Breve história do ‘Borogodó’

Ubirani Ferraz Gonçalves*

Dez anos atrás, em setembro de 2009, logo após minha aposentadoria, tomei coragem e decidi formar um grupo de samba clássico – ou raiz – em Santa Cruz do Rio Pardo. Foram muitas razões para tal, mas a principal esteve vinculada ao relativo esquecimento desse gênero musical, genuinamente brasileiro, pelos meios de comunicação (rádio e TV), principalmente nas cidades do interior do Brasil.
A formação de um grupo com repertório só de clássicos do samba seria a inauguração, em nossa cidade e talvez na região, de um espaço dinâmico de congregação, comunhão e encontro daqueles que admiravam esse tipo de música. Talvez até constituísse um espaço de resistência contra a avalanche de música estrangeira ou de outros gêneros, como a música sertaneja, que preenchiam com maior frequência as mídias sonoras.
Para concretizar meu objetivo, convidei músicos e cantores da cidade, a maioria jovens. Expliquei a eles a intenção de pesquisar seriamente e dar vida ao vasto repertório da MPB, que, por força das circunstâncias, estava adormecido no fundo do baú das produções musicais brasileiras. A resposta dos primeiros convidados foi positiva, ainda que, para alguns deles, a ideia parecesse uma novidade na cidade.
Depois das pesquisas e dos ensaios preliminares, fizemos a primeira apresentação pública no pátio de um posto de gasolina, numa manhã de domingo. Houve uma excelente receptividade — o público gostou do show e aplaudiu aqueles 12 músicos que tinham se reunido para compor o grupo e passar a defender o samba brasileiro de raiz.
A palavra ‘Borogodó’, que serve de título para nosso grupo, é uma gíria antiga usada nos morros cariocas, que serve para definir uma pessoa atraente e irresistível — se diz, por exemplo, ‘uma mulata cheia de borogodó’. Além disso, a palavra ressoa o gingado encontrado nas rodas de samba ou repiques da percussão. Vale dizer que o batismo do grupo com esse nome surgiu de uma visita a Santa Cruz do meu sobrinho Kaoê, residente em São Paulo. Numa conversa, ele informou que frequentava o ‘Ó do Borogodó’ na capital — a palavra soou bem e, de imediato, resolvemos batizar nosso grupo de Borogodó do Samba.
Para deixar bem marcado o estilo de música que apresentamos e defendemos, o nosso uniforme, com calça branca e camiseta listrada, resgata a imagem do sambista clássico. De fato, hoje somos rapidamente identificados pelo uniforme que usamos nas nossas apresentações. Vale aqui lembrar Assis Valente, que, em 1937, compôs ‘Camisa Listrada’, música que girou o mundo na voz de Carmen Miranda e que, de uma forma ou outra, serve para identificar os sambistas de verdade.
O Borogodó do Samba, hoje com nove integrantes, já se apresentou em dezenas de cidades da região, tendo viajado um pouco mais longe, até Sorocaba e Maresias. Jamais quisemos nos transformar num grupo profissional: pelo contrário, ainda que sejamos rigorosos em escolha de repertório e qualidade de shows, nunca perdemos a nossa natureza de amadores. No nosso círculo, local em que aprendemos e nos renovamos musicalmente, não há espaço para estrelas e nem exibicionismo de alguns poucos — aqui somos todos iguais, somos amigos e aprendemos um com os outros, cultivando o samba, ritmo que amamos.
Escolhemos como sede de nosso aniversário de 10 anos o restaurante ‘O Casarão’, na sexta-feira, 6, onde tocamos a partir das 20h30 em virtude do reconhecimento que temos aos proprietários — pessoas que abriram as portas para inúmeras apresentações ao longo desse tempo e, também, por ser um espaço ideal para um encontro afetuoso, alegre e festivo, com o público que sempre nos prestigiou.

Ubirani Ferraz Gonçalves é músico e integrante do grupo Borogodó do Samba

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Proprietário e Editor do Jornal Debate