Otacílio ‘ressuscita’ história do pendrive

O FLAGRANTE — Otacílio disse que o tal envelope foi levado por Severo à tarde, porque ele iria depor à noite. No entanto, foto do depoimento do prefeito mostra que oitiva foi realizada durante o dia no recinto da Câmara

Prefeito narra fato que aconteceu há quase dois anos e até
agora não confirmado; Severo diz que versão é mentirosa

Sérgio Fleury Moraes
André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A história que envolve a suposta entrega de um pendrive com áudios da “CPI das Horas Extras” foi “ressuscitada” pelo prefeito Otacílio Parras (PSB), numa entrevista ao programa digital comandado por seu ex-secretário de Comunicação. Segundo a nova versão, Severo entregou a ele, de forma sigilosa, áudios de depoimentos e até as perguntas que faria a Otacílio, já que o prefeito também era um dos investigados. O problema é que o caso teria acontecido há quase dois anos e, na época, Otacílio não o revelou publicamente ou mesmo denunciou Severo à Justiça ou à Câmara. O vereador disse que a história de Otacílio é mentirosa. “Se fosse verdadeira, ele poderia pedir a anulação da CPI que tanto o incomodou”, afirmou. Luciano Severo disse que vai denunciar o prefeito ao Ministério Público por declarações falsas.
A suposta quebra de decoro teria acontecido em dezembro de 2017, mas Otacílio nunca havia contado os detalhes antes. Há dez meses, ele teria revelado algumas informações a vereadores da base governista, numa reunião no gabinete. Mas se recusou a comentar a história em emissoras de rádio. Agora, a dois meses do ano eleitoral, o prefeito disse que resolveu contar detalhes, no programa de seu ex-secretário, “porque me perguntaram”. Há riscos para o próprio prefeito, pois, além da provável inexistência de provas, ele pode ter prevaricado como autoridade pública.
O prefeito assumiu, mais uma vez, o fato de ter “escolhido” Severo para presidir a CPI, mediante ordem à bancada. Esta atitude ele já havia revelado antes, dizendo que era para “testar” a confiança do vereador para posteriormente lançá-lo como candidato à sucessão.
A nova história de Otacílio diz que Severo, como presidente da “CPI das Horas Extras”, teria negado oficialmente cópias de áudios dos depoimentos de testemunhas. No entanto, dias depois ele apareceu na prefeitura e entregou um pendrive com estes conteúdos ao secretário da Administração, Maurício Saleme. O prefeito não estaria no gabinete e, então, ainda segundo Otacílio, Maurício entregou o pendrive para o secretário Renan Alves providenciar a cópia no computador. Renan é o dono do jornal Atual. “Quando cheguei, o Maurício me informou que as cópias foram feitas porque o pendrive pertencia à Câmara e o Severo alegou que precisava ser devolvido. Informado, falei para arquivar porque não queria ver nunca mais aquilo. Disse que vocês são a prova de que eu não sei o que está contido nesta gravação. Mas um dia vocês [Maurício e Renan] poderão ser testemunhas do ocorrido”, contou Otacílio, dirigindo-se aos dois servidores comissionados nomeados por ele.
Ainda segundo a versão do prefeito, no dia em que ele iria depor na “CPI das Horas Extras”, o vereador Luciano Severo, que era o presidente da comissão, compareceu ao gabinete com um envelope contendo as perguntas que seriam feitas a Otacílio durante o depoimento. “Eu ia depor à noite e quem faz as perguntas aos depoentes é o presidente da CPI. Eu estava no gabinete à tarde e o Maurício na mesa dele, ao lado do gabinete. O Severo entrou com um envelope amarelo e foi entregar para mim, dizendo que eram as perguntas que ele faria a mim à noite. Gritei ao Maurício, dizendo para ver o que o Severo está trazendo. Disse para sair e levar embora, pois não queria nem ver. Ele pegou o envelope e se retirou”, disse prefeito.
Segundo Otacílio, este teria sido “um dos motivos” para o rompimento com Severo. O prefeito disse que só falou agora porque participou de uma entrevista em que o assunto foi questionado. “Não disse antes porque é muito pesado”, afirmou à Difusora. “Isto pode ter consequências graves, como Comissão de Ética, CPI ou cassação. Então, nunca levei para este lado. Porém, nesta entrevista com cinco ou seis jornalistas, acabei falando”, disse. “Como me foi perguntado, eu não poderia fugir da resposta”, completou.

Contradições

A história de Otacílio foi desmentida por Luciano Severo (leia mais abaixo), que disse que vai denunciar o prefeito ao Ministério Público. De fato, um episódio que teria acontecido há quase dois anos só tem duas testemunhas de acordo com o prefeito: seus próprios assessores. Um deles, Renan Alves, é dono do jornal “Atual” e nunca publicou reportagem narrando esses fatos. Segundo Otacílio, o ex-secretário Renan Alves, que comandou a entrevista, confirmou a história. Renan, na verdade, não disse nada.
A narrativa do prefeito é cheia de contradições, além do fato de só ter sido feita quase dois anos após o acontecimento. Ela não coincide, por exemplo, com a primeira versão que foi publicada pela imprensa em janeiro — inclusive pelo DEBATE —, quando Otacílio teria contado a história aos vereadores de sua bancada. Alguns até conversaram com a imprensa e confirmaram que teriam recebido informações do prefeito sobre Luciano Severo. Entretanto, também se omitiram na época, pois ninguém levou o caso à tribuna.
Naquela ocasião, o prefeito disse às rádios Band e Difusora que Severo havia cometido um ato que comprovaria sua desonestidade. Perguntado nas duas emissoras sobre qual seria o ato, Otacílio foi taxativo: “Ele sabe os motivos, mas eu não vou dizer. Não posso falar porque seria motivo para um processo”, afirmou em janeiro. Na semana passada, o mesmo Otacílio disse que agora resolveu contar a história simplesmente porque um grupo de jornalistas perguntou.
Mas há muitos desencontros. Otacílio disse que Luciano entregou o envelope com as perguntas à tarde porque ele iria depor à noite. O depoimento, porém, aconteceu durante o dia. Disse que era Severo quem fazia as perguntas aos depoentes, mas outros vereadores — como Lourival Heitor e Joel de Araújo — também fizeram perguntas, assim como o procurador jurídico João Luiz de Almeida Júnior. Neste caso, saber antes as perguntas de Severo seria algo inútil, pois haveria outras.
Mas o principal argumento contra Otacílio Parras é que a CPI foi totalmente aberta ao público e à imprensa. O prefeito enviou representantes em praticamente todas as oitivas, sendo que certamente elas foram gravadas pelos assessores. A imprensa, aliás, gravou todos os depoimentos, tirou fotos e teve acesso até a alguns documentos.
Otacílio Parras, mesmo na condição de investigado, assistiu aos depoimentos finais sentado na plateia e sem ser incomodado. Neste caso, qual o motivo para ter em mãos as cópias dos depoimentos das testemunhas? 


RESPOSTA — Severo disse que prefeito faz armação “nojenta e baixa”

Severo diz que vai denunciar prefeito

Vereador nega tudo e disse que vai pedir uma investigação
ao Ministério Público sobre provável crime contra a honra

O vereador Luciano Severo (PRB) anunciou na tarde de sexta-feira, 1º, que vai denunciar o prefeito Otacílio Parras (PSB) ao Ministério Público por crime contra a honra. Ele revelou que está analisando as declarações do prefeito com alguns advogados para saber se os crimes cometidos são de calúnia, injúria ou difamação. Severo negou ter entregue um pendrive ou um envelope para o prefeito no final de 2017. “É uma história que ele inventou”, insistiu.
O parlamentar afirmou que Otacílio narrou uma história com muitas contradições, especialmente porque o caso veio a público já em janeiro deste ano, embora sem os detalhes. Comparando as duas versões, há muitas divergências, explicou Severo. “Uma hora ele fala que eu entreguei o pendrive a ele, depois diz que, na verdade, entreguei ao Renan e depois fala que foi para o Maurício Saleme. Quanto ao envelope ele diz que eu deixei o envelope lá, mas não quis ver. Depois, afirmou que eu levei o envelope embora. Ou seja, tudo isto mostra a grande trapaça, a enorme armação que ele faz contra a minha pessoa”, afirmou.
Severo lembrou que, caso a história fosse verdadeira, o prefeito se omitiu. “Ele tinha não apenas o direito, mas o dever de me denunciar ao Ministério Público e à Câmara. Podia até pleitear a anulação da CPI que tanto o incomodou, inclusive porque culminou em prejudicar um apaniguado dele, o ex-presidente da Codesan Cláudio Gimenez, que tantas irregularidades praticou à frente da empresa”, disse. “Mas só agora, quase dois anos depois, é que vem tornar público um fato como este? A população não é boba, pois está muito claro que o prefeito inventou uma história apenas para me prejudicar”, disse.
Segundo o vereador, ele deve encaminhar uma representação ao Ministério Público para que a conduta do prefeito e suas declarações sejam investigadas. “Todos os fatos precisam ser apurados. O prefeito deve um esclarecimento”, afirmou.
Ao mesmo tempo, Severo informou que já entrou com pedido de direito de resposta ao programa digital do ex-secretário Renan Alves e à rádio Difusora, onde o prefeito fez ontem um novo pronunciamento sobre a história que o vereador reputa como mentirosa.
De acordo com Severo, Otacílio quis “criar um fato” com uma falsa história para desviar o foco de problemas em sua base de apoio, como investigações contra dois vereadores. “Além disso, é também uma questão política, pois o prefeito sempre realiza pesquisas e sabe que meu nome está em evidência, muito embora eu não seja sequer pré-candidato a prefeito. Mas o jogo sujo tem nome: eleição”, afirmou.
Sobre a possibilidade, já anunciada por Otacílio, dos vereadores governistas aprovarem uma CPI para apurar a suposta quebra de decoro parlamentar de Severo, o vereador lembrou que o prefeito “manda em sua bancada”. No entanto, disse estar tranquilo e que não vai agir como o governo, que fez de tudo para arquivar as denúncias contra dois vereadores da situação.
“Já está tudo armado, de forma nojenta e baixa. Porém, ao contrário da atitude da ‘bancada do amém’, vou pedir até aos meus companheiros da ‘bancada da independência’ para que, se houver um pedido, votem a favor da investigação. 


Joel disse que conversa com prefeito foi outra e assunto não foi abordado

Vereador Joel também
desmente Otacílio Parras

Na sexta-feira, em pronunciamento na Difusora, o prefeito Otacílio Parras contou que, logo após o episódio que ele garante ser verdadeiro, da entrega de pendrive e envelope pelo presidente da “CPI das Horas Extras”, ele contou o caso pelo menos a um vereador. Foi para Joel Araújo (PRB), com quem o prefeito disse ter se reunido durante uma hora na Câmara. O vereador, porém, negou na sexta-feira ter ouvido qualquer conversa sobre o tema durante a reunião.
O encontro teria ocorrido logo após o suposto episódio do pendrive. Otacílio disse que não sabe o motivo pelo qual Joel de Araújo não denunciou Luciano Severo. “O Roger Garcia marcou a reunião no gabinete do vereador. Conversei mais de uma hora com ele e o objetivo era exatamente este”, afirmou. Segundo Otacílio, no início o assunto eram as críticas do vereador à administração. “Ele estava muito crítico, mas certas colocações são políticas”, disse.
O prefeito disse que contou o acontecimento envolvendo Severo como uma espécie de alerta. “Eu fiz isto para que ele pudesse fazer juízo de valor das pessoas. Mas creio que ele resolveu continuar apoiando esta pessoa. Guardou para ele estas informações e ficou quieto”.
Na verdade, a reunião deve ter sido tensa porque, dias antes, o prefeito se referiu a Joel como “pecador”. O vereador é religioso e membro da Renovação Carismática Católica.
Na sexta-feira, 1º, Joel negou que neste encontro tenha sido discutido o caso do pendrive. Ele não havia acompanhado a entrevista do prefeito na Difusora, mas contou outra história. “Na época eu estava muito bravo com ele e acabei falando umas boas ao prefeito. Quis que ele refletisse um pouco sobre a própria vida. Ficamos falando várias coisas, mas não me lembro de nada sobre esta história do pendrive”, afirmou.
“O assunto foi outro, pois ele tinha me ofendido dias antes. Não tenho lembranças sobre este caso político. Na verdade, o prefeito quer me arrastar para o grupo dele”, disse. “Se por ventura ele disse alguma coisa sobre isso, sinceramente eu nem ouvi porque estava magoado”, explicou o vereador. 


Bancada do prefeito soube
do pendrive, mas se omitiu

Se a bancada governista, como já antecipou o prefeito Otacílio Parras (PSB), pretende propor uma CPI contra Luciano Severo, haverá dificuldades sob o aspecto ético. Afinal, o caso do “pendrive” veio a público em janeiro, quando o prefeito reuniu sua bancada no gabinete e contou a tal história. Embora o prefeito não desse detalhes sobre o fato, toda a imprensa de Santa Cruz publicou sobre o suposto pendrive.
O jornal “Atual”, do ex-secretário de Otacílio Parras, também divulgou a notícia em tom de dúvida, com verbo no condicional e desmentido de Severo. O dono do jornal é Renan Alves, que o prefeito diz ser uma das testemunhas da entrega do pendrive e do envelope com perguntas da CPI.
Na Câmara, os governistas acabam de arquivar denúncias comprovadas contra dois vereadores, que, aliás, tramitam na polícia, Judiciário e Ministério Público. Pois como estes mesmos vereadores vão se explicar sobre o fato de já terem conhecimento da história de Otacílio desde janeiro e nada fizeram?
Entretanto, os governistas sabem que uma ordem do prefeito é para cumprir. A bancada tem maioria de um voto. 

  • Publicado na edição impressa de 03/11/2019
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