O soldado que salvou Camarinha

DISCIPLINA — Santana ainda guarda o uniforme dos tempos em que era soldado da Força Pública de Santa Cruz

Aos 100 anos, ex-integrante da antiga Força Pública conta
como descobriu uma trama para matar o deputado Lulu

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Manoel José Santana já completou um século de existência, embora alguns documentos informem que é ainda mais velho. Morador em Santa Cruz do Rio Pardo, ele nasceu em Itabaiana, no estado de Sergipe e, ainda adolescente, resolveu tentar a sorte em outros centros. “Eu já tinha fugido de casa a pé, caminhando mais de 60 quilômetros até a capital Aracaju. Mas depois voltei, com medo de levar uma surra do meu finado pai”, explicou. Chegou a Santa Cruz já como soldado da Força Pública.
Aos 100 anos, Santana tem muitas históricas para contar, como o dia em que salvou o deputado Leônidas Camarinha, o “Lulu”, de um atentado. Isto aconteceu nos anos 1950, quando o aposentado era um soldado da antiga Força Pública, instiutição que somente em 1970 recebeu o nome de Polícia Militar. Ele estava nas ruas fazendo a segurança quando observou um homem moreno que passava várias vezes em frente à casa do deputado estadual e ex-prefeito de Santa Cruz.

ANOS 1950 — Num acidente na Conselheiro, Santana é o soldado à direita

Numa delas, resolveu abordar o sujeito, que dizia ser de Goiás. Farejando alguma coisa errada, Santana acabou descobrindo uma trama para assassinar Lulu, o político mais influente da cidade. “Cismei que ele estava campanando a casa do deputado. Eu o levei até a delegacia, quando descobrimos que o sujeito estava armado. Foi preso, disse que estava ali para matar o deputado e depois foi levado para Marília. Não tive mais notícias dele”, afirmou.
Como soldado, Manoel lembra que os juízes o escolhiam para fazer a escolta ou transferência de presos. “Eles confiavam em mim e os bandidos me temiam”, disse. Nas décadas de 1930 e 1940, a delegacia de polícia teve vários endereços, até que nos anos 1950 foi construído o prédio da Polícia Civil, na esquina da Euclides da Cunha, hoje desativado. A partir de 1970, houve mudanças com a autonomia da Polícia Militar. Santana virou um PM.

MEMÓRIA — Foto do final dos anos 1950 mostra os homens da Polícia Civil e da Força Pública de Santa Cruz, entre eles Pedro Lamoso, Ciro de Oliveira e outros. Manoel Santana está à esquerda, atrás de Ciro Oliveira (terno preto)

História

Nas aventuras no Nordeste, o adolescente Santana aprendeu a ler e escrever numa casa particular. “Não havia escola na zona rural de Sergipe”, lembra. Trabalhou na lavoura, plantou mandioca, fez farinha com a ajuda de irmãs e sonhava com um futuro melhor. Em Itabuna-BA, trabalhou pesado na cultura de cacau. “No campo, tinha muita cobra”, disse. Um dia, quando o trem passou, Santana foi convidado por um grupo de amigos a seguir viagem até São Paulo. “A gente ganhava muito pouco. Na época, a moeda era conhecida como merréis. Ainda não tinha 17 anos e trabalhava o dia todo e queimava lata à noite para comer. Quando eles disseram que completariam as minhas despesas com a viagem, resolvi arriscar”, contou. Foram dias de trem e navio até atingir o sudeste do País.
Santana foi parar em José Teodoro, hoje o município de Martinópolis, onde foi trabalhar com japoneses. “Até hoje sou muito amigo de japoneses. Eles têm uma disciplina espetacular”, contou. Era o ano de 1936 e o aposentado se lembra até dos cantos dos passarinhos quando dormia na colônia e das palavras usadas pelos japoneses “importados”, como Gohan. “Naquela época não havia um único japonês nascido no Brasil. Era tudo do Japão mesmo, imigrantes”, lembrou. Ficou em Martinópolis por longos seis anos, cortando lenha para a cozinha.
Quando soube que a Força Pública de São Paulo estava empregando soldados, Santana rumou para a capital e tentou a sorte. Pelo porte físico, foi aprovado imediatamente e passou a integrar a segurança pública do Estado. Claro que a disciplina, que aprendeu com os japoneses, ajudou. Durante a Segunda Guerra mundial, foi convocado para lutar com as forças aliadas na Itália. Já se preparava para embarcar, quando o rádio noticiou o fim da guerra. “É por isso que estou vivo até agora. Mas ouvir aquela notícia foi uma das poucas vezes em que chorei”, brincou. Nesta época, foi soldado em Quatá até ser transferido para Santa Cruz do Rio Pardo.

Santana mostra carteira da Polícia Militar, sucessora da Força Pública

Getúlio, o melhor

Manoel Santana garante que o melhor presidente que o Brasil teve foi Getúlio Vargas. No entanto, não acredita no suicídio do criador das leis trabalhistas. “Para mim, ele foi assassinado. Havia forte oposição, especialmente por parte da UDN, e muitos políticos queriam o Getúlio morto. Acho que esse negócio de suicídio foi invenção”, disse.
Santana conheceu muitos políticos históricos. Cumprimentou pessoalmente o brigadeiro Eduardo Gomes na residência do deputado Leônidas Camarinha e também fez a segurança de Juscelino Kubitschek durante visita em Santa Cruz do Rio Pardo.
A polícia, naquela época, era rudimentar. Não havia sequer uma viatura e os chamados eram cumpridos a pé pelos soldados. “Demorava um pouco”, brinca. A primeira viatura chegou, segundo ele, em 1966. No total, eram seis funcionários responsáveis pela segurança pública, entre eles Pedro Lamoso e Ciro de Oliveira. “Eu fui o maior condutor de presos em flagrante em Santa Cruz. E sozinho”, disse.
Manoel garante que nunca protegeu político e era amigo dos dois grandes rivais dos anos 1960, Lúcio Casanova e Lulu Camarinha, ambos deputados. Certa vez, foi chamado para apaziguar os ânimos no bordel da cidade, onde um vereador — parente bem próximo de políticos atuais — promovia baderna. “Quando cheguei, fui conversar e ele me chamou de ‘soldadinho de merda’. Não tive dúvidas: dei voz de prisão em flagrante”, conta.
Santana também se gaba de ter descoberto uma “célula comunista” em Santa Cruz, quando prendeu professores com panfletos que a polícia qualificou como “subversivos”. Os folhetos, segundo ele, pregavam uma paralisação total dos trabalhadores. “Fazer o quê? Foi cana!”, afirmou.

Santana (direita) com o colega Francisco Ângelo da Costa, o “Chiquinho”

O policial, na verdade, sempre foi conhecido como “durão” e “carrasco”. Ele mesmo admite que muitas vezes recorreu à força física e ao cassetete, inclusive nos “porões” da delegacia. Segundo ele, isto era necessário porque, em determinado período, o Estado não fornecia nem armas para os seus soldados. Talvez por isso Santana tem como referências o coronel Erasmo Dias e o delegado Sérgio Paranhos Fleury, dois dos símbolos da ditadura militar. “Eram machões”, resume.
Aos 100 anos, o soldado aposentado diz que a vida antigamente era melhor, quando havia respeito entre as pessoas. “Hoje, está podre”, dispara. “Eu nunca peguei propina e nem tenho bens. Mas ando de peito aberto porque sempre fui honesto”, ressaltou Santana.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 29/09/2019
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