Aos 84 anos, ainda na boleia

João Lamino continua na estrada, como caminhoneiro, mesmo aos 84 anos

Caminhoneiro há 58 anos, João Lamino nem sabe
quantos quilômetros já rodou ou ainda vai rodar

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Na segunda-feira, 9, o aposentado João Lamino completou 84 anos. Também nesta data, durante a tarde, ele foi e voltou de Sertanópolis-PR, surpreendentemente a trabalho. Ele é caminhoneiro há 58 anos e garante que, por ele, continuará na luta por muito tempo. Primeiro pelo amor à profissão e, segundo, pelas próprias necessidades, já que o valor da aposentadoria caiu ao longo dos anos.
Lamino começou trabalhando na roça. Veio para a cidade e tentou a vida como pedreiro. Desde então, passou por diversas profissões até que, em 1961, passou a ser caminhoneiro. Se apaixonou.
O primeiro caminhão não era de sua propriedade. Trabalhava em uma empresa, para a qual buscava mercadoria em São Paulo. Em seguida, passou por uma cerealista. Quando deixou a empresa, decidiu que compraria o próprio veículo. Os serviços praticamente duplicaram e João Lamino se debruçou sobre a estrada.
Hoje, tem um Mercedes amarelo ano 1975. Era um dos primeiros donos, mas decidiu vendê-lo para comprar outro mais novo. Com o dinheiro guardado, foi pego de surpresa com o Plano Collor, que confiscou todo o dinheiro depositado em bancos ou poupanças dos brasileiros.
Foi um baque. Preciso economizar novamente para comprar outro. Quando conseguiu, graças a um empréstico do dono de uma cerealista, teve um choque. O caminhão escolhido era o Mercedes velho de guerra, que fora dele anos antes. A princípio, nem acreditou. No entanto, decidiu não largar dele nunca mais. Virou seu “companheiro” nas estradas.
“Já perdi a conta de quantos quilômetros rodei”, conta João. Ele já foi de norte a sul e levou muita castanha ao Rio de Janeiro. Aos 84, embora admita sentir o peso da idade, João não se desprende dos velhos hábitos. “Durmo na estrada se preciso. Mas sempre busco me cuidar”, disse. De fato, é ele quem amarra a carga, com uma agilidade de dar inveja em jovens.

HISTÓRIA — João em frente ao caminhão do qual foi um dos primeiros — e o terceiro — dono

 

MEMÓRIA — Foto antiga mostra João Lamino jovem e esportista

“Preciso saber a hora e onde vou parar. Não tenho o mesmo pique de antes, quando era jovem e aguentava noites sem dormir”, afirmou. Lamino também afirma ter cautela com o local de parada. “Nunca sofri um assalto, apesar de já ter visto muitos. Mas os tempos mudaram”, afirmou.
O caminhoneiro também nunca se acidentou, pos garante é prudente. “O problema é que estamos sós na estrada. Sempre se deve prestar atenção, pois pode acontecer a qualquer momento — e nem sempre o culpado é você”, explica o aposentado.
Multas, ele admite que já levou. “Todo motorista está sujeito a isso”, relata, rindo.
Pela idade e aparência mais jovem, João Lamino é até motivo de curiosidade por parte dos policiais que o param na estrada. “Às vezes pedem para que eu desça do caminhão para verem meu porte. E eu digo: sou firme e forte”, declarou.
Na semana passada, João esteve em Maceió. Não foi a trabalho, embora já tenha ido muitas vezes à cidade alagoana. Desta vez, viajou a passeio. A aventura, na verdade, foi um “suspiro” ao aposentado, que conta nunca ter tirado férias. “Só trabalhei a vida inteira. Agora, com os filhos formados, mereço um descanso”, disse.
Com mais de meio século de estrada, João Lamino certamente tem muita história para contar. Porém, admite que o cenário da profissão piorou muito. “Hoje há muitos caminhões, pedágios, e os veículos são mais suscetíveis a danos. É eletricista e borracheiro para todo canto. Sem contar as estradas, que estão mais perigosas”, relata. “Além disso, os próprios motoristas pioraram seus comportamentos”, explicou.
Outro problema que enfrenta é o valor das peças do veículo de qualquer profissional. “Um só pneu, por exemplo, passa de 500 reais”, disse Lamino, cujo caminhão possui dez.
Mas os problemas não fazem João desistir. “Se eu parar, vou passar o tempo com o quê?”, indaga. E prossegue, dizendo que cada um tem suas preocupações. A dele, claro, é mais do que isso: a profissão que exerce há 58 anos. “Não vejo, então, por que parar”, afirma Lamino.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 22/09/2019
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