Nalini: ‘Faltam é leitores!’

Faltam é leitores!

José Renato Nalini *
Da Equipe de Colaboradores

A crise das livrarias e das editoras é previsível num país que alfabetiza mal. O analfabetismo funcional é fenômeno que está em todos os espaços e chegou à Universidade. Se é que se pode chamar de Universidade a empresa que visa lucro e promete a incautos, insuficientemente alfabetizados, que um diploma ao final do curso abrirá todas as portas. Mentira! Elas continuarão fechadas. O pior é que o aluno gastou dinheiro, perdeu algum tempo e se sentirá frustrado. Ele comprou um diploma. O que fazer com ele agora?
Se ele tivesse permanecido em casa lendo os clássicos, teria ganho em sabedoria. Teria condições de escolher uma atividade lucrativa que não precisa, necessariamente, de um canudo universitário. Hoje algo que só serve para quem acorda e passa a enxergar o que a Universidade não tem interesse de mostrar: quem faz o futuro é o aluno, não a escola.
Leitura faz falta e o que falta no Brasil é leitor. Não é livro. Nunca se escreveu tanto. Todos escrevem. Todos querem se eternizar e conseguem publicar. Há empresas especializadas em publicar apenas um exemplar do livro, se o autor quiser. É legítima a pretensão de ver suas elucubrações, suas fantasias, suas memórias, suas experiências, impressas no papel. Ou reduzidas a um e-book, que é outra alternativa para quem queira escrever.
O grande problema brasileiro é que a leitura é considerado um castigo. Na escola, “manda-se” ler um livro como tarefa. Como dever de casa. Isso afugenta quem não tem paciência para se deter com atenção em um texto. Cinco minutos e aquele cansaço é invencível. Tem-se vontade de fazer outra coisa. Reparem que a leitura como obrigação é um suplício. O aluno até quer tentar. Mas pede para ir ao banheiro. Ou fica distraído. Ou brinca com o colega. O que se aproveitou dessa leitura forçada? Nada.
Leitura é prazer. É a oportunidade de viajar sem pagar passagem. Sem sair do lugar. Às vezes, sem sair da cama.
Se tivéssemos o talento de mostrar à criança, desde cedo, o quão prazeroso é ler, teríamos a “Nação de leitores” que foi prometida e descumprida, porque parece que os políticos profissionais preferem uma “nação de eleitores”. Mesmo que a maior parcela deles seja iletrada, tenha alergia a livro e não se convença de que autonomia, liberdade, independência pessoal e profissional se consegue através de uma prática gratuita e negligenciada: o autodidatismo. Quem quer aprende. Quem não quer, faz outras coisas. Até fingir de ensinar.

* José Renato Nalini
é desembargador,
ex-secretário de
Educação de São
Paulo, Reitor da
Uniregistral,
palestrante e
conferencista

Sobre Sergio Fleury 4727 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate