Salomão, o sábio construtor

LEMBRANÇAS — Zilda observa fotos do pai, construtor histórico da cidade

Um dos grandes construtores de S. Cruz, Guido Salomão
ergueu o Icaiçara, Grande Hotel e luxuosas residências

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Numa época em que a medicina podia ser praticada pelos farmacêuticos práticos e o rábula substituía o advogado, o grande mestre da construção civil em Santa Cruz do Rio Pardo foi Guido Salomão. Filho de imigrantes italianos, ele nasceu em 1920 em São João da Boa Vista, mas ainda jovem apareceu por acaso em Santa Cruz do Rio Pardo para trabalhar numa obra. Conheceu Maria de Lourdes, se apaixonou e acabou ficando. Teve 10 filhos, dos quais dois já são falecidos, um deles ainda bebê. E Salomão se tornou o grande construtor da cidade durante décadas, erguendo obras como o Icaiçara Clube, o Grande Hotel e grandes mansões em Santa Cruz do Rio Pardo na época áurea da cafeicultura.

ICA — Em 1959, Guido Salomão inaugura oficialmente o Icaiçara Clube

Foi Guido, por sinal, quem cortou as faixas da inauguração do Icaiçara que, pela imponência do prédio no final dos anos 1950, ficou conhecido como “clube mais bonito do interior”. Surpreendentemente, Guido Salomão não é nome de rua, praça ou recebeu qualquer outra homenagem do Poder Público. Ele só foi lembrado, já ‘in memoriam’, durante as comemorações do 50º aniversário do Icaiçara, quando o clube era presidido pelo advogado João Nantes. Com a família presente, um enorme telão mostrou imagens de Guido e da construção do Icaiçara, numa solenidade emocionante.

LEMBRANÇAS — Zida, uma das filhas de Guido Salomão, mostra fotos antigas do pai construtor

“Meu avô já trabalhava com construção. Quando meu pai chegou a Santa Cruz, já dominava o ofício”, contou a filha Zilda Salomão, 75, uma das oito mulheres de Guido e Maria de Lourdes, já que o casal teve ainda dois homens — José Carlos e Antônio Roberto. “Éramos uma família enorme, uma penca de irmãos”, diz Zilda, rindo. Além daquela que morreu ainda bebê, as outras mulheres são Olga, Zilda, Diva, Maria Rosa (falecida recentemente), Tânia, Maria Aparecida e Kátia.

O casamento com Maria de Lourdes

Dá para imaginar um “italiano” com sete filhas numa época em que a moral falava alto. “Não era fácil. Uma vez ele me deixou ir a um baile de formatura. Mas, na hora em que estava pronta, avisou que eu deveria voltar à meia-noite. Ora, o baile começava mais ou menos neste horário. Acabei ficando em casa”, conta Zilda. Aos poucos, o pai foi se amoldando aos costumes. Assim, em dia de baile as filhas podiam voltar às 2h. Mas uma devia fazer companhia à outra.

Um ‘professor’

Guido não se formou arquiteto ou engenheiro. Ao contrário, não teve muita chance de estudar e ficou no primário. “Na verdade, ele aprendeu na prática. Tem muita gente que conta que meu pai ensinava profissionais formados”, lembra a filha Zilda. Além disso, Guido lia muito, ouvia boa música e conquistou uma cultura surpreendente. Segundo Zilda, ele foi rígido na educação dos filhos, alegando que era a grande herança que deixaria para eles.

Os imóveis construídos por Guido eram impecáveis e conhecidos pela solidez. Não havia rachaduras e Salomão passou a ser um construtor muito requisitado. Formou uma equipe grande e clientes costumavam aguardar na fila a vaga para iniciar uma construção. Muitos nem pesquisavam preços ou outros construtores — queriam Salomão.
Aliás, era ele quem desenhava os projetos, criando majestosos imóveis. Muitas vezes, avançava horas durante a noite num escritório que mantinha em casa, criando designs modernistas. Suas residências eram consideradas arrojadas para a época.

RELIGIOSIDADE — Guido e a família, durante celebração na Igreja católica

O Icaiçara foi uma das grandes obras de Guido. O clube foi inaugurado em 1959, mas faltava a piscina, iniciada quatro anos depois. Novamente, Guido foi convocado para a construção, num terreno doado pela família Souza Santos. Ele nunca havia construído uma piscina daquele tamanho, mas fez outra construção impecável. “Meu pai era muito ligado ao Ica. Muitos serviços ele nem cobrou, pois ficou orgulhoso pela obra”, contou Zilda.
Outra construção imponente de Guido foi o “Grande Hotel”, que nos anos 1950 era considerado um estabelecimento de luxo. Mais uma vez, a marca de Salomão está no prédio, com paredes firmes e grossas. Durante muitos anos, o hotel foi dirigido pela família de Feres Saliba.

A “PENCA” — Guido Salomão, a mulher Lourdes e os nove filhos do casal

Modernista

Salomão gostava de criar modelos de residências. Foi ele quem construiu a própria casa, uma enorme residência na região conhecida como “Chafariz”. Tinha até banheira, que as crianças adoravam.
O construtor era o preferido das famílias abastadas de Santa Cruz do Rio Pardo. Guido construiu, entre outras, as residências de Aquino Rosso, Tião Yoneda, Quintilho Rosso, Paulo Corazza, Noêmia Aloe e Ângelo Aloe. “Tem muitas outras, mas eu nem me lembro”, conta a filha Zilda.

Guido (à esquerda) observa Carlos Queiroz adentrando o Icaiçara

Guido nunca se meteu em política, mas era eleitor fiel dos “azuis”. No entanto, tinha amizade com políticos de todas as tendências. Um dos grandes amigos era o engenheiro José Carlos Camarinha, um dos líderes dos “vermelhos”.
Claro que Salomão também teve decepções. No governo de Fernando Collor, quando houve o confisco da poupança, ele perdeu muito dinheiro. Na mesma época, teve o carro furtado, junto com muitas ferramentas. “Aquilo acabou com meu pai. Acho até que o levou à morte, alguns anos depois”, conta Zilda.
Guido Salomão morreu em 1998. Ainda trabalhava, mas em outro ritmo porque as forças já começavam a faltar. Tinha 78 anos. Como desejava, formou todos os filhos, deixou uma família numerosa e honrou sua profissão. Falta apenas ser dignamente homenageado pelo Poder Público. 

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 03/11/2019
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