Pascoalino: ‘Uma árvore na gaveta’

Uma árvore na gaveta

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Maxado, Jerônimo Soares e João de Barros, o JB, eram três xilógrafos que mercavam nas manhãs de domingo na Praça da República, no centro velho de São Paulo. Um dia, as autoridades municipais acabaram com aquela feira de artes com a desculpa de que o movimento de turistas estressava os pombos da praça com tantas línguas estranhas. A feira voltou, alguns anos depois, com um novo prefeito e a as novas descobertas dos especialistas em aves e línguas estrangeiras.
Jerônimo e JB eram pernambucanos; Maxado, baiano de Feira de Santana. JB foi marceneiro e entalhador na sua terra natal, mas agora vivia da venda dos folhetos de sua autoria, como “O rapaz que virou cachorro porque zombou do Padre Cícero”. E porque lhe sobrasse tempo ou rareasse dinheiro, JB também ilustrava os livrinhos dos compadres repentistas que não sabiam entalhar clichês nos rudes tacos de umburana. Era dele, por exemplo, a capa de “A briga dos cachorros com Waldick Soriano”. Jerônimo ainda não versejava — só ilustrava. Defendia-se vendendo folhetos de outros artistas nordestinos para quem criava capas, e uns cartões de Natal, e umas xilogravuras maiores.
Maxado também tinha o pomposo nome de Dr. Franklin de Cerqueira Machado, mas resolveu trocar o canudo de bacharel pelo direito de só fazer literatura de cordel. Poeta, palestrante e xilógrafo, assinava entre outros títulos famosos, “A volta do pavão misterioso” e “Paulista virou tatu viajando pelo metrô”.
Dos três, eu me demorava mais era na banca do Jerônimo, pois achava que ele compensava a falta de versos próprios e de diploma de baiano com seus desenhos improváveis. Acabei comprando dele uma xilogravura chamada “A árvore que dá dinheiro”, que dei por perdida numa das minhas mudanças de pensão em pensão na capital.
Era uma árvore comum, de porte médio, só que no lugar das folhas e dos frutos, Jerônimo tinha desenhado notas de valor legal. E, como se não bastasse, colocou homens e mulheres colhendo dinheiro nos galhos mais altos enquanto outros recolhiam as notas que tinham caído de maduras no chão. Como havia dinheiro bastante para todos, a colheita era feita sem pressa, em balaios e jacás abertos, como se aquilo fosse um pé de manga ou outra fruta domesticada.
Um dia, procurando papéis para contagem de tempo para a aposentadoria, encontrei “A árvore que dá dinheiro” numa caixa de camisa, entre meus boletins escolares e lembrancinhas de batismo e de missas de sétimo dia. Na busca apressada aos comprovantes de algum vínculo empregatício, deixei a xilogravura sobre a escrivaninha para emoldurar depois.
A princípio, aquela me parecia uma boa surpresa. Na caixa também encontrei o diploma de honra ao mérito que recebi por um trabalho escolar no último ano do grupo — minha homenagem ao Dia da Ave, ilustrada com o sabiá da embalagem do emplasto milagroso entre letras pintadas com lápis de cor. Assinava o diploma uma legião de autoridades defuntas, todos, evidentemente, vivos naquele tempo; a começar pelo presidente da República, o governador do Estado, o presidente honorário da Sociedade Ornitológica Bandeirante, o cardeal arcebispo de São Paulo e, por último, o diretor do nosso grupão.
Mas como até o tempo muda em questão de minutos, naquele mesmo dia, a patroa encontrou a xilogravura sobre a escrivaninha: “Não vá me dizer que você está pensando em pendurar isso na parede”. O meu silêncio era a resposta eloqüente que ela conhecia bem. Um materialista não deve levantar essas questões em público, mas, e se aquela xilogravura fosse uma mandinga, um sapo enterrado na minha casa? Por que o dicionário de folclore de Luis Câmara Cascudo não traz uma linha sobre essa árvore prodigiosa? E se a patroa tivesse mesmo razão?
Se nada acontece por acaso, talvez aquela árvore tivesse alguma coisa a ver com o que o destino reservou para mim. Que outra explicação para as pessoas me tratarem como se eu tivesse um pé-de-dinheiro e colhesse notas na sombra do quintal? Essa falsa imagem de autonomia ou autossuficiência me custou caro: não me pagaram nem as parcas apostas que ganhei!
De qualquer forma, era tarde para dar um fim naquela velha xilogravura, mas acabei não emoldurando “A árvore que dá dinheiro”. Pelo sim, pelo não, pesaram as palavras da patroa: “Se descobrem que você tem isso aqui em casa, não te dão nem a aposentadoria!”.

  • Publicada originariamente em 27/05/2001
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