Opinião: A república de Pinóquio

Como funciona a rede de
mentiras alimentada pelo Poder

Sérgio Fleury Moraes
Da Redação

Otacílio Parras se sentiu à vontade no programa digital de seu ex-secretário de Comunicações Renan Alves. Disse o que quis, não foi contestado e atacou, como costumeiramente faz na Difusora, quem ele considera desafeto. Foi entrevistado por cinco profissionais da mídia, muitos dos quais têm ligações diretas ou indiretas com a prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo ou com políticos, através de serviços em campanhas eleitorais, inclusive do próprio Otacílio. O resultado foi desastroso, a repetição de um jornalismo “chapa branca” que, combinado ou não, ofendeu pessoas sem que as mesmas estivessem presentes ou mesmo pudessem exercer seu direito de resposta.

Pois foram estas mesmas pessoas que instigaram Otacílio a falar sobre mim e meu jornal, com ofensas rasteiras, se atrevendo até a discutir ética jornalística. Logo após o programa, questionei os entrevistadores sobre as mentiras e ofensas e o fato de eles terem ligações políticas. “Eu gostaria muito de poder dizer não aos políticos e recusar trabalho, mas não posso”, alegou André Rúbio, do “Achei Santa Cruz”, que nas últimas eleições trabalhou para o candidato Adilson Mira. “Nunca neguei que já participei de uma campanha e ganhei pelo serviço prestado”, justificou Dário Miguel. “O programa é gravado e não é meu. E o prefeito praticamente não deixa a gente falar. Na campanha dele, peguei meu dinheiro e pronto, segue a vida”, explicou-se Doni de Oliveira, que na reeleição de Otacílio foi o apresentador dos comícios do prefeito.

Renan Alves, o ex-secretário do prefeito Otacílio, por sua vez, cometeu duas infrações éticas. Permitiu que o prefeito me atacasse sem, no mínimo, procurar saber a verdade. Ao mesmo tempo, se apropriou de fotografias históricas que somente eu possuo e as publicou no programa sem o devido crédito, obrigatório de acordo com a legislação. Ignorou os direitos autorais, assim como mostrou que não tem compromisso com a ética.

Renan, por sinal, está a um passo de virar réu junto com o amigo prefeito, pois é alvo de um inquérito civil aberto na semana passada pelo Ministério Público para apurar a distribuição irregular de dinheiro público para beneficiar seu jornal. É o conhecido “afago” de Otacílio com os veículos dóceis da imprensa de Santa Cruz. Já vi este filme.

Pois vamos à mentira de Otacílio. Segundo o prefeito, eu teria participado da campanha de Wanda Rios à prefeitura em 2004, inclusive fazendo parte do staff eleitoral da ex-vereadora. Sorrateiramente, afirmou, ainda, que eu seria integrante do grupo de apoio de Wanda, inclusive discutindo ações em reuniões políticas. Declarou, também, que, como uma pesquisa do próprio DEBATE indicou a derrota de Wanda, então eu não tive outra alternativa senão apoiá-lo.

Nada mais mentiroso e abjeto. Otacílio sempre foi um político atormentado, guiado por um sentimento de poder político absoluto. Não mede esforços para inventar fatos que nunca aconteceram e sempre tenta apagar um passado tumultuado que o derrotou em duas ocasiões. Como Lula, no poder travestiu-se de “Tacilinho Paz e Amor”, mas, invariavelmente, costuma reencontrar seu verdadeiro ego. E pouco adianta ele ter desmentido a informação dois dias depois, em outra mídia, a rádio Difusora, pois poucos assistem as duas mídias. A ofensa já está posta, com a complacência de um grupo de mídia.

A verdade é que nunca fiz campanha para qualquer candidato, nunca fiz parte de grupos eleitorais para apoiar quem quer que seja, jamais participei de reuniões para discutir estratégias destinadas a este ou aquele candidato.

Para que o leitor não fique apenas com a minha palavra, vou dar voz aos envolvidos naquele fatídico 2004. “Estava no jornal nesta época e posso assegurar que nunca houve apoio eleitoral para nenhum candidato. Também nunca soube que o diretor do jornal, que vivia na redação, era integrante de algum grupo eleitoral. Jamais isto aconteceu”, disse o jornalista Aurélio Alonso, que era o editor regional do DEBATE naquele ano.

“Nunca vi você em nenhuma reunião. Isto não aconteceu”, afirmou o principal coordenador da campanha de Wanda Rios em 2004, Célio Guimarães, que é amigo pessoal do prefeito e ocupou, inclusive, cargos no primeiro escalão da atual administração.

“Que absurdo o prefeito dizer uma coisa dessas. Claro que você não fez parte do grupo de apoiadores à minha candidatura e nem estava naquela reunião que ele mencionou”, disse a Wanda Rios, a ex-vereadora que tentou se eleger prefeita e foi derrotada por Adilson Mira, assim como o “trator” Otacílio Parras.

Esta é a verdade que os pseudo-jornalistas do programa do ex-secretário de Otacílio tiveram preguiça de buscar. Aceitaram como verdadeiras as declarações do prefeito, praticando uma das piores facetas do jornalismo chapa-branca: permitir que uma mentira seja veiculada e espalhada.

Talvez para eles, empregados de políticos em várias ocasiões, seja normal um profissional de mídia jornalística participar de uma campanha eleitoral mediante paga. Pois para mim, não. O trabalho jornalístico sério não é compatível com nenhuma atividade eleitoral. Talvez por isso meu jornal alcançou uma enorme credibilidade e está nas ruas há mais de quatro décadas.

‘Fofoca oficial’

Esta personalidade doentia de Otacílio não é nenhuma novidade. Adora o confronto, ataca e persegue impiedosamente desafetos tendo como principal estrutura a máquina administrativa. Aliás, o prefeito já participou de uma verdadeira rede de intrigas com o objetivo foi espalhar mentiras contra seus desafetos. Este grupo incluiu empresários conhecidos, amigos, políticos e até mesmo um membro do Ministério Público. Sim, estou dizendo Ministério Público sem receio, pois tenho esta história contada na voz do próprio prefeito.

Ao longo da minha trajetória, já fui vítima de muitas mentiras, fake news e ofensas. É o preço que paguei — e pago! — por defender a minha cidade, durante mais de quatro décadas, dos políticos oportunistas e de autoridades cujos cargos nunca ilustraram.

Há alguns anos, por exemplo, descobri que mentiras violentas sobre mim tinham origem na residência do prefeito, nesta tal rede que se reunia para petiscos ou jantares. Além de empresários, costuma frequentar a casa de Otacílio o promotor público Silvio da Silva Brandini, que já foi titular em Santa Cruz do Rio Pardo. Entre muitas doses e alimentos fartos, foi proferida, em voz alta e em meio a risadas, uma grave inverdade contra a minha pessoa. É tão sórdida que não vale a pena ser contada.

Questionei imediatamente o prefeito sobre o caso. Em gravação que mantenho sob sigilo, Otacílio contou que a informação falsa havia sido proferida pelo próprio promotor amigo de mesa. E o pior: citando como fonte um outro promotor, Reginaldo Garcia, autoridade que sempre respeitei. Seria sobre um processo judicial que estaria tramitando em segredo de justiça.

Eis o plano cruel de uma rede de fofocas. Afinal, os empresários e políticos presentes, após empanturrar-se na residência do político, certamente contariam a “novidade” às esposas e amigos. A ofensa, então, se espalha rapidamente. Afinal, quem vai duvidar da palavra de um promotor de Justiça, ainda mais citando um outro colega como fonte? Felizmente, o tempo mostra que a face da mentira nunca sobrevive. Ela cai, um dia ou outro. Mas cai.

Silvio Brandini era conhecido como “engavetador” no governo de Adilson Mira. Protegia o então prefeito e mandava para o arquivo denúncias feitas por populares ou políticos. Podiam ter provas consistentes, mas tudo era engavetado.

Entretanto, pelo menos em uma delas, o tal promotor se esforçou muito até conseguir a condenação do ex-prefeito. Trata-se da denúncia de uso irregular do “Semanário Oficial” do governo para fins políticos e pessoais. Nesta, o promotor Silvio foi até o fim, obtendo da Justiça uma severa punição para o ex-prefeito.

Pois bem, quem fez o requerimento da denúncia ao promotor? Otacílio Parras, o amigo generoso que sempre o acolheu nas reuniões em sua residência.

O atual prefeito não precisava sequer acompanhar o processo na internet; bastava perguntar diretamente ao amigo.

O fato, mais do que uma infração ética, sugere tráfico de influência, o que é nefasto para uma instituição tão importante que hoje enfrenta, em nível nacional, os percalços de conversas e tramas paralelas para condenar pessoas, muitas das quais podem ser inocentes.

Este fato é apenas uma faceta do político Otacílio Parras. Há outras, como investigações secretas ou o uso da própria mulher para atacar desafetos e até menores de idade, sem nenhuma providência por parte das autoridades. O espaço, contudo, não permite esta narração. Fica para uma próxima oportunidade. 

  • Publicado na edição impressa de 03/11/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate