Artista transforma ferro em arte

Nivaldo mostra um tanque de guerra com canhão e mira, tudo construído com peças recicláveis de ferro

Pouco conhecido, o artesão Nivaldo Duarte produz esculturas em
ferro, pinta quadros e ainda fabricou quase todos os móveis da casa

GENIAL — Ruelas velhas se transformaram nas ‘escamas’ de uma cobra

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O carpinteiro Nivaldo Garcia Duarte, 49, descobriu-se artista aos quinze anos de idade, quando passou a manusear madeira. Foi nesta época que ele iniciou o trabalho numa empresa fabricante de carrocerias de madeira para caminhões e uniu a profissão à arte. Criava, essencialmente, cadeiras, cujos modelos mentalizava ou garimpava em revistas. “Em vez de comprar, passei a fabricar minhas próprias cadeiras”, conta. Há um ano, Nivaldo inovou. Enquanto vasculhava a internet, deparou-se com esculturas de ferro. Pensou que poderia fazer igual. A primeira foi uma réplica de escorpião. E não parou mais.

Nivaldo recicla todo tipo de peças e artefatos de ferro descartáveis, desde um simples parafuso a uma carcaça de moto ou um rolamento já desgastado. Tudo se transforma em exuberantes objetos de decoração.

SUCATA VIRA PEÇA ARTÍSTICA — Nivaldo Garcia trabalha atualmente na réplica de uma motocicleta fabricada com pregos, parafusos, metais e rolemã
Bancos de molas já prontos

Embora seja praticamente um iniciante no ferro, a segunda obra de Nivaldo foi uma enorme vespa sobre uma colmeia feita com porcas de parafusos. O inseto surgiu com dezenas de capas de rolamentos velhos, fios e pedaços de motor.

Atualmente, o artista trabalha num modelo de motocicleta estilo “Harley Davidson” construído com pregos, parafusos e rolamentos. Antes do acabamento, tudo ainda é meio enferrujado, mas a obra já começou a ganhar forma.

O artesão, que ainda trabalha na fabricação de carrocerias de madeira, costuma “fazer arte” aos sábados. Para tanto, montou uma pequena oficina em sua residência, onde há sucatas surpreendentemente organizadas. Até uma antiga geladeira virou uma espécie de armário para guardar tudo o que, para Nivaldo, pode ser aproveitado em alguma produção.

Se o sábado é o dia escolhido para o hobby do artista, ele confessa que, às vezes, também se arrisca a trabalhar no domingo. “Mas minha mulher pega no pé. Não dá para ficar na solda o final de semana todo”, diz, rindo. Ao seu lado, Marlene, a esposa, confirma com um olhar sério.

VESPA — Nivaldo criou uma vespa cuja colmeia são ruelas douradas

Processo da criação

Bancos construídos com várias correntes, ainda na “fábrica”

Não é toda hora que as ideias surgem na mente de Nivaldo. Ele conta que costuma garimpar peças e pedaços de metal em ferros-velhos da cidade, mesmo sem imaginar o que fazer com a peça. “Simplesmente penso que um dia será útil”, diz.

Mas há momentos em que a criatividade surge instantaneamente. Foi o que aconteceu na manhã de um sábado, quando, logo ao acordar, ele olhou para estruturas de ferro tortas pelo chão. “Dá para fazer uma cobra”, pensou. Deu tão certo que Nivaldo fez questão de arrumar os mínimos detalhes do objeto. Ele uniu com soldas várias ruelas, que se tornaram as escamas do animal de ferro. Depois, surgiu um tanque de guerra cujo canhão gira 360 graus.

O tempo que Nivaldo leva para finalizar uma estrutura varia de acordo com a complexidade do objeto. “A cobra, por exemplo, foi feita em um dia e meio. Mas para o tanque, que é mais complicado, levei uns três sábados”, explica.

Nivaldo é pai de três filhos que, por sinal, sempre acompanharam suas produções — da madeira ao ferro. E, claro, invariavelmente Daniele, Willian e Isabela ganhavam presentes artesanais na infância. Talvez pela falta de tempo, uma carreta que Nivaldo daria a Willian não foi finalizada e, até hoje, está numa estante. O artista tem planos de concluir o brinquedo para, agora, presentear o neto.

O artesão produz obras apenas por amor à arte. Até hoje, ele só vendeu uma única peça, ainda assim porque o comprador insistiu ao perceber a beleza rara. Era o dono de uma revenda de motos de Ourinhos, que levou uma réplica de um triciclo.

Na verdade, Nivaldo sonha em promover uma exposição de suas peças. Ele nunca recebeu uma encomenda para fazer alguma peça, mas diz que aceita qualquer desafio.

VARIADO — Nivaldo pinta quadros, mas também construiu os móveis

Versatilidade

O mais curioso é que Nivaldo Garcia Duarte é um artista versátil. Se já foi carpinteiro e agora transforma ferro em arte, Nivaldo também já pintou quadros. São paisagens e animais para ornamentar as paredes da própria casa, produzidas em óleo sobre tela. Aliás, a tela é ele mesmo quem fabrica, a partir de tecidos especiais e lona. Se não gosta do resultado final, descarta imediatamente. “Eu já joguei quadros no lixo. Hoje, penso que alguém pode ter gostado e, provavelmente, pode estar em alguma casa por aí”, diz, rindo.

Com tantos dons, só faltava Nivaldo ter construído a própria casa. “Sim, mas não tinha qualquer experiência em construção. Peguei a ideia de um, sugestão de outro e a casa saiu”, contou. Mas ele já planeja uma ampla reforma, para inserir motivos rústicos — e, claro, detalhes em ferro — nas colunas e paredes.

Por sinal, esta técnica ele já aplica em produtos onde a madeira se mistura ao ferro. São bancos com apoio de molas ou até correntes sólidas com os elos unidos. Enquanto conversa, a mente de Nivaldo não para de criar. Como novas miniaturas, ele já pensa num “androide” como no filme “Exterminador do Futuro” ou um novo escorpião robotizado.

Mas de onde vem toda esta imaginação fértil? “Eu lia muitas revistas e gibis. Aquelas de super-heróis eram minhas preferidas”, lembrou Nivaldo, explicando a forte influência sobre sua arte.

* Contato: (14) 99762-3146

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 1º/12/2019
Sobre Sergio Fleury 5177 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate