Beto Magnani: ‘O Milk-Shake’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

O Milk-Shake

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

Do colo da mãe, o bebê arremessou o copo de milk-shake de chocolate em cima da mesa do casal de idosos que estava conversando sobre o Urubu que mora em cima da agência do Banco do Brasil. Espirrou no rosto deles.

— Ai, desculpa! — gritou a mãe imediatamente, com o copo ainda a caminho.

— Tudo bem moça, a gente entende, é um neném. — respondeu a idosa, limpando o óculos sujo de milk-shake.

— Ele tá bravo assim desde que saiu da casinha do Papai Noel ali no Jardim. Enfrentei quarenta minutos de fila só pra ver o Papai Noel. E quando ele viu começou a chorar sem parar. Não quis saber de ficar ali. Vim dar o milk-shake que ele adora pra ver se acalma, mas não tá adiantando. — explicou a mãe sem notar que o filho já estava bem mais tranquilo após o arremesso do copo.

— Deve ser por causa da barba falsa. Fica muito estranho mesmo. — comentou o idoso.

— Por que não convidaram o Seu Genário para ser o Papai Noel?! Ele é muito parecido. Já tem a barba de verdade. — emendou a idosa.

— Qual Genário amor?

— O vigia da rodoviária. Ele é igualzinho ao Papai Noel.

— Ah sim! O pessoal o chama de Marx porque ele é parecido com o Karl Marx. Tinha até me esquecido que o nome dele é Genário. — lembrou o idoso.

— Pra mim ele é a cara do Papai Noel.

— Por que você não conhece a cara do Marx. Ele é igualzinho ao Marx.

— Não conheço e nem quero conhecer.

— Eu também não gostaria de conhecer a cara do Papai Noel. – provocou o idoso.

— É uma pena ele chorar. — interrompeu a mãe — Eu lembro até hoje dos dias que eu encontrava o Papai Noel. Foram os momentos mais felizes da minha vida.

— Pois é moça. Cada um com a memória que merece. Ontem, no programa da televisão, aquele filósofo que tem família aqui na cidade disse que o momento mais feliz da vida dele foi quando o ET voou na bicicleta do Eliot. — ironizou o idoso.

— Para de falar bobagem. — advertiu a idosa.

— Pra mim, feliz é o roteirista do filme, que criou a cena catártica.

— Não liga pra ele não moça. Ele é palhaço assim mesmo. — se desculpou a idosa.

— De palhaço eu tinha medo quando era criança. — revelou a mãe.

— Então moça, é a mesma coisa. Fica tranquila que o seu filho puxou você. Você tinha medo do palhaço do circo e ele tem medo do palhaço do natal. — continuou ironizando o idoso.

— Você já tá passando dos limites meu bem! Coitada da moça. Palhaço é o seu amigo Marx!

— O vigia da rodoviária? — continuou provocando o idoso.

— Bem, desculpe novamente pelo meu filho. Vou dar mais uma volta com ele. Só não vou passar mais em frente à casa do Papai Noel. — despediu-se a mãe, saindo com o filho bem mais tranquilo e sorrindo para o idoso amigo do Karl Marx.

— Só sei que não tem um dia que eu passe ali e aquele urubu não tá lá, empoleirado na antena parabólica amarela que fica em cima do Banco do Brasil. — falou a idosa, retomando o assunto anterior ao arremesso do copo.

— Deve ser porque tem muita gente enterrada ali. Cheia de dividas. — brincou o idoso, que parecia nunca perder a piada.

Eu ri, não resisti. Eles me olharam. Perceberam que eu estava escutando. Cumprimentei com a cabeça me desculpando pela invasão. Eles sorriram e voltaram a tomar seus milk-shakes. Eu terminei o meu e saí. Fui direto ao Banco do Brasil. Fui ver se encontrava o Urubu. Encontrei. Sem fila.
(Magú) 

  • Publicado na edição impressa de 15/12/2019
Sobre Sergio Fleury 5331 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate