O ‘vereador’ sem salário

O FISCAL — Juninho aproveita o espaço que vereadores não ocupam

Mototaxista ganha respeito ao
defender direitos de moradores e já
é mais requisitado do que um vereador

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O nome dele é César de Souza. Nasceu em junho e a mãe quis batizá-lo de “Juninho”. O cartório não permitiu, alegando que era um sobrenome usado quando o filho tem o mesmo nome do pai. Ficou César, mas cresceu usando o “apelido” que a mãe sonhava como nome. Hoje, é “Juninho Souza”, 36, o mototaxista de linguajar simples que virou símbolo de cobrança aos políticos nas redes sociais, através de vídeos mostrando os problemas de Santa Cruz do Rio Pardo. Juninho já fez mais de uma centena de vídeos e se tornou o “terror” dos vereadores, suas vítimas mais cobradas.

Odiado por alguns, virou ídolo da periferia, uma espécie de “vereador” sem salário.

COBRANÇA — Juninho cobra os políticos e faz denúncias nas redes sociais

Juninho Souza garante que não faz a defesa da população apenas com interesses políticos. “Pode até ser que eu seja candidato. Mas, na verdade, eu durmo tranquilo, com a consciência gratificada em poder ajudar o povo. Isto não tem preço”, afirmou. Souza, por sinal, já foi candidato nas últimas eleições e alcançou 143 votos pelo PMDB.

E, segundo ele, foi exatamente depois das eleições que ele começou a se decepcionar com os políticos. Juninho conta que foi cumprimentar o prefeito reeleito, Otacílio Parras (PSB), e pediu para ser uma espécie de “porta-voz” dos moradores dos altos da Estação. “Eu não pedi um cargo, pois sou contra os cabides de emprego. Queria ajudar a administração mostrando os problemas dos bairros”, contou. Porém, Juninho disse que recebeu um tratamento ríspido e arrogante por parte do prefeito, que praticamente o dispensou. “Percebi, então, que poderia ser útil de outra forma”.

Juninho já fez mais de 100 vídeos

A visita a Otacílio aconteceu no final de 2016. No início do ano seguinte, Juninho mal dormia com um buraco na rua em frente à sua casa, no bairro Itaipu. Os carros passavam e era um barulhão que incomodava também os vizinhos. “Resolvi, então, fazer meu primeiro vídeo denunciando a Sabesp. No dia seguinte, acordei com o barulho de funcionários da Sabesp arrumando tudo. Percebi, então, que este tipo de denúncia dava resultado”, lembra.

Juninho Souza conta com a ajuda da “cinegrafista” Beatriz Gouveia Martins, 22, sua própria mulher, que até os 18 anos foi criada no educandário “O Lar da Criança”. Claro que ela faz as imagens com um simples celular, mas Beatriz, ao longo do tempo, foi descobrindo um melhor posicionamento, o ângulo mais correto e os efeitos da luz. Nos vídeos, ela nem aparece, mas é “guiada” por Juninho, com bordões que já ficaram conhecidos. “Olha aqui, olha só. Uma vergonha! Vem cá, me acompanhe”, costuma dizer.

No início, Juninho conta que muita gente o criticava, especialmente porque tem uma linguagem bem popular, quase sempre cheia de erros de gramática. “Mas eu sou do povo e ele me entende”, diz. Aos poucos, ficou tão popular que, hoje, é mais requisitado nas redes sociais do que propriamente os vereadores. “Esta Câmara atual é a pior da história de Santa Cruz. Os vereadores não fazem nada e só recebem salários. Eu acho que, no próximo ano, vai acontecer uma grande renovação”, avalia. Ele garante que, em todos os bairros da cidade, as críticas aos vereadores são ácidas. “Todos eles mudaram depois das eleições. Eu aprendi com meu pai que caráter ou personalidade não devem mudar jamais”, afirma.

Beatriz virou uma espécie de “assessora” das aventuras de Juninho. É ela quem acompanha as postagens nas redes sociais e avisa o marido sobre as reclamações. O mototaxista já está sendo requisitado até por moradores de Ipaussu e Bernardino de Campos. “Mas a gente é limitado, não dá para atender todo mundo”, conta. De fato, Juninho diz que gasta aproximadamente R$ 500 por mês em combustível rodando por toda a cidade.

PELAS RUAS — Beatriz e Juninho usam as redes sociais para denunciar

Obstáculos

Em tudo o que envolve o Poder Público ou direitos dos moradores, lá está Juninho Souza sendo filmado por Beatriz. Ele já colocou sua moto em estradas barrentas, tomou chuva para mostrar acessos sem obras, entrou em obras paralisadas para denunciar criadouros de mosquitos e engoliu muita poeira. “Teve um dia que peguei uma gripe muito forte. Fiquei de cama”, lembra. Isto sem falar dos problemas em sua moto, como pneu furado ou estragos no motor.

Formado pela Etec em Gestão Ambiental, sua luta mais recente é um abaixo-assinado pedindo uma solução para o forte odor exalado por uma chácara que possui uma criação de porcos. Ela está a menos de um quilômetro do Jardim Fátima e adjacências e a reclamação tem aumentado nos últimos meses. Juninho diz que já conseguiu mais de 3.000 assinaturas e pretende encaminhar o documento às autoridades competentes.

Souza é um inconformado. Ele conta que costuma se irritar com a situação do País e a posição de certas autoridades. “Por estes dias, eu li que a nora do nosso presidente, mulher do deputado Eduardo Bolsonaro, afirmou que estava passando um perrengue com a renda do marido. Em outra notícia, um juiz disse que estava passando necessidade com seu salário de mais de R$ 20 mil. Mas e o povo, que vive com salário mínimo?”, ressaltou, indignado.

O mototaxista garante que conhece a miséria do povo. Ele já morou na vila Divineia e vem de uma família com 15 irmãos, um dos quais falecido. Beatriz não fica atrás, pois também tem 15 irmãos. Interna do educandário, estudou em escolas públicas e se tornou até bailarina, mas precisou abandonar o sonho para trabalhar. Porém, sempre foi grata à instituição.

“Eu faço um serviço de fiscalização. Quero que as pessoas sejam bem atendidas pelos poderes públicos e, muitas vezes, sei que até ajudo a administração apontando problemas que nem sempre o prefeito consegue enxergar”, diz Juninho. O combustível da luta, garante, é a conscientização do povo. “Hoje está todo mundo mais atento”, diz o mototaxista, enquanto se prepara para um novo vídeo. Está na hora de ir para o ar mais uma cobrança. 

  • Publicado na edição impressa de 15/12/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate