Geraldo Machado: ‘Confissões’

Confissões

Geraldo Machado*

“Não se pode perder
muito de um líquido
que cai gota a gota
(a vida)”. Sêneca
— “As relações humanas”

Quando, nos idos de 1930, eu fui interno no Ginásio Diocesano de Botucatu, a cidade dos bons ares, eu respirava fundo o clima sombrio da sua arquitetura imponente. O avesso chuleado da minha casa paterna, simples, sem forro, de telhas vãs, deixava o ar do vale circular com os seus odores vegetais, emanações da natureza respiradas pelas janelas sem vidraças. Aquele menino de treze anos, de vida liberta, já primeiro comungado aos oito, em Jaú, tinha como disciplina e dever comungar segundo os costumes. A confissão prévia era feita com os padres capuchinos. Esse sacro tête-a-tête deixava transvazar da tela do confessionário para o sigilo do penitente, o odor defumado e barroco da barbaça impregnada do tabaco dos cigarros, vício profano que somado ao anti-pedagógico, negava a escola e a doutrina. Isso passou. Hoje, as minhas confissões são óbvias e comunitárias — tais e tantas. Confissões da memória, indiscretas, veniais, prosaicas, ameninadas.
Não estou aqui, lutando por um lugar em branco do DEBATE, para me confessar e remir ingenuidades diante dos leitores recatados, sem tempo para vasculhar o sótão das consciências atribuladas. Estou para lembrar as confissões que marcaram época na literatura clássica. Primeiro, as de Santo Agostinho, o Bispo de Hipona. Segundo, as de J.J. Rousseau, o filósofo. E, terceiro, as de W. Somerset Maugham, escritor renomado que publicou as suas em 1938. A Editora Globo reeditou agora, com tradução de Mário Quintana, prefácio primoroso de Carlos Vogt. É nesta que me enfoco para não esbanjar, às soltas, as minhas, que são provincianas e subalternas para o leitor de hoje, habituado — de mal grado — a ouvir fuxicos e baboseiras inconfessáveis ao coração mais indulgente, e aos ouvidos limpos, expurgados das ceras e das cacofonias.
Mas, com a licença do leitor, subsiste uma quarta confissão das minhas histórias, prata da casa, grão memorável e digestível do meu Celeiro. Quem me contou — faz tanto tempo! — foi o João Alves Moreira, empregado, colono no Guarantã. Veio para o sítio na seca de 1924, ano em que ninguém colheu boa planta. Eu tinha quatro anos quando ele veio com os Rosa. Trouxe a mulher e três filhas: a Maria, a Geralda e a Candinha. As duas primeiras, com a minha idade, ainda vivem em Cambará, Paraná. João Alves não veio de Cartago, nem da França e, menos, da Inglaterra. Veio do Piquete, norte do Estado, e só se mudou para a cidade já velho e aposentado. O pai do João Alves — seu Zico Moreira — segundo o testemunho fiel do filho, nunca foi bem visto na praça. Brigão, mulherengo, pau-d’água. Depois de velho, por insinuação de piedosos, resolveu procurar um padre para se confessar. Foi e não deu certo. Recolhido, a rogo do pároco, gaguejou suas diabruras e safadezas. O cura ouvia em silêncio o paspalhão, até num ponto obscuro e escabroso que fugia do seu mister de confessor. Disse com brandura ao penitente: “Irmão, nesse caso eu te aconselho ir ao delegado, à polícia. Foge da minha alçada o juízo e o perdão”. Zico Moreira saiu de mansinho e nunca mais quis saber de confissão.
“Sou um vagabundo que se vestiu o melhor que pôde com um par de calças que lhe foram dadas pela caridosa mulher de um granjeiro, com um casaco roubado a um espantalho, com uns sapatos velhos apanhados no lixo e um chapéu que encontrou na estrada. São apenas trapos, mas o vagabundo acomodou-se neles muito confortavelmente, e, por hediondos que pareçam, acha que lhe assentam bem. Quando passa por algum cavalheiro de elegante terno azul, chapéu novo e sapatos recém lustrados, acha-o, na verdade, muito distinto, mas não está certo de que naquela limpa e respeitável indumentária estaria tão à vontade como dentro de seus trapos”. Nisso se resumem as “confissões” de Somerset Maugham, que teve tudo do bom e do melhor, e morreu com 92 anos, com uma obra vastíssima de contos, novelas, romances, peças teatrais, ensaios e narrativas de viagens.
Eu, da minha parte, não tenho confissões – chega a do Zico Moreira. A Lúcia Helena, uma amiga, disse-me, um dia — quando lhe falei da minha idade — que eu tinha “juventude acumulada”. Hoje, minha amiga, o fardo me pesa como a lã a um carneiro. No inverno da vida eu preciso dela. Eu sinto frio e a tosquia seria cruel agora. “A beleza da aurora e o esplendor do meio-dia são coisas agradáveis, mas tolo seria quem baixasse as cortinas e acendesse as luzes para afastar da vista a tranqüilidade do entardecer”. Não confesso mais. Fiz isso muitas vezes e me desacreditei. Na minha vida não há, não houve culpas nem nem culpados — só complacências e desculpas. “A beleza da vida não é nada mais do isto: que cada um proceda de acordo com a sua natureza e a sua ocupação”. Mais adiante, confessa o autor: “Grande parte das pessoas têm um furioso desejo de falar de si mesmas e apenas são detidas pela pouca vontade dos outros em escutá-las”. Eu contei muitas histórias, mas escritas. Como isso aconteceu muito tarde, poucos leram. Passo para Somerset a resposta: “Quando eu era moço, espantava-me a afirmação de Plutarco, de que Catão começara a aprender grego aos oitenta anos. Agora já não me espanta. Os velhos estão prontos a empreender qualquer tarefa que os moços evitam porque levaria demasiado tempo”. Confesso, meu leitor, que com o peso desta “juventude acumulada”, esta lã que, se tosada, daria um bom alcochoado, está melhor no meu lombo de velho doque num pelego surrado. De resto, convido o leitor para a experiência de ler “confissões”. Verá, com o tempo, que não há novidade nem interesse em fazer as suas. As de Santo Agostinho, as de Rousseau, as de Somerset Maugham e as do Zico Moreira são paralelas e congêneres: dissimulam só na época — o homem é o mesmo. “A velhice dos néscios será néscia, mas assim foi a sua mocidade”.
Tudo isso aprendi (tarde demais? — homem, não sei). Confesso, com as “Confissões” que li, a minha total comunhão com eles — humanos que foram, ignorantes que somos. 

* In memoriam

* Publicado originariamente  em 2009

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Proprietário e Editor do Jornal Debate