Geraldo Machado: ‘O ninho de corruíra’

O ninho de corruíra

* Geraldo Machado

“Foi assim que meu
pai me disse uma vez:
— Você anda feito cavalo
velho, procurando grota”.

Não é assim comigo. Quando eu era menino, não procurava grota, procurava ninhos de corruíra e vadeava feliz. Não matava o passarinho, que vivia para os seus filhotes, três ou quatro; eu tinha dó da sua fragilidade, maior que a sua obstinação em proteger os filhos contra os predadores. Mais que os meninos, os gatos e as “cobras verdes” iam na dianteira. Os gatos comiam os filhotes quando eles desciam do ninho, sem aptidão para voar, como acontece com os sabiás. A corruíra e o sabiá são diferentes no tamanho, mas ambos são presas fáceis. Em primeiro lugar porque fazem ninhos na beira dos telhados, nos vãos entre os caibros, nos pilares das varandas. Não é privilégio dessas duas espécies esse modo de aninhar.

No meu Sítio, num pilar da varanda da casa, uma rolinha “fogo-apagou” vem chocando, há muito tempo, várias chocadas. Na casa do João, o empregado que cuida das vacas de leite e faz a ordenha, bem na travessa da madeira de uma varandinha da cozinha, uma corruíra já chocou muitas ninhadas numa botina velha e acalcanhada que o João colocou ali e se esquecweu de descartar.

As crianças de fora, mais ainda as da cidade, acham a coisa mais linda quando o leiteiro tira a botina da trave para mostrar os bichinhos chilreantes abrir o bico, escancarar a goela à espera de comida. Ele espera a corruíra sair para caçar insetos na vizinhança. O Azor, um amigo aposentado da CESP, quando trabalhava de carpinteiro, aproveitava as caixas de prego vazias, pregava na parede de tábuas da casa.

A corruíra fazia ninho e chocava tantas e quantas vezes, até que o ninho se estragasse. Uma vez contou-me que seu velho pai vestiu um paletó usado para ir a um culto (ele era protestante) e, de tempo em tempo, aparecia por lá, itinerante, de terno e gravata, Bíblia na mão, um pastor para celebrar num barracão de alfafa.

No caminho o velho ouviu um chilreado diferente, saído do bolso. Intrigado, levou a mão e qual não foi o seu susto! Lá estava o ninho da corruíra e, no meio do cisco, três corruirinhas apavoradas, sem a mãe. Voltou, não rezou. Pendurou o paletó no prego, com a corruíra-mãe dando voos rasantes e bicando o protestante. Creia o leitor, ninguém aqui está a mentir nem pedindo voto para as eleições que vêm por aí, de papo-furado, este sim. O velho não mentia; não serei eu a desacreditá-lo.

Na casa onde eu morei em menino (não esta do pilar do ninho da rolinha) havia uma trepadeira de cor amarela, linda, a atravessar toda a varanda da casa. Ali uma corruíra chocou por muitos anos no vão dos caibros. A cobra-verde, camuflada pelo seu verde com o da roseira, vinha para comer os filhotes e a corruíra ficava uma fera: asas levantadas, as penas arrepiadas — defendia o ninho. A obra, com medo do barulho, fugia a deslizar-se no seu mimetismo e dava o fora. Como diz o caboclo, era um “tapa-no-ouvido”, ia dormir com a barriga roncando.

Em volta da casa havia um bosque, limpinho por baixo, onde eu e minha irmã, Maria, estávamos acostumados a brincar. Uma ocasião, eu, num esforço nas pontas dos pés, tentei ver se num toco de pau — alto para mim — havia um ninho qualquer no seu interior. Aqui cabe a chata expressão “eis senão quando” surpreendentemente sai de lá uma cobra-verde que nos deixou espavoridos.

Ninguém mata esse tipo de cobra. Além de não ser venenosa, ela fazia uma limpeza nas imundícies que estão dentro da cadeira alimentar. Por mera curiosidade, li no Dicionário que a corruíra é também conhecida pelo nome de carriça. É uma ave Passeriforme, família dos Trogloditídeos.

Vejam, leitores, ela é uma troglodita, não das cavernas onde nossos antropoides se escondiam das feras e do frio. Criam nas botinas velhas e nos bolsos do paletó pendurados num prego, por aí. Na classificação salvadora de Darwin, o homem foi classificado como “Homo sapiens”. Ele é o mais sabido, o mais cruel, o mais desumano dos bichos, mesmo depois que se pôs de pé, ereto. Ele é onívoro. Cozinha, faz churrasco e espeta tudo o que vê pela frente — enxerga longe. Ainda mais: é dendrófago. Não é propriamente um cupim. Ele só rói, é ruim, quando mal formado. Não contente ao alimentar-se dos frutos, pega o machado e a motosserra e derruba a árvore. Desmata e mata.

Rastreio o passado numa busca e rebusca de coisas e conhecimentos que podem interessar aos mais velhos, com tempo para ler jornais. Assim preencho o meu espaço de colaborador enrustido do DEBATE.

Hoje o dia está propício para ler e escrever. Vou escrever. É o que me obriga a aposta do “cara-e-coroa” que decide por mim. Dá para ver a quem chegou até aqui, sem perceber, que há muita saudade, muita solidão e, por que não dizer? — um bocadinho de tristeza encanecida neste “manjar branco” que errei na receita.

Solidão é fuga? É saudade da saia materna? Do colinho? Estou bem velho pra isso. É distração, o tempo voou, correu — à frente e atrás de mim, que não fujo — não por valentia de tolo, de coió. Vamos tocar a vida saudosamente, porque: “se ficar a cobra come; se correr a cobra pega”.

Voa corruíra! Corre corruíra! Esconda-se na botina do João. 

* In memoriam

* Publicado originariamente em 2017

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Proprietário e Editor do Jornal Debate