Beto Magnani: ‘A onça’

Histórias do Magú

A onça

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— Tá fugindo de onça ou vai tirar o pai da forca?!! – gritou o dono da mercearia quando viu o Seu Eufrásio chegar esbaforido de tanto correr.
— Fugindo de onça! – respondeu o Seu Eufrásio já despencado no degrau à beirada da porta.
Todos riram na mercearia. Seu Eufrásio bebeu a água oferecida pela Dona Tereza, mulher do dono da mercearia, antes de contar o acontecido.
— Nunca tinha visto uma Onça Parda de tão perto. Faz trinta anos que pesco na beira desse rio e é a primeira vez que vejo a dita. Pegada já vi. Vejo sempre. Mas frente a frente, olho no olho, nunca tive não.
— Vixe! — exclamou o menino que acabara de comprar uma paçoca.
— Eu tava com três varas fincadas na terra e uma na mão. Sossegado. Foi quando ouvi um barulho e olhei pra trás. Lá tava ela com dois filhotes. Um de cada lado. Me olhando. Tranquila. Parecia também aguardar os peixes morderem as iscas. Atenta a qualquer movimento das varas.
— Capai!? exclamou o menino, já na metade da paçoca.
— Eu fui voltando o pescoço pra frente bem devagarzinho e escorregando pra dentro do rio como uma lesma, na esperança da dita não notar meu movimento.
— Carái véio! – voltou a exclamar o menino, que nem lembrava mais da paçoca.
— Fui lentamente pelas pedras até o outro lado do rio. Ela não se mexia, mas também não tirava o olho de mim. Subi a barranca e fui andando de costas, também sem tirar o olho dela. Hora que cheguei na estrada, virei as costas e corri. Mas corri, mas corri, corri que nem uma lebre, sem olhar pra trás. Só parei aqui.
— Pois é! Elas voltaram! — gritou a Dona Tereza — Quando não tinha mato na beira do rio aqui perto da cidade, não tinha mais onça. Agora é um tal de ter que replantar tudo! Os bichos tão voltando também. Quero ver a hora que uma onça dessas pegar uma criança.
— Eu já fui onça. – revelou o menino da paçoca.
— Deixa de bobagem menino!
— Verdade Dona Tereza. Fui sim. Foi um dia só. Parda. Igualzinha a essa do seu Eufrásio. Quando percebi já era onça. Passei o dia onça. Tinha até bafo. Só andava, comia e dormia. Só pensava que tudo era bonito. Bom. Uma hora assustei com um tiro que matou uma queixada bem perto da onde eu tava. Rugi. Senti raiva. Mas dali a pouco tudo ficou quieto. Voltei a andar e a pensar como antes. Tudo voltou a ficar bonito. Voltei pra casa e deixei de ser onça antes do horário da escola. Contei pra todo mundo, mas ninguém acreditou. Ingenuidade minha achar que alguém ia acreditar nessa história. Mas aconteceu.
Todos ficaram em silencio. Dona Tereza foi para a cozinha. Eu estava tomando uma tubaína antes de voltar à estrada quando tive a sorte de testemunhar o relato. Não estava exatamente a fim de conversar, mas não resisti.
— Faz tempo que isso aconteceu? — perguntei ao menino da paçoca, quebrando o silêncio.
— Não. Faz tempo não. – respondeu o menino, feliz pela minha crença na sua história.
— Eita! — exclamou o Seu Eufrásio antes de levantar e sair correndo sem se despedir, já completamente recuperado da fadiga.
— Seu Eufrásio também tá achando que é mentira o meu dia de onça. Tenho certeza.
— Eu acho que ele acreditou e ficou com medo de você também. — disse o dono da mercearia.
— Acreditou nada! Nem ele nem a Dona Tereza! O povo daqui é ignorante. Num sabe nada. Num lê. Só lê o folheto da missa. Se lesse saberia o que a onça pensa. Fica tudo andando pra lá e pra cá cobiçando a vida do outro. Quer saber? Pra mim o Seu Eufrásio não viu onça nenhuma! Escolheu o coitado do bicho só pra falar que o medo é de onça. O véio não sabe nem do que tem medo.
O menino falou, jogou o papel da paçoca no lixo e foi embora. Eu e o dono da mercearia nos olhamos. Cúmplices e perplexos. De onde saiu esse garoto? Talvez seja uma onça em dia de menino, pensei. Pensei mas não comentei nada ao dono da mercearia, claro. Paguei a tubaína e fui embora também. Pelo lado oposto de onde veio o Seu Eufrásio. Na dúvida, melhor não arriscar. (Magú) 

  • Publicado na edição impressa de 06/10/2019
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