As ruínas da Riopardense

Ônibus da empresa estão amontoados em carcaças no pátio

Depois do incêndio que destruiu o que restava da
empresa, funcionários lutam para receber direitos

O ônibus que se acidentou em Caporanga

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A cadeira da recepção está ociosa. Não há a mínima chance de que alguém um dia voltará a ocupá-la. Não há energia, água ou telefone. Tudo está cortado por falta de pagamento. Numa escrivaninha, há várias contas a pagar e notificações de processos trabalhistas em envelopes que sequer foram abertos. Num cômodo mais atrás, peças de veículos, camas e computadores dividem espaço com poeira e algumas teias de aranha. Mais ao fundo, o pátio é o retrato em negativo do que um dia foi a Riopardense, empresa de ônibus que deixou de operar em Santa Cruz do Rio Pardo após um incêndio e uma crise financeira sem precedentes em que o proprietário desapareceu.

Veículos incendiados permanecem no pátio

São as ruínas da Riopardense, no bairro Itaipu, em Santa Cruz do Rio Pardo. É a mesma empresa que foi denunciada por corrupção em Piraju e que teria feito depósitos na conta de um jornal, mas cujo destinatário final seria o prefeito daquela cidade. O antigo gerente da empresa, Luiz Roberto de Oliveira, frequenta o local diariamente, até mesmo para evitar invasões ou a retirada dos destroços de ônibus que sobraram. “É triste. O dono sumiu e ainda há vários funcionários para pagar”, resume Luiz, que é conhecido como “Pinguim”. O dono é Samuel da Silva Santos, que não foi encontrado nem mesmo pela CPI de Piraju, que tinha um mandado judicial para condução coercitiva do empresário. Samuel possui vários endereços, um deles no Rio de Janeiro, mas não atende telefonemas e é tido, na linguagem jurídica, como “em lugar incerto e não sabido”. Ele é dono de outras empresas, todas ligadas à Riopardense, como a “Rápido Rio Pardo”, “Expresso Caçulla” e “Rápido Turismo”. O aluguel do imóvel só foi pago durante três meses. E isto aconteceu em 2017.
A Riopardense já vinha atrasando salários e tinha dívidas com fornecedores quando houve o incêndio, em julho, que destruiu totalmente sete ônibus que estavam em situação de sucata. Faltavam alguns dias para o fim do contrato de concessão do transporte coletivo celebrado com a prefeitura e a empresa decidiu abandonar o serviço menos de uma semana depois.
Não havia recursos sequer para o abastecimento dos veículos. A alternativa foi a prefeitura assumir às pressas o transporte coletivo em Santa Cruz do Rio Pardo, mas não se tem notícia se houve punição.
Algumas ações trabalhistas estão sendo movidas também contra os municípios que concederam os serviços de transporte coletivo à Riopardense. Por este motivo, a prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo também corre risco.

VIGIA — De gerente, Luiz Roberto virou uma espécie de ‘vigia’ para impedir que algo seja levado do pátio
ÓLEO — Local para troca de óleo está sujo e com água misturada

Preservação

Segundo o gerente Luiz Roberto de Oliveira, dias após o incêndio ele recebeu um telefonema do proprietário da empresa, Samuel da Silva Santos, avisando que um interessado de Paranapanema iria avaliar o que restou para comprar tudo como sucata. “Foi até uma surpresa, pois ele nunca apareceu. No telefone, disse que o pagamento seria feito diretamente aos funcionários, para acertar as pendências. No entanto, o sujeito que esteve aqui contou que a ordem do Samuel era entregar o dinheiro a ele. Então, nós não concordamos e não deixamos sair nada daqui”, afirmou. “Pinguim” explicou que depois houve nova conversa com Samuel, desta vez em tom ríspido.
Além das sucatas, entre elas sete ônibus totalmente queimados, há outros veículos que ainda podem rodar com algumas reformas. Os dois ônibus que faziam a linha urbana de Santa Cruz, por exemplo, estão guardados no pátio, mas têm problemas mecânicos. Há até um outro, escolar, em razoável condição de conservação que, segundo Luiz Roberto, pode valer até R$ 40 mil. O problema é a documentação, que poucos veículos possuem. Ele contou que um veículo, que possuía até elevador para deficientes, foi levado há tempos pelo dono da empresa e ninguém sabe onde está.
Pelo menos sete funcionários já ingressaram com ações trabalhistas — inclusive o próprio Roberto —, reclamando de salários atrasados e direitos que não foram pagos. “Eles nem fizeram a rescisão, não deram baixa nas carteiras”, reclamou o gerente. “E alguns funcionários estão passando até necessidade”.
O pior, segundo ele, é que a ausência do dono gerou ainda mais prejuízos para a empresa. No dia 15 de junho, por exemplo, o ônibus da Riopardense que fazia a linha de Caporanga sofreu um grave acidente na vicinal que dá acesso ao distrito a partir da rodovia SP-225. O motorista do coletivo não teve culpa, já que uma caminhonete invadiu a pista. No entanto, a direção da Riopardense não veio a Santa Cruz sequer para acionar os responsáveis e garantir a reforma do ônibus, que permanece no pátio com a frente avariada.

ABANDONO — Na sede da empresa, sem água ou energia, notificações trabalhistas estão amontoadas
Ônibus que funcionavam nas ruas de Santa Cruz

Demora

Luiz Roberto conta que, dos sete funcionários que reclamam de direitos não pagos, três são aposentados e outros três, não. O sétimo morreu em setembro, enquanto aguardava receber suas verbas rescisórias. “O processo demora porque ninguém consegue encontrar o Samuel”, explicou. Ele contou que vai solicitar aos advogados o bloqueio dos ônibus que ainda continuam no pátio e até das sucatas, para que tudo seja vendido em benefício dos funcionários. “Alguma coisa ainda podemos receber”, explicou.
No caso de Luiz Roberto, ele alega que, além dos salários atrasados, não recebeu 13º e nem férias durante os oito anos em que esteve na gerência da Riopardense. Mas o pior é que, quando a empresa perdeu o crédito no comércio de Santa Cruz, foi o próprio “Pinguim” que fazia as compras usando o próprio nome. “Hoje, há dívidas na Recall Auto Peças, Petrocar, Oficina do Lara, gráfica Itaúna, auto-elétrica e outros, num total aproximado de R$ 8 mil. Passo vergonha por isso, porque todos venderam em meu nome”, explicou.
Enquanto isto, há uma vigília quase diária nas antigas instalações. O objetivo principal é evitar que o dono apareça para levar alguns bens. Entretanto, também há risco do local abandonado se transformar em um ponto de usuários de drogas. Enquanto os funcionários e fornecedores esperam uma solução, a Riopardense ainda continua rodando na região, seja com ônibus da própria empresa ou através de suas subsidiárias. 

  • Publicado na edição impressa de 13/10/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate