Uma nação de obesos

O médico endocrinologista e metabologista Valdinei Garcia, durante entrevista

Brasil já tem maioria acima do peso, mas, segundo
médico, não está pronto para incluir gordos na sociedade

Diego Singolani
Da Reportagem Local

Nem todo gordo é doente. Porém, os riscos à saúde aumentam consideravelmente em pessoas obesas. O alerta é do médico endocrinologista e metabologista Valdinei Garcia, que elenca diversos distúrbios associados ao excesso de peso. O especialista defende que, ao mesmo tempo em que ações que estimulem a alimentação e os hábitos saudáveis sejam intensificadas, a sociedade também deva se preparar melhor para garantir inclusão e acessibilidade aos obesos, que, em breve, serão a maioria da população brasileira.
Atualmente, mais de 50% dos brasileiros está acima do peso. De acordo com Valdinei Garcia, estudos apontam que até 2040 o Brasil pode ser tornar, proporcionalmente, o pais mais obeso do mundo. Em 2013, a “American Medical Association”, uma das organizações médicas mais influentes do planeta, decidiu classificar a obesidade como doença.
Ao longo dos anos, outras entidades médicas internacionais — incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS) — reconheceram a condição como um problema crônico, que necessita de tratamento específico e de longo prazo.
É considerada obesa a pessoa que tem o seu Índice de Massa Corporal (IMC) maior que 30. O índice é calculado dividindo-se o peso do paciente pelo quadrado da sua altura. “O IMC é um bom calculo pois é fácil de explicar ao paciente e é baseado na média populacional. Obviamente, pessoas muito altas ou baixas tem outra referência”, explica o endocrinologista.
O excesso de peso está associado a sobrecarga de tecidos ósseos, como os das articulações, podendo levar a artroses. Também é causa de alterações hormonais, caso da insulina, sendo importante fator de risco para o diabetes.
Pesquisas também comprovam a maior incidência de diversos tipos de canceres entre a população obesa. “Existem obesos que têm todos os exames perfeitos. São privilegiados pela natureza, mas não devem depender da sorte. Depois de 20 anos, por exemplo, podem começar a ter alguma alteração e aí acontece um efeito dominó”, diz Valdinei.
Outro problema é a apneia do sono, que aumenta o risco de morte súbita. “A pessoa ronca muito e, em alguns momentos, perde o fôlego durante o sono. Quanto mais tempo ela fica sem respirar, maiores as chances de apresentar alterações cardíacas, como arritmias”, alerta o médico. Cerca de 75% dos novos casos de hipertensão arterial também são registrados em pessoas com excesso de peso.

“Um momento de estripulia alimentar pode ocorrer, faz parte do convívio social”

Modernidade

O corpo humano não foi projetado para suportar o excesso de peso. O médico Valdinei Garcia explica que a mudança de paradigmas sociais, principalmente após a revolução industrial, fez com que o acesso a calorias se tornasse muito mais fácil. Por um lado, este cenário possibilitou ao homem chegar a lugares onde jamais imaginou. Por outro, se tornou um fator de adoecimento na sociedade moderna. “Nossos antepassados tinham que conseguir durante o dia aquilo que comeriam a noite. Hoje, temos geladeira e dispensa para armazenar, temos os mercados à disposição, fast food, máquinas para o refinamento de alimentos etc. Isso contribui para que consumíssemos mais energia do que precisamos para viver”, diz.
E, claro, todo este excedente se transforma em tecido adiposo. O especialista também destaca o fato de os alimentos ricos em carboidratos e gorduras serem os mais baratos, justamente os que mais engordam.
O endocrinologista chama a atenção para o risco da gordura visceral. “Esta é a mais perigosa. O paciente pode ter os braços e pernas finas, mas muita gordura no abdômen, entre o intestino. É uma gordura diferente daquela sob a pele, até na cor. Esta gordura desencadeia diversos processos inflamatórios no corpo”, explica Valdinei.
O médico revela que o índice de pessoas que consegue superar a obesidade de modo adequado, mesmo com os melhores e mais caros tratamentos, não passa de 35%, o que mostra a dificuldade do emagrecimento e a importância da prevenção. “Um momento de estripulia alimentar pode ocorrer, faz parte do convívio social, mas deve se reservado para dividir com a família ou amigos, uma vez por semana. Nos outros dias, o ideal é manter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física”, afirmou.
Valdinei defende que o trabalho de conscientização comece com as crianças, nas escolas, alertando sobre os riscos da obesidade. O médico salienta que é fundamental que a sociedade compreenda a obesidade como uma questão que envolve a todos. “Os acentos em aviões, carros, roupas, muita coisa precisa ser adaptada no Brasil para atender as necessidades desta população. Toda família hoje em dia tem pelo menos um obeso e os estudos indicam que eles devem se tornar maioria. Nosso papel é buscar garantir melhor qualidade de vida a essas pessoas, porém, sem jamais discrimina-las”, declarou.

  • Publicado na edição impressa de 08/09/2019
Sobre Sergio Fleury 4727 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate