‘Não pensei que pudesse acontecer’

LEMBRANÇAS — Maria Madalena disse que vai guardar as “lembranças boas” do filho Paulo, que morreu jovem

Mãe relembra morte precoce do único filho, aos 30
anos de idade, e alerta para os indícios da depressão

Diego Singolani
Da Reportagem Local

Era manhã de sexta-feira, 30 de novembro de 2018. A vendedora Maria Madalena Braga, 58, conversava com uma amiga na cozinha de casa, no Jardim Eleodoro, em Santa Cruz do Rio Pardo. A poucos metros dali estava o filho Paulo Vitor Fantineli, 30, o “Pê”, como ela o chamava. Eles haviam chegado de viagem e Paulo disse que queria descansar. Passado algum tempo, Madalena o chamou. Não teve resposta. Ela foi até o próprio quarto, onde Paulo costumava se deitar às vezes. Ele não estava lá. Madalena foi, então, ao quarto do filho. Tornou a chamá-lo. Ouviu um barulho estranho, quase um suspiro. Ao empurrar a porta entreaberta, percebeu que havia algo emperrando do outro lado. Pela fresta, Madalena viu que era o filho, ajoelhado, e, por um breve momento, pensou que ele estivesse rezando. Os minutos seguintes mudariam para sempre a vida da família. O suicídio do jovem educador físico, repleto de amigos e vencedor de concursos de beleza, abalou a região.
Paulo era filho único. A mãe conta que, desde criança, sempre foi sociável e apaixonado por esportes. “Todo mundo gostava do Paulo. Além de um menino lindo, ele tinha um coração enorme. Só enxergava o lado bom das pessoas”, diz Madalena. Paulo seguiu sua vocação e se tornou educador físico. Mantinha uma rotina de atleta e chegou a disputar — e vencer — concursos de fisiculturismo na região. Ele também coordenava projetos da prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo, como o “Caminhar”, voltado para os idosos.

DOR — Madalena recebe apoio de amigos e da sobrinha Mara

Com a carreira em ascensão e recebendo propostas de trabalho, Paulo, aparentemente, experimentava uma das melhores fases de sua vida. Inclusive, tinha realizado há pouco tempo o sonho de comprar o carro que tanto queria, equipado com o som que sempre desejou. “Parece que foi logo depois de comprar esse carro que as coisas começaram a mudar”, relembra a mãe.
De acordo com Madalena, em cerca de quatro meses, o filho definhou emocionalmente. “Ele começou a dizer que não conseguia dormir. Às vezes não tinha vontade de treinar. Até o açaí, que ele amava, parou de comer”, conta.
Paulo, na verdade, estava com depressão. A mãe diz que ele procurou ajuda médica e estava tomando remédios sem avisar a família. “Chegou um momento que ele não aguentou e decidiu se abrir. Mas ele não queria que eu contasse para ninguém. O Paulo não queria mostrar fraqueza”, afirma Madalena.
Além do acompanhamento psicológico, a família buscava na religiosidade apoio para enfrentar a situação. “Tinha momentos que eu achava que ele estava melhor. Mas aí ele falava que iria embora e que não queria que eu sofresse. Ele dizia que ia para a casa do pai”, conta. Madalena achava que Paulo se referia realmente ao seu pai, que mora em Siqueira Campos, no Paraná. Infelizmente, não era.

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Maria Madalena e o filho Paulo Vitor Fantineli: boas lembranças

O quadro de Paulo se agravou. Ele continuava com o tratamento, mas dizia à mãe que não conseguia dormir. “Em uma noite, ele teve uma crise de ansiedade por causa de um grilo. Dizia que o grilo queria pegá-lo. O Paulo não se acalmou até acharmos o inseto”, conta.
O jovem era extremamente apegado à mãe. “Às vezes, ele ia para o meu quarto, sem sono. Não queria ficar sozinho. Víamos o dia amanhecer juntos”, diz Madalena. Semanas antes de sua morte, Paulo revelou ao namorado da mãe que tinha pensado em jogar o carro embaixo de uma ponte, quando voltava de uma festa da família. A ideia do suicídio parecia consolidada.
“Eu jamais imaginava que algo assim fosse acontecer com meu filho. Hoje, se eu percebo algum sinal em alguém, vou conversar com a família”. As pessoas deveriam falar mais a respeito, procurar os amigos. Só depois que acontece a tragédia é que ficamos sabendo o que se passava. Do Paulo, carrego as lembranças boas e a certeza de que um dia vamos nos encontrar”, afirma Madalena.


Muita atenção aos sinais

De acordo com o Ministério da Saúde, o suicídio é um fenômeno complexo, multifacetado e de múltiplas determinações, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero. Mas pode ser prevenido. Saber reconhecer os sinais de alerta em si mesmo ou em alguém próximo pode ser o primeiro e mais importante passo. Depois, é fundamental buscar ajuda médica especializada.
Os sinais não devem ser considerados isoladamente. Não há uma “receita” para detectar se uma pessoa está em crise suicida, nem se tem algum tipo de tendência suicida. Entretanto, um indivíduo em sofrimento pode dar certos sinais que devem chamar a atenção de seus familiares e amigos.
O aparecimento ou agravamento de problemas de conduta ou de manifestações verbais durante pelo menos duas semanas — essas manifestações não devem ser interpretadas como ameaças nem como chantagens emocionais, mas sim como avisos de alerta para um risco real.
Preocupação com sua própria morte ou falta de esperança — as pessoas sob risco de suicídio costumam falar muito sobre morte e suicídio e confessam se sentir sem esperanças, culpadas, com falta de autoestima e têm visão negativa de sua vida e futuro.

  • Publicado na edição impressa de 08/09/2019
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