O homem que conheceu Tonico Lista

MISTÉRIO DA VIDA — Sebastião Mendes lê a Bíblia todos os dias e possui uma memória invejável

Sebastião Mendes conheceu vultos da história de S. Cruz
e diz que se lembra até do lendário coronel Tonico Lista

Tonico Lista, o poderoso coronel de Santa Cruz

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O caminhoneiro aposentado Sebastião Mendes é de uma família conhecida pela longevidade. Afinal, basta lembrar seus sobrinhos — Miguel Mendes, 89, Inês Mendes Vieira, 81, e Terezinha Mendes Bacochini, 79 — para se perceber que se fartar de anos é uma característica dos Mendes. Pois Sebastião já completou um século de existência em setembro e ainda tem uma memória invejável. Ele se lembra da Santa Cruz antiga, quando não havia nem asfalto, e do bairro onde morava, o São José, com meia dúzia de casas e uma única ponte para se chegar até ele.
Sebastião nasceu em 1919, em Santa Cruz do Rio Pardo. “Nunca saí daqui, a não ser para viajar”, lembra o caminhoneiro. A primeira Grande Guerra Mundial terminara havia menos de um ano e meses antes morria o ex-presidente dos Estados Unidos Theodoro Roosevelt. No mesmo ano estava nascendo João Goulart, que se tornaria o 27º presidente do Brasil nos anos 1960 e seria derrubado por um golpe militar. Cientistas faziam estudos no Brasil sobre o eclipse solar para tentar comprovar a Teoria da Relatividade de Einstein.
E Santa Cruz, como seria? “Era, na verdade, uma espécie de povoado, com ruas de terra e pouca infraestrutura”, conta.

UM SÉCULO DE HISTÓRIA — Sebastião Mendes foi motorista de caminhão durante quase quatro décadas
Sebastião conheceu Lulu Camarinha (na foto com o presidente Juscelino)

Mas o caminhoneiro — cuja carta de motorista ainda está devidamente em dia, embora ele não dirija mais — se lembra de grandes cultos da história de Santa Cruz do Rio Pardo. Ele garante, por exemplo, que viu Tonico Lista, o poderoso coronel da cidade que morreu assassinado em 1922. Na época, Sebastião ainda iria completar três anos, mas já andava brincando pelas ruas empoeiradas e se lembra do porte sério do coronel Antônio Evangelista da Silva.
“Ele morava perto da venda em que foi baleado por um soldado da Força Pública. Era virando a esquina”, diz. Sebastião se refere ao quarteirão da rua Conselheiro Antônio Prado, onde na esquina fica o antigo prédio da Câmara Municipal, hoje secretaria de Saúde. No meio da quadra, havia a venda do comerciante Mizael, local em que Tonico gostava de tomar café e ler jornais do dia. Foi ali, na manhã do dia 8 de julho de 1922, que um soldado, após beber duas doses de pinga, sacou uma arma e deu dois tiros no coronel, à traição. Tonico, embora mortalmente ferido, ainda foi até a porta e atirou contra o soldado que corria em direção ao bairro do São José. Acertou-o na clavícula, mas, em seguida, caiu sem forças.
A violência assustou o pequeno Sebastião e nunca mais ele esqueceu a imagem de Tonico Lista. “Era um homem muito poderoso e a cidade ficou muito horrorizada. O coronel era quem mandava na cidade e matava mesmo. Diziam até que ele havia matado o pai do soldado, que prometeu vingança”, contou.
Mas o homem que atravessou décadas também conheceu vultos de outras épocas, como Tertuliano Vieira, Abelardo Guimarães, Major Leônidas do Amaral Vieira, Lúcio Casanova Neto e Leônidas Camarinha. “O Tertuliano tinha um bar na praça central. O Lulu só usava gravata borboleta e era um político respeitado, um bom homem”, disse. Na verdade, Sebastião conta que nunca teve preferência política e, por isso, também foi amigo de políticos adversários dos Camarinhas, como Lúcio Casanova Netto.

O aposentado viu Santa Cruz ganhar asfalto no início dos anos 1940

Da carroça ao caminhão

“Fui criado em cima de uma carroça”, conta o aposentado. É que a família morava numa propriedade rural e a mãe plantava hortaliças que eram vendidas na cidade e transportadas em uma carroça. Ele conta que começou a trabalhar desde os sete anos e conduziu carroça até os 15.
Se a imagem de Tonico Lista ficou na memória, Sebastião ainda viveu as revoluções de 1930 e 1932 e a Segunda Guerra Mundial.
Outra curiosidade na vida de Sebastião é que ele achava estranho o modo de vida dos “crentes” de Santa Cruz. “Durante algum tempo parecia que o único crente era o ferreiro Luiz Brondi. Ele ficava na porta de seu estabelecimento distribuindo folhetos protestantes. Anos depois, eu me converti”, lembra. Aliás, Sebastião não costuma usar óculos e tem uma leitura obrigatória todos os dias: páginas da Bíblia, que conhece como poucos. Hoje, ainda frequenta a igreja “O Brasil para Cristo”, cujo templo ajudou a construir.

Sebastião completou 100 anos de vida em setembro

Aliás, Sebastião jura que viu Deus durante uma viagem — e perto de Santa Cruz. “Eu estava viajando com um amigo quando um clarão muito forte apareceu no céu. Era enorme mesmo, um fogo que nos acompanhou durante algum tempo naquela escuridão”, contou.
Sebastião tirou carta aos 20 anos e passou a viajar pelo Brasil. Conheceu tudo, na época em que as rodovias asfaltadas eram raras. “Eu gostava do Ford, mas já dirigi o Mercedes cara chata a óleo, o Studebaker, o Big Job a gasolina, Dodge e o FNM. Este último eu fiquei cinco anos e me lembro que tinha dois câmbios. Era um caminhão muito forte”, contou.
Viúvo aos 55 anos, Sebastião foi caminhoneiro durante 35 anos. “Nunca bati”, lembra. Aliás, na época áurea da agricultura, ele chegava a fazer uma viagem por dia para São Paulo, na maioria das vezes carregado de melancia. “Era duro, mas ganhei dinheiro”, contou.
Sebastião viu o progresso da cidade e da tecnologia, principalmente nos caminhões que o acompanharam durante tanto tempo. No entanto, garante que no passado a vida era melhor. “Parece que o homem cresceu e piorou. Hoje, o mundo está perdido”, afirmou, “pois falta amor no coração de todos”.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 20/10/2019
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