Escritora expõe deficiência em livro

Dulce se espelhou na própria história de preconceito para escrever sobre uma borboleta com uma pequena deficiência

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Autora do livro “A Pequena Borboleta”, lançado no final do mês passado durante o evento de criação da Academia Santa-cruzense de Letras, a professora Dulce Scarpin tem a quem puxar. O pai, um agricultor, sempre gostou de escrever, mesmo não tendo muito estudo. Professora de educação infantil municipal de Santa Cruz do Rio Pardo, ela conta, feliz, que a história de uma pequena borboleta é o seu primeiro livro.
Aliás, Dulce teve uma espécie de “incentivo” a partir de um problema físico. Ela sofreu um acidente sério há muitos anos e perdeu parcialmente o movimento da mão esquerda. Nada que prejudique seu trabalho, mas a verdade é que Dulce ficou com vergonha da deficiência, que quase nem se percebe. “Eu escondia a minha mão porque não me aceitava, tinha muita vergonha”, disse.
Mas numa missa de Natal, quando todos se dão as mãos após o “Pai Nosso”, Dulce novamente ficou nervosa. Alguém poderia perceber a deficiência nas mãos. Ao se virar, porém, quem estava ao seu lado era um homem sem um dos braços. “Aquilo me marcou muito. Eu reclamando da minha mão e outros com problemas ainda maiores”, contou. A partir daquele momento, Dulce passou a se aceitar e sua vida mudou. Faltava, porém, colocar sua história no papel.
Um dia, há mais de vinte anos, quando dava aulas, uma borboleta entrou na sala de aula. Aparentemente, o bichinho tinha uma asa diferente da outra. “Eu me vi naquela borboleta e criei a história que ficou guardada durante tanto tempo”, afirmou. Até que, neste ano, os amigos a incentivaram a publicar um livro infantil.
Pois é justamente a história de uma borboleta que nasceu com as asas diferentes, uma delas menor e mais frágil. Por conta disso, a borboletinha sentia vergonha e nem saía de seu cantinho. Com o apoio da mãe, ela vence o preconceito e passa a sentir o prazer de voar.
A exemplo da amiga Noriko Izumi Kawabata, Dulce Scarpin também acredita no futuro do livro impresso num mundo cada vez mais digital. “Ainda bem que nós trabalhamos com crianças muito pequenas. É que o livro ainda encanta muito nesta idade, pois fazer o mesmo com um adolescente é mais complicado, justamente porque temos a concorrência do celular”, afirmou.
Para a professora, “até começar a cair os dentes de leite”, a criança adora livros. “Depois disso elas costumam perder este hábito por conta dos celulares e das redes sociais. Nosso grande desafio é não permitir que este hábito da leitura de livros se perca”, disse.
O livro de Dulce é ilustrado pelo santa-cruzense Diogo Ladeira, que hoje trabalha em Bauru.

  • Publicado no suplemento DEBATINHO de 13/10/2019
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