Mulher cuida de gato ‘trans’ em Santa Cruz do Rio Pardo

CIRURGIA — Cezarina mostra “Piqui’, que agora se chama “Piquia”

Solidária e amante de animais, a aposentada
Cezarina Andrade também tem uma cadela muda

Piqui, o gato que mudou de sexo

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A vizinhança toda conhece Cezarina Pereira de Andrade Nogueira, 75, principalmente o coração da professora aposentada. Afinal, ela é daquelas mulheres solidárias que cuidam de doentes e sempre estã dispostas a ajudar alguém. Mas Cezarina também ama animais, tanto que chegou a ter treze cachorros e vários gatos em sua residência, na vila Sidéria. Entretanto, um dos gatos chama a atenção, já que precisou ser submetido a uma cirurgia de emergência que mudou o sexo. Assim, “Piqui” hoje é “Piquia”, um dos xodós de Cezarina.

A história começou quando a aposentada percebeu a presença de um gato muito ferido na porta da garagem. “Estava se arrastando e provavelmente tinha sido atropelado. Tentei pegá-lo mas, assustado, ele correu. No dia seguinte, eu o encontrei no vizinho”, contou.

“Piqui” não deixava ninguém se aproximar, mas corria um sério risco. Cezarina resolveu enrolá-lo numas coberta e partir em busca de socorro médico em Ourinhos, onde já era conhecida por um veterinário amigo.

Cezarina “adotou” até um terreno

O diagnóstico mostrou que Piqui havia quebrado a bacia em três lugares. Ficou um mês internado e, quando teve alta, foi adotado por Cezarina. Ela ainda precisou de algumas semanas para que o gato, finalmente, se rendesse aos carinhos da dona. “Depois me falaram que era um gato de rua, que vivia há aproximadamente seis anos de bairro em bairro”, contou. Piqui e Cezarina, então, se tornaram amigos inseparáveis.

Final feliz? Ainda não. Tempos depois, o gato começou a urinar sangue, enfraqueceu e precisou ser levado às pressas para o veterinário. Piqui tinha enormes pedras no rim que o animal não conseguia eliminar. “Descobri que muitos machos morrem por conta disso. A gata, pelo seu aparelho genital, é mais fácil expelir”, contou Cezarina.

A solução dada pelo veterinário foi retirar as genitais do gato, inclusive o saco escrotal. A cirurgia foi realizada há dois anos e o animal ganhou, curiosamente, uma “vagina”.

Nunca mais teve problemas com pedras no rim, mas passou a urinar como uma fêmea. Virou, literalmente, um gato ‘trans’, embora não tenha atração por machos. “Ele até fica bravo quando um outro gato se aproxima com segundas intenções”, conta Cezarina. “Mas agora ele é mulherzinha”, ri.

O drama do gato não terminou na cirurgia, pois ‘Piquia’ ainda teve câncer e precisou retirar as duas orelhas. Segundo Cezarina, a nova aparência desperta curiosidade das pessoas, especialmente crianças. “Teve uma menina que disse para a mãe que queria ter um gato igual, sem as orelhas”, disse. A aposentada também ficou sabendo que gatos com a cor clara são mais sujeitos a contrair doenças graves, como câncer. No caso de “Piquia”, ela calcula que gastou mais de R$ 7 mil com os tratamentos.

MUDA — “Martinha” sai todos os dias e volta para a cama no final da tarde

A cadela muda

Cezarina Andrade também cuida de uma cadela que possui outra deficiência. “Martinha”, que vivia nas ruas antes de ser adotada pela aposentada, é muda. “Ela escuta muito bem, mas nem sabe latir porque o som não sai”, conta Cezarina. O diagnóstico foi do mesmo veterinário de Ourinhos.

O curioso é que “Martinha” não abandonou totalmente os hábitos da rua, mesmo após ter sido adotada. A cadela sai de casa logo pela manhã e cumpre praticamente uma “via sacra”, visitando várias famílias.

O último ponto, no final da tarde, é na casa do irmão de Cezarina. “Aí ela fica esperando eu buscá-la. É enjoada e, às vezes, quer vir de carro”, conta, rindo.

As pessoas adoram a cadela. Algumas famílias são visitadas por ela religiosamente num determinado horário. “Um dia, um morador me perguntou, preocupado, se algo havia acontecido com ela, pois a Martinha não aparecia havia dois dias na casa dele”, contou. Em cada ponto de visita, as famílias deixam água ou algum quitute para Martinha.

A noite ainda não caiu quando a cadela, finalmente, entra na casa de Cezarina. “Aí ela vai direto para a cama dela, que fica no meu quarto. E dorme. Aliás, só vai fazer alguma necessidade no dia seguinte”, conta.

Além de “Piquia” e “Martinha”, a aposentada cuida de outros animais. Ela já teve cão sem uma pata e uma gata totalmente cega. “A Princesa andava pela casa toda. Só não podia mudar os móveis de lugar”, lembra.

‘Área de lazer’

Apesar das atividades com doentes e os animais, todas as semanas Cezarina ainda encontra tempo para manter limpo um terreno na esquina de sua casa. A proprietária mora em outra cidade e já agradeceu a aposentada pela gentileza. Na verdade, Cezarina “adotou” o terreno porque, segundo ela, é um lugar que seus animais adoram.

  • Publicado na edição impressa de 1º/12/2019
Sobre Sergio Fleury 5835 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate