As curiosas ligações de Pelé com S. Cruz

Melhor jogador de todos os tempos
quase vestiu a camisa da Esportiva e já
dono de terrenos no Parque das Nações

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Na semana em que Pelé volta ao noticiário mundial, quando se comemora os 50 anos de seu milésimo gol, voltam também as lembranças do “rei do futebol” com Santa Cruz do Rio Pardo. Na verdade, a ligação foi muito além da pequena distância, já que Edson Arantes do Nascimento morou em Bauru de 1945 até 1956, cidade a 100 quilômetros de Santa Cruz e onde ganhou o apelido que o consagrou no mundo todo. Aliás, ele quase se transformou em jogador da Esportiva Santacruzense.
Pelé marcou seu milésimo gol no dia 19 de novembro de 1969 no Macaranã, perante 65.157 pagantes que assistiam ao jogo entre Santos e Vasco da Gama. Era uma quarta-feira e a partida, com poucas emoções, valia pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o “Brasileirão” da época. Aos 33 minutos do segundo tempo, com o placar em 1 a 1, Pelé entra na área e é derrubado. Pênalti. O estádio grita em coro o nome de Pelé. Os colegas alvinegros se afastam e o “atleta do século XX” se vê diante da bola. Era dele a responsabilidade de cobrar e a glória de fazer 1.000 gols. Bola no canto esquerdo e o goleiro Andrada ainda toca nela antes de ganhar as redes. A história ganhava um novo momento.

O caminhoneiro João Lamino, 84, estava no Rio de Janeiro em novembro de 1969 e foi ao Maracanã, presenciando o milésimo gol de Pelé (ao lado)

O jogo parou, os jornalistas invadiram o campo, Pelé deu uma volta olímpica com a camisa número 1.000 e discursou aos repórteres. Naquele instante, há meio século, o “rei” fez um apelo pelas “criancinhas desafortunadas” do Brasil.
Entre as mais de 65 mil pessoas no Maracanã, pelo menos um santa-cruzense assistiu ao vivo o milésimo gol. É o caminhoneiro João Lamino, que, aos 84 anos, ainda está na ativa. Naquele 19 de novembro de 1969, Lamino e o amigo Baiano Borges chegaram ao Rio de Janeiro com o caminhão carregado com café. “Mas houve um problema e não pudemos descarregar. Ficou para o dia seguinte. Então, resolvemos passear no Cristo Redentor e à noite fomos assistir ao jogo do Santos”, contou Lamino, que é torcedor do São Paulo.
O caminhoneiro conta que, da arquibancada, percebeu que Pelé não queria cobrar o pênalti, talvez porque queria o milésimo gol nascido de alguma jogada espetacular. “Mas os jogadores do Santos recuaram todos e deixaram Pelé sozinho com a bola. Aí não teve jeito”, lembrou. João Lamino, por sinal, já foi jogador de futebol em Santa Cruz, forjado nas categorias de base da Esportiva, dirigida pelo lendário Otávio Lorenzetti.

LENDA VIVA — Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, completou 79 anos

‘Muito franzino’

Outro episódio envolvendo Pelé com Santa Cruz do Rio Pardo aconteceu nos anos 1950, pouco tempo antes do jogador chegar ao Santos para ser consagrado como o melhor do mundo. Ele ainda morava em Bauru e seu apelido era “gasolina”, uma referência à rapidez do garotinho em campo. Na verdade, o pai, Dondinho, tinha jogado num time mineiro cujo goleiro chamava-se Bilé. Assim, o menino, durante as brincadeiras com a bola, imitava o goleiro e dizia: “Defende Bilé”. Assim, o apelido logo ficou “Bilé”, mas pela dificuldade na pronúncia os amigos passaram a chamá-lo de Pelé. Em Bauru, o garotinho era jogador do juvenil do Bauru Atlético Clube (BAC), o chamado “Baquinho”.

Na mesma época, em Santa Cruz do Rio Pardo, dirigentes da Esportiva planejavam montar um time forte para conquistar títulos — a glória, porém, só viria na década seguinte, quando o clube foi campeão paulista da Segunda Divisão. Mas não era fácil encontrar jogadores talentosos dispostos a seguir carreira no futebol.
Um dia, dois dirigentes da Esportiva resolveram ir até Bauru, a convite de um “olheiro”, para tentar contratar algum talento jovem. E foram exatamente ao Baquinho, quando um dos dirigentes aconselhou os dois “cartolas” de Santa Cruz a observarem um adolescente “endiabrado” que entortava os zagueiros.

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Os “cartolas” eram Toninho Yoneda e Paulo Gilberto Machado Ramos, o “Betão”. Este último confirmou o fato ao jornal em duas entrevistas. No campo do BAC, eles realmente ficaram encantados com a habilidade de Pelé, mas consideraram o garotinho muito franzino para a disputa da Segunda Divisão. Os dirigentes acabaram escolhendo um jogador mais robusto, que seria contratado pela Santacruzense.
Já o garotinho de Bauru encheu os olhos de Waldemar de Brito, o treinador do Baquinho. Em 1956, ele apresentou Pelé aos dirigentes do Santos Futebol Clube. “Este é o garoto que vai ser o melhor jogador do mundo”, disse o técnico ao presidente do Santos, Athiê Jorge Coury. Dito e feito. 


JOGO ÉPICO — Mariani (à direita de Pelé) estava em campo quando a Ferroviária venceu o Santos por 4 a 1

Santa-cruzense ganhou
de Pelé em campo: 4 a 1

Ex-jogador profissional, Benedito Carlos Mariani, o “Padeiro”, foi ídolo no Marília e na Ferroviária, além de jogar na Esportiva Santacruzense. Porém, foi no time de Araraquara que ele conquistou sua maior glória: golear o Santos de Pelé por 4×1.
O feito histórico aconteceu no dia 7 de março de 1971, numa partida válida pelo campeonato paulista, o principal torneio da época, superando em atração o Brasileirão na época. O público no estádio da Fonte Nova, mais de 17.000 pagantes, foi recorde durante 22 anos.
Em campo, o Santos tinha Pelé, Edu, Cejas, Clodoaldo e outros craques. Mariani estava no outro lado, no esquadrão da Ferroviária que era um dos destaques do Paulistão daquele ano.
Pois incrivelmente a Ferroviária aplicou uma goleada de 4 a 1 no Santos. Pelé até pediu para ser substituído aos 37 minutos do segundo tempo. Antes, porém, avisou: “Ainda tem o segundo turno”.

Segundo Mariani, hoje empresário em Santa Cruz do Rio Pardo, o jogo teve um fato curioso. Como a Ferroviária não tinha patrocínio, o presidente do clube avisou aos jogadores para não trocarem a camisa depois do jogo, mesmo sendo uma tradição. No entanto, Pelé ofereceu sua camisa ao atacante Lance, da Ferroviária. “Claro que ele trocou. Afinal, era Pelé”, contou Mariano. A desobediência provocou uma crise interna entre diretoria e jogadores.
Pelé soube do caso e, no returno, apareceu em campo com a camisa de Lance, trocada no jogo anterior. Estava devidamente lavada, passada e embrulhada num plástico. Ele a devolveu, dizendo que jamais queria ser protagonista de algum fato que prejudicasse os colegas da Ferroviária.
Em campo, porém, Pelé cumpriu o aviso que fez no primeiro turno. Foi o melhor jogador da partida na sonora goleada do Santos por 5 a 0. 

* Colaborou Toko Degaspari

– Leia AQUI como Pelé foi dono de terrenos em Santa Cruz

  • Publicado na edição impressa de 17/11/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate