Há meio século, morria Carlos Queiroz

Carlos Queiroz tocando violino no antigo Clube dos Vinte

Lembrado até hoje como um dos melhores prefeitos
de Santa Cruz, Queiroz teve apenas um mandato

No Carnaval do Clube dos Vinte

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Uma das mais brilhantes — e mais curtas — carreiras políticas de Santa Cruz do Rio Pardo terminou há 50 anos na rodovia SP-225 (atual João Baptista Cabral Rennó) na noite de 8 de outubro de 1969, quando um Simca Chambord verde e branco bateu de frente com um caminhão. O carro era dirigido pelo ex-prefeito Carlos Queiroz, que se dirigia a Bauru para as últimas provas da faculdade de Direito. No assento traseiro, no mesmo lado que atingiu em cheio o caminhão, estava o jovem Aparecido José Pimentel, o “Piti”. Ambos morreram na hora. No carro ainda viajavam a mulher de Carlos, Dinah Camarinha Queiroz, Iolanda Ramos e sua filha, Maria Helena Ramos, que ficaram feridas.
Naquele mês, o País estava sendo governado por uma junta militar após o presidente Costa e Silva ser afastado por doença. A oposição à ditadura militar crescia e havia protestos nas grandes capitais. Exatamente em 8 de outubro, um avião brasileiro com 42 passageiros acabara de ser sequestrado. A Lei de Segurança Nacional havia sido decretada há menos de um mês e naquela segunda-feira o Brasil ficou sabendo que os militares indicaram o general Emílio Garrastazu Médici como o próximo presidente.
Se não havia oposição ao regime em Santa Cruz do Rio Pardo, o Meio Ambiente não ajudava. Estava frio naquela segunda-feira e a região ainda contabilizava estragos de uma forte chuva do dia anterior, que destruiu pontes, danificou escolas e derrubou árvores em São Pedro, Ourinhos e Santa Cruz.

Carlos Queiroz com o governador Adhemar de Barros, padre Antônio Sônego, Cyro de Mello Camarinha e José Carlos Camarinha

Foi nesta situação que Carlos, sempre apressado, seguiu para Bauru. “Piti” foi o último a entrar no carro. Filho de Cezário Pimentel, ele estava tomando café no final da tarde quando o Simca de Carlos buzinou na porta. O jovem se despediu da família e, ainda com um pedaço de pão na boca, saiu apressado arrumando a roupa. Pouco tempo depois, a tragédia, o Simca destroçado, Carlos Queiroz, 43, e Aparecido Pimentel, 24, mortos e três mulheres feridas.
A notícia caiu como uma bomba em Santa Cruz do Rio Pardo. Naquela noite, o professor Celso Fleury Moraes ensaiava um grupo de alunos para a estreia de mais um espetáculo do TAC (Teatro Amador do Centenário). Os estudantes estranharam quando o professor foi chamado num canto auditório e voltou diferente, com um olhar triste. A peça foi adiada.
O dia seguinte foi ainda mais triste, com o enterro de Carlos Queiroz e Aparecido Pimentel. Praticamente foi feriado na cidade. A fábrica de óleo Esmeralda interrompeu sua produção e dispensou os funcionários. A rádio Difusora, de propriedade de Carlos, passou a transmitir música fúnebre. Nas ruas, pessoas choravam.

Inauguração do Paço Municipal
Carlos chamou adversários para a inauguração do novo prédio da prefeitura. Na foto aparecem, entre outros, Carlos (à direita, em primeiro plano), Joaquim Severino Martins, Onofre Rosa, Domingos Fonçaca, Paulo Patrocínio, Amaury César, José Carlos Camarinha, Cícero Ribeiro, Célio Fonçatti, Walter Rosa de Oliveira, Samuel Martins Figueira, Idarilho Gonçalves, Benedito Camarinha, Henrique Vieira de Almeida, João Capistrano, José Messias de Britto e Agnaldo Viotti.

Político em ascensão

Filho do comerciante João Queiroz Neto, Carlos Queiroz herdou o talento do pai pelos negócios. Foi dono da “Santa Cruz Elétrica”, uma das maiores lojas de eletrodomésticos de Santa Cruz nos anos 1950 e 1960, além da rádio Difusora Santa Cruz e do jornal “A Folha”. A organização e o planejamento eram suas principais características, tanto que ele resolveu adotar esta marca como o nome do grupo que administrava suas empresas: “Organizações Carlos Queiroz”.
Jovem, o comerciante sempre esteve muito próximo da política. Afinal, era casado com Dinah, filha do deputado estadual Leônidas Camarinha, um dos maiores líderes da história contemporânea da cidade. No entanto, o parentesco com Camarinha parecia atrapalhar um voo próprio e ninguém ousava sugerir seu nome como candidato.

TRAGÉDIA — Na pista, a marca da frenagem e, ao fundo, o caminhão

Até que, em 1963, foi o próprio Lulu, contrariando outras sugestões do grupo dos “vermelhos”, que indicou o genro como candidato a prefeito naquele ano. Para completar, o deputado ainda indicou seu sobrinho, José Carlos Camarinha, como o candidato a vice-prefeito na chapa de Carlos. Parecia loucura. Nos bastidores, amigos de Leônidas comentavam, em voz baixa, que dificilmente o grupo voltaria ao poder, até porque o prefeito na ocasião era considerado um “rei das urnas”, Onofre Rosa de Oliveira. Este indicou seu vice, Osiris Piedade, o “Biju”, como candidato à sucessão.

Simca de Carlos arrancou o eixo do caminhão

No entanto, Carlos imprimiu um tom pessoal à campanha eleitoral, contando com seu carisma. Ainda não tinha 40 anos e resolveu gastar sapato. Fez comícios memoráveis, um deles com a presença do ator e cineasta Mazzaropi, e visitou toda a zona rural. No entanto, era difícil vencer o grupo onofrista e o favoritismo ainda era de Osiris Piedade. “Tá tudo com Biju”, diziam os carros de som nas ruas. “Aposto R$ 2 milhões na vitória de Biju”, estampou como manchete em letras garrafais o jornal “O Regional”, ligado aos “azuis”.
Na véspera, das eleições, Biju e os onofristas fizeram uma carreata gigante em Santa Cruz do Rio Pardo. Tudo indicava uma vitória fácil. “Carro não vota”, disparou Carlos em reuniões do grupo. Em novembro de 1963, contados os votos, o apresentador José Eduardo Catalano anuncia pelos microfones da Difusora: “Santa Cruz tem novo prefeito: é Carlos Queiroz”.



EDUCAÇÃO — Carlos visita feira de Ciências da escola ‘Leônidas’ e conversa com o professor Tomás Ortega Garcia

Do pequeno engraxate a líder político

Ex-prefeito começou a trabalhar ainda garoto
como engraxate e foi até mecânico de bicicleta

Carlos na mesa da presidência do Clube dos Vinte, uma de suas paixões

Carlos Queiroz não nasceu em família rica, embora o pai, João Queiroz Júnior, criasse várias empresas e se tornasse um próspero comerciante ao longo de anos. Mas Carlos começou a trabalhar cedo, como engraxate e depois mecânico de bicicleta. Era ainda adolescente quando se aventurou como eletricista e balconista, sempre se destacando nos estudos. Foi com este perfil que se tornou comerciante respeitado, aumentando o patrimônio da família quando o pai morreu, em 1951.
Carlos Queiroz estudou em São Paulo após cursar o primário e ginásio em Santa Cruz do Rio Pardo. Foi aluno do concorrido curso de Finanças da Fundação Álvares Penteado. Logo que voltou à cidade, casou-se com Dinah Camarinha, filha do então deputado estadual e ex-prefeito Leônidas Camarinha. O casal teve os filhos João e Carlos Antônio.
Discreto, seguiu o grupo do deputado, que na época tinha Onofre Rosa, Lúcio Casanova e tantos outros políticos que, no final dos anos 1960, se tornaram adversários após o “racha” histórico. Carlos transformou a “Santa Cruz Elétrica” numa das maiores lojas de eletrodomésticos da cidade. Foi a primeira a oferecer aparelhos de TV, numa época em que o sinal era rudimentar. Astuto, Carlos instalou uma enorme torre na loja e o aparelho começou a exibir um canal do Paraná. Era cheio de chuvisco, mas o suficiente para atrair uma multidão na frente da loja, especialmente quando o estabelecimento abria à noite.
Era diretor e participava dos programas de sua rádio, a antiga ZYQ-8, quando fundou o jornal “A Folha”, que durante anos deu sustentação ao grupo de Leônidas Camarinha. Carlos Queiroz também teve intensa vida social, sendo presidente da Associação Comercial e do Clube dos Vinte.
Quando aceitou ser candidato a prefeito em 1963, ninguém acredita na possibilidade de vitória. Mas foi aí que floresceu a intuição genial de Carlos, inclusive com lances ousados de marketing. Como o prefeito Onofre Rosa era muito forte, as críticas deveriam ser sobre fatos que a população vivenciava. Foi o caso da ladeira que dá acesso ao cemitério, que era calçada com paralelepípedo somente no centro. Perto das eleições, Onofre anunciou o asfaltamento da via e retirou as pedras. Para sorte de Carlos, choveu muito e o barro intenso irritou os moradores. Foi a “deixa” para Carlos aparecer no local calçando galocha. Venceu uma apertada eleição.

Desenvolvimentista

Ao contrário de outros governos, Carlos incentivou o plantio de árvores

No governo, Carlos Queiroz ganhou um ano a mais com a prorrogação dos mandatos decretado pela ditadura militar. Fez um governo memorável, que é lembrado até hoje pelas obras que ainda estão em pé. Culto, investiu forte na educação, especialmente na zona rural, mas também foi essencialmente empreendedor.
Tinha uma vida muito agitada. Além de prefeito, iniciou em 1965 o curso de Direito e ensaiou, juntamente com Aparecido José Pimentel, os primeiros passos de uma instituição de ensino superior em Santa Cruz do Rio Pardo.
Foi Carlos Queiroz quem dotou o município de uma sede própria ao construir o atual Paço Municipal, no prédio onde no passado foi o Clube Soarema e até um cinema.
Em apenas um mandato, entre outras obras, Carlos construiu a atual rodoviária, três centros comunitários, um clube náutico popular, biblioteca municipal, instalou o ginásio pluricurricular e a escola Genésio Boamorte e os três centros educacionais do Sesi. Conseguiu as 186 casas da vila Madre Carmem, fez a sede do TG, inaugurou o “Mercadinho do Povo” (atual Adefis), construiu 41 novas salas de aula, criou a Faculdade de Filosofia, eletrificou os distritos de Espírito Santo, Caporanga e Clarínea e levou telefone para Sodrélia. Mas fez mais: construiu o antigo almoxarifado da prefeitura (atual Qualità), a capela do cemitério, a praça Expedicionário, adquiriu caminhões e maquinários para o município, iluminou bairros com 500 pontos de lâmpadas a vapor de mercúrio e ainda construiu a fonte luminosa da praça que, mais tarde, ganhou o nome do sogro Leônidas Camarinha. Fez mais, muito mais, como 180 pontes e uma fábrica de blocos.
Também ficou marcado como símbolo de honestidade. Numa ocasião, num fato confirmado há anos pelo jornal com antigos moradores, providenciou o asfaltamento de todo o entorno do Santuário Nossa Senhora de Fátima e das principais escolas estaduais. Terminada a obra, a empreiteira contratada procurou o prefeito para oferecer uma “gratificação”. Carlos mandou calcular o valor em asfalto. E fez, então, aquele pequeno contorno da antiga “Maternidade Maria Perpétua Piedade Gonçalves”.
Carlos Queiroz deixou o governo como um líder formado. Estava terminando o curso de Direito em Bauru e pretendia abrir um escritório de advocacia — e o caminho para chegar à Assembleia Legislativa.
Quando morreu tragicamente, seu grupo político desmoronou a ponto de propor aos adversários uma chapa única nas eleições de 1972. A ideia foi debatida durante mais de um ano, mas não vingou porque ainda existia o ranço entre “vermelhos” e “azuis”.



Grupo Oapec foi criado sob
inspiração de Carlos e ‘Piti’

Hoje diretor da Faculdade de Direito Oapec, Benedito Weber Pimentel era um garoto na época da morte de Carlos Queiroz e do irmão Aparecido Pimentel. “Ditinho” trabalhava na cantina da Escola Técnica de Comércio, quando recebeu a notícia do acidente. Ele se lembra de que alguém contou que Carlos foi surpreendido por um trator na pista e, ao desviar abruptamente, atingiu o caminhão do amigo Hildebrando. “O trator nunca foi encontrado. O Simca, embora fosse um carro muito bom e forte, tinha um problema crônico: o farol era fraco”, conta Weber.
Carlos Queiroz era muito amigo da família Pimentel, a ponto de vender a rádio Difusora a Cesário. Ele e “Piti” ajudavam o patriarca José Cesário a criar uma instituição que instalasse uma faculdade em Santa Cruz. O caminho já havia sido aberto no governo de Carlos, mas faltava a instalação.
A ata de criação da Oapec relata uma reunião na casa de Césário em dezembro de 1969, ainda num clima fúnebre pela tragédia de dois meses antes. Manuscrita, a ata lembra o momento de emoção quando houve a recordação do trágico desaparecimento de Aparecido José Pimentel e Carlos Queiroz. “Ambos moços cheios de vida e que sonhavam em criar uma faculdade de filosofia”, diz o documento. Em dado momento, Antonio Eduardo Pimentel propõe que a reunião fosse transformada em Assembleia Geral Extraordinária para criação do estabelecimento de ensino sonhado pelo irmão e pelo ex-prefeito. Ele sugeriu que a viúva de Carlos, Dinah Camarinha, fosse convidada. Assim surgia a Oapec — Organização Aparecido Pimentel de Educação e Cultura. O último artigo de seu estatuto, sob número 28, diz que todos os anos, a 8 de outubro, deve ser celebrada uma missa pelas almas de Aparecido Pimentel e Carlos Queiroz. Um ano depois, era implantada a Faculdade de Filosofia e Letras. O nome? “Carlos Queiroz”.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 06/10/2019
Sobre Sergio Fleury 4973 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate