Beto Magnani: ‘O iceberg 2’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

O iceberg 2

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

Acordei. Dia ainda. Bom. Tentei levantar e abrir a janela para o sol entrar no quarto. Não consegui. Permaneci deitado. Continuei me limitando em senti-lo pelas frestas. O som da rua parecia um pouco mais baixo do que pela manhã, quando adormeci.
— Deve tá chegando. Faz mais de uma hora que saiu de lá. – falou uma mulher bem em frente à janela.
— Sim. — respondeu a mesma voz que ouvi de manhã. Da pessoa que só dizia sim.
— As cinzas da minha mãe ficaram um ano no armário da minha irmã. Ela queria jogar na neve porque minha mãe adorava a neve. Ela sabia o nome de todos os Icebergs do mundo. Dos maiores, claro. — contou emocionada a mulher.
— Sim
— Minha irmã guardou o dinheiro da venda da Alfafa e finalmente foi à Patagônia com as cinzas.
— Sim.
— Despejou as cinzas embaixo de uma árvore grande coberta de neve.
— Sim.
— O problema é que a as cinzas congelaram e não se misturaram a neve. Ela ficou no lugarejo até as cinzas derreterem. Foi uma semana passando todos os dias na árvore para ver se a mamãe já tinha descongelado. Mas descongelou graças a Deus.
— Sim.
— Esse negócio de cremar é bom, mas depois sempre sobra essa função de jogar em algum lugar. Minha madrinha esqueceu de buscar a do marido. Quando foi já tinha passado o prazo. O pessoal do crematório enterrou dentro de uma caixinha no jardim que tem em volta. É o que falaram pra ela. Procedimento padrão quando não buscam.
— Sim.
— O Alberto, lá do escritório, está com o melhor amigo na estante de casa há semanas porque a mãe do melhor amigo pediu pra ele ir buscar antes que vencesse o prazo. Ele foi. Mas até hoje ela ainda não buscou na casa dele. Conheço varias histórias de cinzas.
— Sim.
Um telefone tocou.
— Alô. — atendeu a mulher – Sim, mais tarde passo aí pra acertar. Tem multa? (TEMPO) Duzentos contos por um dia de atraso! Que absurdo! Assim é fácil lucrar vinte cinco bilhões! Até eu. (TEMPO) Tá bom.
Desligou o telefone e respirou fundo. Bem fundo. Um carro parou. Uma batida de porta. Alguém desceu. O carro saiu.
— Como foi lá? Liberou os ossos do vô? — perguntou a mulher.
— Sim. Foi ótimo. Deu tudo certo. – respondeu a outra voz que eu também ouvi de manhã. Da pessoa que tinha saído de carro.
— Sim.
— Só demoraram pra trazer a caixa menor. Esperei quase uma hora com o vovô no colo, dentro de um saco de estopa. Foi como me entregaram. Nunca tinha pego ele no colo. Na verdade, mal o abracei quando estava vivo. Foi bom.
— Sim.
— Que bom que deu certo. Agora a gente pode vender o túmulo. Não faz mais sentido. Um túmulo caro como aquele e dividas pra pagar. – lembrou a mulher.
— Sim.
— Avisei que vamos vender.
Foram se afastando sem parar de conversar. Senti fome e sede. Criei coragem e levantei. Abri a janela. Eles ainda estavam na esquina. Fui ao banco. Ainda dava tempo. (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 29/09/2019
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