‘Diretoria deixou hospital atolado em dívidas’, afirma diretor-clínico

PERIGO — Crise financeira do hospital de Santa Cruz ameaça setores de urgência, como as UTIs adulto e infantil

André Coelho diz que não houve
transparência na demissão de médicos
e que profissionais estão desmotivados

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Atual diretor clínico da Santa Casa, o médico André Coelho disse que o quadro financeiro de todas as Santas Casas do País já é ruim, mas ressaltou que “a atual direção do hospital de Santa Cruz piorou esta situação e deixou o hospital atolado em mais dívidas”. Segundo ele, não houve “transparência” da diretoria na demissão de médicos que não estavam sequer recebendo seus pagamentos. “São excelentes profissionais, extremamente competentes e que dedicaram grande parte de suas vidas ao atendimento à população”, lembrou o diretor.

André Coelho afirmou que a intervenção é um ato drástico que ninguém deseja, mas que na atual conjuntura é necessária, especialmente num hospital com salários atrasados. “Os membros do corpo clínico e os demais funcionários esperam trabalhar discutindo somente as necessidades de cada setor. É isto o que pretendemos expor ao interventor”, disse.

Num quadro em que médicos estão com salários atrasados desde setembro e não há previsão para o pagamento do 13º, André disse que muitos funcionários — inclusive alguns experientes — estão pedindo demissão. “Nesta época do ano, temos as tradicionais festas de Natal e reveillon e o pagamento de impostos no ano que se inicia”, lembrou, sugerindo que a situação de famílias sem salários é difícil.

André Coelho confirmou que há denúncias de falta de funcionários em setores de emergência, como a UTI adulto. Além disso, alguns medicamentos só são providenciados na última hora — e por insistência dos coordenadores. “Os médicos que vêm de fora ajudar na cobertura dos plantões estão desistindo porque não recebem. No Pronto Socorro já houve furos nas escalas que, de última hora, foram cobertos por profissionais de Santa Cruz”, contou.

Segundo ele, o corpo clínico e os médicos estão totalmente desmotivados. “Há muitos aparelhos quebrados e sem manutenção, inclusive alguns essenciais, como respiradores da UTI adulto. Na verdade, hoje quem está ‘segurando as pontas’ são os médicos e funcionários de Santa Cruz, profissionais de alta qualidade que tenho orgulho de representar no corpo clínico”, afirmou.

André garantiu que, somente graças a estes profissionais, o hospital continua funcionando. “A administração atual poucas vezes foi transparente com todos. Posso dizer que há médicos na Santa Casa que nem conhecem os membros da diretoria”, disse o diretor clínico. 



Marcelo Saliba: MP abre inquérito

MP instaura inquérito
para apurar denúncias

Pedido partiu dos próprios médicos que atendem no hospital

O Ministério Público de Santa Cruz instaurou um inquérito civil para apurar denúncias do corpo clínico da Santa Casa sobre falta de medicamentos e outros problemas na Santa Casa de Misericórdia. Na semana passada, o promotor Marcelo Gonçalves Saliba confirmou o procedimento e disse que já requisitou informações à Santa Casa e à prefeitura.

O corpo clínico do hospital também encaminhou as mesmas denúncias ao CRM (Conselho Regional de Medicina), que deve apurar as possíveis irregularidades em procedimento próprio.
O diretor clínico da Santa Casa, André Coelho, disse que os médicos esperam destes órgãos “parceria e orientação diante de tão grave situação”. A reportagem apurou que o corpo clínico manifestou, no ofício encaminhado ao MP, uma grande preocupação com irregularidades e falta de medicamentos, o que poderia colocar em risco o atendimento à população.

O Ministério Público vai investigar se os fatos denunciados comprometem a saúde pública. “Minha participação no caso está restrita à questão da saúde e se as medidas adotadas podem sanar a crise financeira no hospital. Afinal, a Santa Casa não pode fechar porque seria um grande prejuízo para a saúde pública”, disse Marcelo Saliba. O promotor explicou que a intervenção no hospital, que é uma medida administrativa, não tem a participação direta do Ministério Público.

  • Publicado na edição impressa de 22/12/2019
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