Abandonada, rodoviária de Santa Cruz virou ‘moradia’ de andarilhos

MEDO — Passageiros reclamam de pedidos ostensivos de escmola

Pelo menos 20 moradores de rua
dormem no prédio diariamente

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A primeira impressão é a que fica”. Se o velho ditado for verdadeiro, os passageiros que desembarcam diariamente na rodoviária de Santa Cruz do Rio Pardo têm uma péssima impressão sobre a cidade ao se depararem com moradores de rua pedindo dinheiro e espalhados pelo chão. O local, que já é alvo de reclamações dos usuários pelas péssimas condições de manutenção, virou a moradia fixa destas pessoas, a maioria alcoólatra ou dependente química. Mas eles também reclamam da falta de assistência ou mesmo de um albergue na cidade. “Não temos para onde ir”, diz uma mulher (leia ao lado).

A situação dos moradores de rua se agravou em Santa Cruz depois que o prefeito Otacílio Parras (PSB) determinou a interdição da “Comunidade O Samaritano”, a única entidade que acolhia estas pessoas para recuperação através do trabalho e da evangelização. Impedido de manter “O Samaritano” em Santa Cruz, o pastor evangélico Jacks Santos hoje dirige uma extensão da comunidade em Ourinhos.

Na época, houve protestos nas ruas de Santa Cruz pela atitude do prefeito, além de passeatas de moradores de rua recuperados. Na Câmara, uma audiência pública não sensibilizou as autoridades do município quanto à importância da entidade. Prefeitura e Ministério Público garantiram que dariam todo o suporte aos moradores, já que eles iriam obrigatoriamente deixar a comunidade que funcionava no antigo “Grande Hotel”. Dois anos depois, muitos voltaram às ruas — e às drogas —, sem apoio do Poder Público.

Problema social

Hoje, os moradores andam em grupos e escolhem locais como rua Euclides da Cunha e imediações do semáforo da Clementino Gonçalves para pedir esmolas. As igrejas e praças da cidade também são os alvos preferidos. Há meses, um grupo de 20 andarilhos permanece no prédio da rodoviária, onde dormem e passam a maior parte do dia.

A situação incomoda os usuários do local, pois até a sala de espera, onde há uma TV, é constantemente invadida. Passageiros que não quiseram se identificar dizem que têm medo de usar o banheiro do terminal. “Eles seguem a gente e pedem dinheiro”, reclamou um homem. Há garrafas espalhadas.

O restaurante principal da rodoviária fechou as portas, mas outros pequenos estabelecimentos também reclamam que os clientes preferem buscar produtos em outros locais. “É só tirar a carteira que eles pedem ostensivamente”, disse um usuário do local.

Além disso, há reclamações sobre sujeiras deixadas pelos moradores de rua. Um homem garante que avistou, em pleno dia, um casal tendo relações sexuais numa vegetação atrás do prédio. “É muito constrangedor, uma vergonha”, disse.

Outro problema é a infestação de carrapatos por todo o prédio, provavelmente levados por cães dos andarilhos. O jornal recebeu fotografias de dezenas desses insetos na sala de espera da rodoviária.

Os motoristas de táxi também dizem que o movimento caiu após a chegada dos andarilhos. “As pessoas têm medo, preferem procurar outro ponto”, alegou um taxista. 



REIVINDICAÇÃO — ‘Balança’ e ‘Tita’ pedem tratamento adequado e um albergue na cidade para os moradores

Moradores de rua querem
pelo menos um ‘albergue’

Eduarda Schuh
Da Reportagem Local

A falta de um albergue municipal é a principal reclamação de moradores de rua em Santa Cruz do Rio Pardo. Segundo alguns deles, ouvidos pela reportagem, este fato aumentou o número de pessoas que vivem na rodoviária e em outros pontos da cidade.

“Tita”, 38, e “Balança”, 41, que só concordaram em informar seus apelidos, vivem nas ruas há mais de 18 anos. Nascidos e criados em Santa Cruz, já andaram por muitas cidades e afirmam que a maioria dos municípios possuem albergues. “Ourinhos, Bauru e Avaré têm”, conta Balança.

Colchão é obstáculo em porta da sala de espera

“A gente quer tomar banho. Queremos um telhado e um lugar para passarmos a noite sem medo de levarem nossas coisas”, explica Tita.

Os dois santa-cruzenses são assumidamente alcóolatras e já tentaram se livrar do vício. No entanto, afirmam que nunca receberam tratamento ou assistência adequados. “Não existe nenhuma assistência para pessoas na nossa situação. A única coisa que temos é o apoio do Cras, que faz atividades e dá uma ajuda para a gente”, conta Balança.

De acordo com os dois, existem cerca de vinte pessoas “morando” na rodoviária. Durante o dia, eles se espalham por outros pontos de Santa Cruz. Mas, por conta do telhado e do banheiro, voltam para a rodoviária para passar a noite. No prédio, segundo Tita, os comerciantes e os passageiros são educados. “Tratam a gente bem, nos ajudam e conseguimos dinheiro para comprar alguma coisinha”, afirma.

Eles garantem que “moram” na rodoviária porque não têm outra opção. Se existisse um albergue, os dois afirmam que iriam para outro espaço, mesmo sob a condição de sobriedade e com regras de horário. “Mas não tem nem o mínimo”, reclama a mulher. 

  • Publicado na edição impressa de 15/12/2019
Sobre Sergio Fleury 5910 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate