Geraldo Machado: O Visconde de Sabugosa

O Visconde de Sabugosa

Geraldo Machado *

Vasco Fernandes Cesar de Meneses — conde de Sabugosa. Não sei onde o Monteiro Lobato foi buscar este conde (com este nome, um “condão” ensabugado). Em Portugal, vice-rei da Índia (1712). Foi vice-rei do Brasil em 1720, 8 anos depois. Lá na Índia eu não sei o que fez e o que deixou para os indianos. Para nós criou a Academia dos Esquecidos. Fa leceu com 68 anos em 1741 em Portugal.
Achei estas informações para elucidar a escolha do Lobato para fazer de um sabugo de milho colhido e guardado no Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde viveu a Dona Benta e lá criou uma família famosa com o auxilio da tia Anastácia, negra velha que fumava num pito feito de semente de coquinho e um canudo-de-pito.
Narizinho, sua neta, tinha o nariz arrebitado e uma boneca com o nome de Emília. A boneca era feita de trapo como a da Cristina, minha filha. Criavam um porquinho Rabicó. Assim é que chamamos na roça todo porco sem rabo. Para dizer que este porco, ou melhor, este leitão era da Cristina, do Murilo ou do Antônio Carlos, eu aparava-lhe o rabo com uma tesoura ou um canivete amolado.
O Pedrinho só fazia as travessuras e especulava o negro velho, tio Barnabé. Todos, menos a tia Benta, tinham medo da Cuca e do Saci, com uma perna só e um pito no beiço. Todo saci tem beiço, fuma no pito e é caçado com uma peneira de taquara com uma cruz na sua armação. Com isso, é só esperar acontecer uma ventania e formar um redemoinho.
A Cuca é um duende, um ser imaginário, que faz travessuras dentro das casas. Rabicó morria de medo da faca da Siá Anastácia. Monteiro Lobato viveu, saiu do sítio, formou-se em Direito, morou no Cenáculo (uma “república” de estudantes, casou-se com a Purezinha e voltou para ser fazendeiro e patrão “desajeitado”, no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Lá “implicou” com os “jécas-tatu” que punham (ou ponhavam) fogo na mata e nos pastos, todo ano, sem fazer “aceiro”.
Nas secas, o fogo pulava o “aceiro” que o Lobato mandava fazer para “aceirar os cafezais e as pastagens nos morros (“fogo morro acima, água morro abaixo”…não há “aceiro que segure”) Monteiro Lobato escreveu um artigo que, (mais tarde deu livro), como o título endereçado a essa “Velha praga”. Seria, na verdade, o machado e o fogo a “velha praga”, ou como se suspeitava, os vizinhos da agricultura de índio, da cinza e da “coivara”, que chegou até os nossos dias, como afirma a Dra. Primavesi, já elogiada por mim em artigo para o DEBATE?
O Conde de Sabugosa, Vasco Fernandes Cesar de Meneses, quando fundou a Academia dos Esquecidos, jamais deixou passar pela sua cabeça a vinda do Monteiro Lobato para essa “casa dos esquecidos”. A minha geração não esqueceu Lobato, eu, pelo menos, não o esqueci.
O seu livro veio para substituir, tomar o lugar das histórias que a minha mãe contava para fazer as crianças dormir. Só mais tarde, em Jaú, alfabetizado, fui ter, não, ganhei do meu tio Agrício o livro e, à medida que eu “devorava”, sem soletrar, as versões dos clássicos mais palatáveis, traduzidos por Lobato para vernáculo, “fui passando” para os contos dos nossos melhores autores, menos “A Carne”,de Júlio Ribeiro, obra para os “clássicos” alunos “maiores”, com os padres alertas, rastreando embaixo do colchão, vigiavam os “menores” da tentação dos “terroristas” que não respeitavam o púlpito e, quanto mais, o confessionário dos Capuchinos.
Tudo isso eu vivencio hoje, inimigo da censura, mas, adepto da boa leitura, clássica ou atual. Há de tudo nesse “sebo” da mediocridade, hoje abrindo as universidades para todos, mesmo para os distanciados da literatura e mais chegados a vencer na vida, a qualquer maneira, com cota ou sem cota, fermento da luta de classes e rebentos da demagogia dos políticos carreiristas.
Abrem as comportas da ambição pelo modernismo confortável e se esquecem do colorado, do maníaco de olhos sem direção, perdido na sua debilidade mental e coletiva. O livro, sozinho, em brochura ou encadernado, é uma faca de dois gumes: educa e desmentaliza, supera o lar, desune a família, desilude os bons autores. Bom autor, eu sinto, não é aquele que se pauta na ingenuidade, acredita que o erro de escrever é deixar correr a pena irresponsável e incauta.
Eu escrevo por mera atividade intelectual, descompromissado com a crítica dos leitores e com a censura dos que, por natureza, nasceram para escrever e, escrevem bem. Antes de escrever, eu primeiro leio o que eles escrevem e tento me disciplinar como aluno que envelheceu aluno e, por não poder preencher essa peroração da vida, conversa à distância, sem “internet”, sem pretender uma cadeira na Academia dos Esquecidos, do Conde português que vicerreinou no lugar do rei absenteísta, dono do império, da coroa e da colônia que lhe entregava o ouro e o pau-brasil. Graciosamente.
Em tempo: Gostaram do meu artigo “Lambido é apelido”. O moço pediu à minha filha uma cópia do artigo. Tirei uma Xerox, pus uma dedicatória ao Sousa Garrido, “com respeito e dedicação”… Disse ele à minha filha: “muito obrigado”, e que estava na colheita de laranja na “Guaxo”. Tomara.
“Os cães ladram e a caravana passa”. Passe bem, Lambido (é apelido)”

* In memoriam

  • Publicado originalmente em 2012
Sobre Sergio Fleury 5166 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate