Beto Magnani: ‘O mictório’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

O mictório

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

O último acorde ainda soava nos ouvidos quando fui ao banheiro. Do pequeno vitrô, que mal cumpria a missão de ventilar o recinto, eu ouvia gritos que ecoavam entre os prédios da metrópole. Uma comemoração entusiasmada. Contagiante. Ocupei o último mictório livre dos três existentes.
— Se não sabe, ignora. É ignorante. Lamento.
— Verdade.
— Se sabe e diz que não sabe, é um mentiroso. E a mentira não é um recurso saudável. Além de não ser duradouro. Insegura.
— Verdade.
— Agora, se sabe o que houve e diz que não houve, é um criminoso além de mentiroso. Porque se diz que não houve é porque tem coisas pra esconder ou quer prejudicar alguém. Ou seja, há má fé. Há dolo. Crime!
— Verdade.
Terminaram juntos, impressionantemente sincronizados com o último “verdade”. As braguilhas também; foram fechadas em sincronia olímpica. Não falaram mais nada. Saíram sem lavar as mãos. Eu continuei ali. Alívio longo. Legítimo. Terminei. Lavei as mãos e voltei para o segundo ato.
(Magú) 

  • Publicado na edição impressa de 10/11/2019
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