Vida após a pólio

Até chegar aos 59 anos, Geraldo Ribeiro fez de tudo

Geraldo Ribeiro contraiu a doença aos 11 meses e
passou a vida sobre muletas, mas deu a volta por cima

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Exatos 49 anos antes de Geraldo Rogério Ribeiro nascer, o médico Fernandes Figueira, do Rio de Janeiro, descrevia o primeiro surto de poliomielite no País. Era 1911. Quatro décadas depois, em 1952, o médico Jonas Salk desenvolveria a segunda vacina contra a paralisia infantil. A invenção de Salk se popularizou nas Américas, inclusive no Brasil. Àquela época, porém, grande parte da população não tinha acesso ao produto ou, ainda, era receosa sobre as possibilidades de imunização. Por alguma razão, Geraldo Ribeiro, hoje com 59 anos e aposentado, não foi vacinado e, aos 11 meses, contraiu a pólio.
Numa família de seis irmãos, Ribeiro foi o único deles a ter o terrível diagnóstico. O curioso é que Geraldo possui uma irmã gêmea, com quem até dividia o berço, mas que escapou da pólio. “Graças a Deus, só eu fui acometido”, contenta-se o aposentado.
Ainda bebê, Geraldo teve uma febre alta e estava sendo tratado pelos médicos como pneumonia, já que ninguém encontrava um diagnóstico. A primeira suspeita de que ele havia contraído pólio partiu de uma tia, que era professora em São Paulo. “Ela deu uma agulhada em meu pé e eu nem reagi. Me levaram para a capital, onde confirmaram a paralisia. Fiz um longo tratamento”, contou.

AJUSTES — Carro de Geraldo tem adaptações até no acelerador

Na viagem a São Paulo para fazer a terapia, Ribeiro foi acompanhado de mais três crianças — todos acometidos pela pólio. Deles, apenas dois voltaram. “Nos outros, a doença atingiu várias partes do corpo e não resistiram. Morreram no centro médico”, lamenta.

Foi só aos nove anos de idade que Geraldo tirou um aparelho instalado na perna e pôde andar pela primeira vez. Muita gente já o questionou se não acha ruim andar de muletas, mas o aposentado releva. “Como vou achar ruim? Sempre andei assim. É a mesma coisa de alguém que nasce cego. Se acostuma”, disse.
Ainda se adequando aos primeiros passos, era o pai quem levava o filho Geraldo para a escola. No ambiente estudantil, Ribeiro afirma que é difícil importar o conceito moderno de bullying, pois naquele tempo pouco se falava disso. “Hoje que este termo está mais difundido. Mas havia, sim, uma discriminação. O povo ficava olhando, mas eu nunca liguei”, lembra.

LUTA — Doença não impediu a volta por cima de Geraldo Ribeiro

De qualquer modo, Geraldo tem ótimas lembranças de seus verdadeiros amigos. Diz que era muito “levado” quando jovem e jogava até futebol, mesmo de muletas. Fazia até gol de muleta e, quando uma delas quebrava, atuava como goleiro. Certo dia, numa partida, um dos participantes sugeriu que Geraldo não poderia jogar com aquele problema. “Tudo bem. Peguei a bola e sentei em cima dela. Disse que, se não entrasse, não haveria jogo. Afinal, a bola era minha!”, contou, rindo.
Ele também nadava no rio, mesmo nas correntezas. “Fui criado na beira do Pardo. Me apoiava em uma das pernas e equilibrava com os braços”, afirmou.
A primeira grande dificuldade enfrentada pelo aposentado foi a entrada no mercado de trabalho. “Havia muita discriminação. Aí eu sofri, até mesmo em concurso público. Acredito que eu fui prejudicado muitas vezes”, queixa-se.
Geraldo também teve outros problemas que apareceram em função da pólio. Ele já passou por 22 cirurgias — fazia, em média, uma por ano — e ganhou uma hérnia de disco, problema causado nas vértebras.
Hoje pai de três filhos — um deles adotado —, Geraldo serve como exemplo a quem dissemina falsas informações sobre as vacinas. “Não tem essa de que elas fazem mal. Quem acredita nisso, no final, pode sentir na pele o que é ter um filho com pólio. E isso muda a vida inteira da família”, adverte.
Conscientização, por sinal, é algo que não falta para os filhos do aposentado. O caçula, aliás, já perguntou por que o pai tem uma das pernas atrofiadas. Geraldo, atenciosamente, respondeu: “É que eu não tomei vacina quando era criança. Você tomou, está seguro”, disse. Atualmente, a vacina é dada em gotas.

Geraldo com a esposa, Zilda Aparecida Ribeiro

A poliomielite foi erradicada no Brasil em 1994, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O trabalho de milhões de voluntários nas campanhas de vacinação chegou a ser retratado pelo consagrado fotógrafo Sebastião Salgado, no livro “O Fim da Pólio”, publicado em 2001.
Apesar de todos os obstáculos enfrentados por Geraldo, ele jamais perdeu a fé. Católico, afirma que nunca reclamou a Deus por ter contraído a pólio. “Saí de um cenário em que não andava para poder andar. Isso já é motivo para agradecer diariamente”, diz.
As barreiras pelas quais passou foram quebradas com tanta elegância que, hoje, Geraldo dirige motos e carros adaptados. Seu Volkswagen tem adaptações no acelerador e na embreagem. “E ainda viajo. Vou para Assis, Botucatu, tudo quanto é lugar”, diz. Sua moto tem três rodas atrás e é automática.
Aliás, deficiência nas pernas, para Geraldo, é sinal de eficiência nas mãos. E muita. Mecânico, ele também é artesão. Constrói cadeiras de palha e tem uma boa clientela. A pequena oficina fica aos fundos de sua casa. 

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 03/11/2019
Sobre Sergio Fleury 4971 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate