A arte de ser alfaiate

LIÇÃO DE VIDA — Como alfaiate, Jorge Araújo se tornou próspero comerciante e formou uma grande família

Um dos mais antigos alfaiates de Santa Cruz, Jorge
Araújo admite que a profissão está em franca extinção

ALUGUEL EM ALTA – Jorge tem loja que aluga e vende ternos

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Há controvérsias sobre o surgimento do alfaiate, este profissional que há séculos é considerado um verdadeiro artista dos tecidos. Entre os séculos XII e XIV, a palavra já existia, mas designava aquele que apenas cortava tecidos. No entanto, a partir do século XVII, a profissão se espalhou pelo mundo e passou a ditar a moda. Em Santa Cruz do Rio Pardo, um dos mais antigos alfaiates dá um diagnóstico sombrio: a profissão será extinta em poucos anos.
Aos 78 anos, o experiente Jorge Araújo garante que uma peça confeccionada minuciosamente a mão, mesmo que vista melhor, não consegue disputar preços com as grandes confecções, ainda mais com a chegada de ternos da China. “Não dá para fazer qualquer acerto nos produtos chineses, pois até o forro é diferente”, explicou.
No entanto, outro motivo muito forte é a ausência de novos profissionais. Segundo Jorge, antigamente até adolescentes aprendiam a arte da alfaiataria, mas hoje isto é impossível devido à legislação. Os mais jovens preferem seguir outros caminhos e o resultado é que, caso você encontre um alfaiate, ele certamente será alguém da “Terceira Idade”. Assim, Jorge admite que não há o que comemorar o próximo 6 de setembro, “Dia do Alfaiate”.

ESTOQUE — Só em ternos, loja tem mais de 700 peças no estoque

Mas o fato é que, hoje, Jorge Araújo tem uma impressionante história de vida para contar, que começou aos 9 anos, quando ainda cursava o Grupo Escolar. À tarde, começou a aprender o ofício numa alfaiataria. Ele observava os funcionários e até fazia a “lição de casa”, usando a velha máquina de costura da mãe, uma Pfaff alemã.
O curioso é que a máquina existe até hoje, num prédio usado para ajustar ternos e vestidos de gala. “Ela acabou me dando a máquina de presente, que uso até hoje. Dificilmente quebra”, contou Araújo.
No emprego do antigo alfaiate Acácio, o menino aprendeu a fazer arremates, costurar e, muitos anos depois, realizar o difícil corte dos tecidos já com a medida do cliente. O trabalho, claro, não era apenas corte e costura. “Eu cuidava do passarinho do patrão e limpava toda a loja”, disse.
Na época, segundo ele, existiam muitas alfaiatarias em Santa Cruz, geralmente espalhadas pelos bairros. “Havia espaço para todo mundo”, lembra. Ainda adolescente, começou a se destacar tanto que passou a ser disputado por outros profissionais. Jorge, então, foi contratado pelo alfaiate Luiz Andreolli. Ficou cinco anos, até que decidiu morar em Astorga, no Paraná, onde tinha parentes. “Era difícil, pois não havia energia elétrica durante o dia. A gente usava ferro a brasa”, lembrou.
Jorge Araújo foi o principal funcionário da maior alfaiataria da cidade, até que o dono sofreu trombose e se afastou. “Fiquei quase dois anos tocando a loja, mas decidi voltar para Santa Cruz”, disse.
Já um profissional formado, ele comprou a alfaiataria de Luiz Santana, na rua Conselheiro Dantas. Era 1959 e os negócios prosperavam tanto que Jorge Araújo construiu um barracão nos fundos de sua residência para ampliar o trabalho. “Era a época áurea do café e cheguei a ter 14 funcionários na costura”, lembrou.
Em meados da década de 1960, Jorge foi aprovado num concurso para a Polícia Civil, com plantões designados em outra cidade. “Eu fazia os cortes, deixava tudo pronto para os funcionários e partia para Sorocaba”, contou. Apesar de estressante, Jorge garante que dava conta do duplo serviço.

RELÍQUIA — Jorge conserva a máquina de costura que ganhou da mãe

Drama

COSTURANDO NA POLÍTICA — Jorge entrou na política pelas mãos de Franco Montoro; na foto, com o ex-governador e o músico Mário Nelli

No entanto, foi nesta época que ele sofreu um grande drama: seu comércio pegou fogo, destruindo tudo. O problema é que Jorge ficou com dívidas enormes e sem estoque. “Resolvi procurar cada um dos credores, levando o registro de ocorrência do incêndio, e explicar o que aconteceu. Disse a todos que pagaria a dívida, mas eles deveriam ter paciência”, contou.
Entretanto, Jorge teve uma bela surpresa. Um dos credores se compadeceu da situação e enviou caixas e caixas de tecidos para o alfaiate. “Foi de surpresa. Quando recebi, entrei em contato imediatamente, pois poderia ser um engano. Aí ele disse que somente produzindo eu poderia pagar minha dívida”, lembrou.
Em poucos meses, Jorge se reergueu e cumpriu a promessa de nunca abandonar aquele fornecedor. “Ele morreu há pouco tempo, mas seu gesto foi marcante para mim. Virou meu grande amigo e, acredite, nem cobrou juros”, disse.
Jorge ainda pegou a época em que o terno era obrigatório nos finais de semana. “No jardim, a gente só via gente de terno. Não dava nem para distinguir o rico do pobre”, disse. Quando abriu uma loja de confecção e, mais tarde, de aluguel de roupas para festas, os negócios cresceram.
Popular, ele ainda foi vereador por vários mandatos e presidente da Câmara em duas legislaturas. Em algumas, quando o terno era obrigatório, todos os colegas usavam peças feitas por Araújo. “Tanto da oposição como da situação, todos eram meus clientes. A gente discutia em plenário e, no dia seguinte, conversava na minha loja”, lembrou.
Apesar das inúmeras atividades, ele gosta de lembrar que nunca deixou de ser alfaiate. Mesmo hoje, quando Jorge Araújo deixou de confeccionar ternos. Ele compra em lojas escolhidas a dedo — que somente um alfaiate é capaz de avaliar — e continua fazendo os ajustes para os clientes.
Pai de quatro filhos, um dos quais falecido, Jorge garante que, caso pudesse começar tudo de novo, seria novamente alfaiate, mesmo apostando na extinção da profissão. O terno, afinal, nunca sai de moda e sempre haverá a necessidade de algum ajuste nas mãos de um bom profissional.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 1º/09/2019
Sobre Sergio Fleury 4589 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate