Beto Magnani: ‘A identidade’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

A identidade

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

A cópia da minha identidade demorou por causa das cópias dos dois jovens que estavam na minha frente. Não era pouca coisa. Tive que esperar. Não resisti, ouvi a conversa.
— Por mim eu acabava com a simetria. Odeio as coisas simétricas.
— Impossível acabar com a simetria.
— Claro que não. É só quebrar. Deixar tudo mais desequilibrado, sem contraposição. Simples. Sem simetria.
— Pois é, tá vendo. Para quebrar a simetria você precisa dela. Não tem como fugir. Fora que ela existe na natureza.
— Na natureza não, nada é simétrico.
— É sim. Nos corpos. E em quase todas as espécies. Até nas mais estranhas.
— É. Mesmo assim viveria sem ela na boa.
— Impossível.
— Mas viveria.
— O padrão é inevitável. Para quebrar você precisa aceitá-lo.
— Filosofia de boteco essa sua.
— De boteco com muito orgulho! A Ágora moderna. Nossa praça pública. Antes no boteco do que nas prateleiras da universidade.
— Sei. Tipo duas doses acima da humanidade. Um bando de bêbado idiota esnobando conhecimento. Ridículo.
— Ridículo é você querendo acabar com a simetria.
— Acabaria com o futebol também.
— Aí você foi longe demais. Volta para a simetria.
— Odeio futebol.
— Por que? Por que o campo tem dois lados iguais ou por que são onze jogadores para cada lado?
— Por que é muito chato!
— O futebol que é chato?
As cópias deles ficaram prontas. Eram plantas de casas e apartamentos. Na saída passaram por mim simetricamente um de cada lado. A cópia da minha identidade também ficou pronta em seguida. Veio torta na folha. Me incomodou, mas não reclamei. Fui para o cartório.
(Magú) 

  • Publicado na edição impressa de 24/11/2019
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