nos hospitais brasileiros, pelo menos um é vítima da “guerra civil” que mata três vezes mais que a violência nos Estados Unidos e mais gente que os mortos em conflitos étnicos. Em 30 anos, o número de vítimas fatais chega a mais de um milhão, bem mais que os 750 mil vitimados durante todo o período colonial da guerra de Angola.
Nas prisões-depósito, milhares de presos germinam novas formas de violência, enquanto as gavetas se entopem com milhares de mandados de prisão, envolvendo, no mínimo, outros milhares de bandidos soltos nas ruas, enquanto rebeliões se expandem em penitenciárias.
A brutalidade jorra em proporção geométrica e as paliativas soluções governamentais – melhoria e ampliação do sistema penitenciário, reforço e reaparelhamento das polícias – estão longe de um crescimento em proporção aritmética. Os cinturões metropolitanos, já saturados de lixões que ofertam um banquete pantagruélico para urubus, crianças e mães famintas, são também palco para a exibição de corpos chacinados em decomposição.
O Brasil, é triste, está se tornando um dos maiores assassinos da humanidade. Pior: a violência, de tão desalmada, aumenta a insegurança. Sem ânimo, emoções envenenadas pelo vírus da angústia, os cidadãos entram no limbo catatônico. E assim o mais rico país do mundo em recursos biológicos está se transformando no mais fértil país do mundo em registros necrológicos.
Nessa paisagem desoladora, emerge a figura saltitante do governador exibindo a estética desses tempos macabros. E onde está a prudência do juiz que Bacon tão bem descreveu? “Os juízes devem ser mais instruídos que sutis, mais reverendos do que aclamados, mais circunspetos do que audaciosos. Acima de todas as coisas, a integridade é a virtude que na função os caracteriza”.
— Gaudêncio Torquato, jornalista (São Paulo-SP)
Como destruir um país em nove meses
Assim que se começou a ensinar o Método Billings na minha comunidade – método contraceptivo aceito pela Igreja –, o primeiro casal engravidou logo na lua de mel… Confundiram os dias que deveriam evitar sexo! Lembrei-me desse fato quando nosso presidente criou toda essa balbúrdia, talvez por não ter entendido o famoso livro do sucesso, afinal, exerce a arte de fazer inimigos e influenciar ninguém.
É claro que o presidente não precisa saber de tudo, ele mesmo disse isso antes das eleições, não enganou ninguém. O problema é que seus escolhidos não o auxiliam como deveriam, provavelmente por incompetência mesmo. É gente psicótica sofrendo delírios incríveis, com teorias de conspiração pouco elaboradas e desprovidas de qualquer base científica.
Ignoram os fatos, como as fotografias dos satélites que o INPE analisa, daí extraindo alertas de desmatamentos e queimadas. A conspiração seria que os cientistas mentiriam e estariam a serviço de alguma ONG internacional. É claro que é mais que delírio, é crime, e de calúnia, difamação e injúria. E vejo um problema ainda mais grave, diante de um patrimônio brasileiro queimando, perdendo para sempre espécies ainda nem catalogadas, vê-se alguns fazendo graça, uma inacreditável falta de patriotismo!
E o pior dos assessores do presidente é não entenderem o que seja organização não governamental – ONG. É preciso alertar esses pedantes que o Clube de Oficiais é uma ONG, bem como o de sargentos e praças. A Igreja é uma ONG, bem como centros espíritas ou de umbanda. A Caritas é uma ONG, como são as Santas Casas (hospitais católicos), e atuam em todo canto, inclusive no Nordeste.
E as intenções das ONG? Todas têm uma agenda escusa? Veja-se meu exemplo, eu quero proteger os gorilas do Congo para as futuras gerações. Mas tem político congolês acusando-me de querer as riquezas minerais, especialmente o petróleo… Que coisa descabida, não tenho uma única ação de mineradora. Se eu, honestamente, quero proteger os gorilas, por que um europeu não pode querer sinceramente proteger a biodiversidade da Amazônia?
O presidente precisa ignorar seus bajuladores e observar melhor, pois o culpado dessa crise não está entre os jornalistas, nem brasileiros, nem estrangeiros. Também não são os cientistas, nem os ambientalistas e muito menos suas ONG – embora algumas estejam ali para cooptar os índios-, também não são os índios, nem os governadores, nem a Kátia Abreu, nem o Blairo Maggi, nem o Macron, nem a Merkel. O único grande culpado é o nosso presidente que apesar de não ter mudado nenhuma lei, conseguiu criar essa balbúrdia!
Em 13 de abril passado, o presidente proibiu os fiscais do IBAMA de cumprir a lei, ou seja, queimar caminhões, tratores e outros equipamentos. O que houve a partir de maio? Os criminosos fizeram mais, marcaram o “dia do fogo”, uma ousadia contra o Estado.
Qual a medida do ministro do Meio Ambiente? O IBAMA não consegue fiscalizar nem 1% dos alertas que o INPE produz, então a solução é trocar o INPE por uma empresa particular e já escolhida sem licitação, a Planet, e pagá-la sete milhões por ano. Ah, “ta OK”!
— Mário Eugênio Saturno (São José dos Campos-SP)

Lava-Jato, Brasil  e economia
Não é possível que alguém negue os benefícios que a Operação Lava Jato trouxe para o Brasil. Eu mesmo sou um entusiasta que muitos domingos passei com a bandeira brasileira na avenida Paulista, participando das convocações dadas pela falta de ética na política e pelas notícias assombrosas de corrupção no governo petista. Percorria todo o trajeto com o fervor da mudança para um Brasil mais justo.
E houve a mudança, tanto que esperávamos que o eleito presidente, Jair Bolsonaro, resolveria tudo num mesclado de ética militar que me remetia à época dos anos 70, em que realmente éramos felizes, naquele Brasil que se dizia repressor, mas no qual sobravam empregos.
O interessante é que, ao mesmo tempo em que a Operação Lava Jato descobria coisas, me questionava se essas coisas nada éticas já não existiam há muito tempo. E essa dúvida republicana me incomodou a tal ponto que, de forma abrupta, conflitava com os princípios ético-jurídicos que trazia da minha formação como advogado.
Do ponto de vista político-jurídico, tudo fazia sentido e justificava as manifestações, porém o rigor do desmantelamento do polígamo criminoso petista, que foi exemplar e fruto do mecanismo da delação premiada, ganhou aos poucos uma nova face de “brilhantismo persecutório”, com a qual, ao meu ver, extrapolou um pouco, fazendo da Operação Lava Jato uma vertente “ultrapassante” da sua original proposta.
O que destaco nesta reflexão é que muitos surgiram como heróis, outros como brilhantes protetores da pátria e um enorme número de autoridades se projetou através da Operação, prendendo uma quantidade enorme de pessoas e muitas vezes atropelando o estabelecido no Código de Processo Penal, além de exagerar nas atribuições magistrais, como ficou público através das ilícitas, mas perturbadoras, interceptações, daqueles que se atribuem a exegese do Direito e o papel do magistrado e dos membros do “Parquet” ou do Ministério Público Federal.
Não quero aqui tecer críticas aos condutores da Operação, muito menos ao Ministro da Justiça Sérgio Moro, pessoa ilibada, excelente magistrado, mas me atenho à questão de que devemos nos dirigir, de agora em diante, para o crescimento e fortalecimento da economia, porque senão o foco central será uma perpétua Lava Jato, e seu propósito será puramente político, ao se contornar como uma conquista política, portando-se até como se fosse um partido político.
A Lava Jato foi sim uma operação exitosa, mas que praticamente cumpriu seu papel. Temos agora, no âmbito internacional, que observar e levar adiante a imagem reparadora da corrupção do país e cumprir uma grande agenda político-econômica de crescimento, de tal sorte que os investidores tenham a percepção de que o trabalho de corrupção já foi feito, que estamos com a casa em ordem, temos segurança jurídica e nos encontramos prontos para receber investimentos.
A nossa indignação um dia nos fez sair às ruas pedindo um novo Brasil. Portanto, politicamente, mesmo que ainda tenhamos desdobramentos da Operação, o Brasil não se chama Lava Jato, mas Brasil Novo, passado por uma limpeza ética e pronto para crescer, afinal, os 13 milhões de desempregados não podem sonhar para sempre com dias melhores e ser eternamente vítimas da corrupção que um dia assolou nosso país
— Fernando Rizzolo, jornalista (São Paulo-SP)


‘Fotos do Leitor’

Série ‘Sete de Setembro’

Ainda na série de imagens dos antigos desfiles de Sete de Setembro em Santa Cruz do Rio Pardo, o leitor Edílson Arcoleze Ramos de Castro mostra um carro alegórico de 1961, desfilando pela atual avenida Cyro de Mello Camarinha. A alegoria foi feita pela antiga Máquinas Suzuki para homenagear o antigo Colégio Copanhia de Maria.

Sobre Sergio Fleury 4589 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate