‘Caso Feitosa’ completa três anos sem denúncia do Ministério Público

BUSCA — No final de 2016, polícia invadiu a luxuosa residência de Sueli

Instituto de Criminalística da Polícia
Civil ainda está conferindo a perícia contábil
realizada pela prefeitura de Santa Cruz

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O maior caso de corrupção da história de Santa Cruz do Rio Pardo ainda não tem ninguém denunciado. Não há sequer processo na Justiça. A descoberta do esquema operado pela ex-tesoureira da prefeitura, Sueli de Fátima Feitosa, que desviou milhões dos cofres do município durante 16 anos, aconteceu na véspera do Natal de 2016. Exatos três anos depois, a conclusão do inquérito ainda depende da análise da perícia técnica realizada pela prefeitura, cujo trabalho está sendo feito há três meses pelo Instituto de Criminalística de Marília. Só, então, o inquérito será remetido de forma definitiva ao Ministério Público, que pode denunciar os envolvidos. Ou, o que é improvável, pedir o arquivamento do caso.

A investigação foi complicada desde a descoberta do escândalo, pois o prefeito Otacílio Parras (PSB) convocou a imprensa no dia seguinte para denunciar o crime, mesmo sem citar o nome da tesoureira. “Os responsáveis deviam dar um tiro na cabeça e se entregar a Deus”, disse, chorando em frente às câmeras. Naquele momento, Sueli já havia deixado o prédio da prefeitura e, no dia seguinte, desapareceria por várias semanas. A atitude do prefeito, segundo avaliação da Polícia Civil, retirou o fator surpresa da investigação, dando tempo aos envolvidos para desaparecer com documentos ou avisar supostos “parceiros”.

CONFESSOU — Sueli deixa a sede da Central de Polícia Judiciária em 2017, num dos invúmeros interrogatórios

Em Jales-SP, um crime de corrupção idêntico teve outro desfecho. Avisada sobre o possível esquema criminoso operado pela diretora financeira da prefeitura, a polícia investigou em sigilo, acompanhada pelo Ministério Público, e conseguiu até escutas telefônicas. Com isso, descobriu o envolvimento de pelo menos cinco pessoas, que foram presas na “Operação Farra do Tesouro”. O total do desvio em Jales foi de R$ 5 milhões.

A Polícia Civil de Santa Cruz abriu vários inquéritos, inclusive para apurar o envolvimento de outros agentes políticos. Afinal, Sueli Feitosa acusou pessoas de serem “parceiras” no esquema criminoso. Entre elas, estão o ex-prefeito Adilson Mira, o ex-secretário Ricardo Moral e o ex-presidente da Codesan, Cláudio Agenor Gimenez. A ex-tesoureira também sugeriu que os prefeitos Otacílio Parras (PSB) e Maura Macieirinha (PSDB) “provavelmente” tinham conhecimento do desvio.

Moral e Agenor, de acordo com Sueli Feitosa, recebiam dinheiro diretamente em envelopes. No entanto, ela nunca apresentou provas sobre a participação deles, o que dificultou a investigação policial.

A entrega dos envelopes, segundo ela, foi suspensa no final de 2016, poucas semanas antes de o caso ser descoberto por uma falha da ex-tesoureira. Como o prefeito decidiu pagar o salário de dezembro antes do Natal, Sueli ficou desesperada porque não havia recursos no caixa, embora os extratos — supostamente falsos — mostrassem um valor diferente. Então, ela decidiu transferir R$ 1 milhão de uma conta “carimbada”, cujo montante só poderia ser usado em obras de eletrificação, para completar a folha de pagamento. Uma funcionária percebeu e alertou o então secretário de Finanças, Armando Cunha.

O crime foi descoberto e Sueli deixou o prédio da prefeitura às pressas para permanecer semanas foragida. O curioso é que a funcionária que descobriu a irregularidade foi punida pelo prefeito Otacílio e pediu exoneração. Mais tarde, o secretário de Finanças também foi demitido. O único que permaneceu ainda no governo por um bom período foi o ex-presidente da Codesan, Cláudio Agenor Gimenez, “prestigiado” por Otacílio Parras.

O delegado Renato Mardegan

R$ 11 milhões?

A Polícia Civil indiciou Sueli Feitosa, a mãe dela, Maria Aparecida Pereira Feitosa, as irmãs Silvia, Camila e Aparecida e os cunhados Pedro Moura e Adilson Gomes por vários crimes. Já existem provas de que a ex-tesoureira beneficiou familiares com o dinheiro desviado da prefeitura. O ponto controverso, porém, é o valor exato que Sueli Feitosa teria retirado dos cofres municipais.

A própria indiciada confessou o desfalque, mas anunciou valores bem menores do que efetivamente a polícia encontrou como patrimônio. A dúvida continuou porque nem mesmo o prefeito Otacílio Parras (PSB) sabia o valor que desapareceu em seu governo. Em maio de 2017, o prefeito contratou uma perícia contábil nas contas municipais, que foi feita em sigilo, a portas fechadas, num prédio anexo ao Projeto Guri. O contador Gilberto Cordeiro de Jesus foi contratado por R$ 100 mil, mas recebeu aditamentos e só terminou o serviço em setembro deste ano. Causou estranheza o fato de a prefeitura assumir a perícia para ser encaminhada ao MP, pois o próprio prefeito é investigado em inquérito pela Delegacia Seccional de Polícia por ter o nome envolvido na “delação pública” de Sueli Feitosa.

A perícia apontou que Sueli desviou R$ 11 milhões dos cofres municipais, em valores atualizados até setembro. Remetida inicialmente à Polícia Civil, a documentação foi enviada pelo delegado Renato Mardegan ao Instituto de Criminalística (IC) de Marília, para uma nova análise. Esta era uma das 63 cotas do Ministério Público para a conclusão do inquérito policial. E a última.

Segundo Mardegan, a conclusão da auditoria, que tem 36 volumes, será minuciosamente analisada pelo IC. “Eles vão fazer o cruzamento de informações e dar um parecer sobre o valor oficial do desvio”, afirmou. “Vão dizer se os números estão corretos ou não”, explicou.

Não há previsão sobre a conclusão dos trabalhos pelos técnicos do Instituto de Criminalística. No entanto, somente após o laudo final é que o inquérito estará pronto para que o Ministério Público se manifeste sobre os próximos passos — a denúncia dos envolvidos ou o arquivamento dos autos. 


PROVAS — Polícia Civil invadiu a residência de Sueli e das irmãs, apreendendo farto material para o inquérito

Busca em residências foi
essencial para investigação

Num caso em que a própria prefeitura não sabe o valor do desvio em suas contas, a única providência da Polícia Civil, que pegou os envolvidos de surpresa, foi uma busca e apreensão nas residências de Sueli Feitosa e duas de suas irmãs, autorizada pela Justiça no final de 2016. Provavelmente, antes de deixar Santa Cruz com destino incerto, Sueli transferiu documentos para a casa das irmãs, já antevendo uma busca em sua residência. Ela não esperava, porém, que mais duas residências da família também seriam vasculhadas por ordem da Justiça.

OSTENTAÇÃO — Chácara de lazer da ex-tesoureira Sueli Feitosa tem até uma capela de Nossa Senhora, com altar e bancos iguais a uma igreja

Milhares de documentos foram apreendidos, além de joias e computadores. A operação também serviu para perceber que o patrimônio da família de Sueli Feitosa não era compatível com o salário da ex-tesoureira, cerca de R$ 2 mil naquela época. Foram vasculhadas três residências de luxo, uma chácara de Sueli no bairro da Graminha e barracões de empresas no Distrito Industrial. A própria casa de Sueli, no Residencial Braúna, um bairro de classe alta, é luxuosa. Tinha 11 aparelhos de ar condicionado, utensílios domésticos importados e móveis de primeira linha. A polícia encontrou pelo menos uma centena de pares de calçados femininos de Sueli, a maioria de grifes famosas.

A investigação apurou que Sueli Feitosa operava um esquema que desviava dinheiro da contabilidade municipal, manipulando documentos contábeis e apresentando extratos bancários falsos. Segundo o próprio Otacílio admitiu na época em que a fraude foi descoberta, Sueli era uma servidora “de extrema confiança” da atual administração.

No entanto, ao que tudo indica ela desviava dinheiro público desde 2001, logo após Adilson Mira assumir o comando da prefeitura. Em janeiro de 2016, a polícia prendeu a mãe de Sueli Feitosa, Maria da Conceição Feitosa. Em fevereiro, o cunhado, Adilson Gomes de Souza, também foi preso na penitenciária de Cerqueira César. Dias depois, Sueli se entregou.

OSTENTAÇÃO — Chácara de lazer da ex-tesoureira Sueli Feitosa tem piscina

Em maio daquele mesmo ano, o advogado dela, Luiz Henrique Mitsunaga, convocou a imprensa e detalhou uma “delação pública” da ex-tesoureira. Segundo o documento assinado quando Sueli ainda estava na prisão, o esquema criminoso começou no governo Mira, através do então secretário de Administração Ricardo Moral. Ela contou que foi Moral quem a convenceu a iniciar os desvios de recursos da tesouraria, tudo em nome do “chefe”. O dinheiro era entregue dentro do prédio da prefeitura, em envelopes. Num certo momento, segundo Sueli, ela recebeu autorização para fazer “retiradas pessoais”.

A ex-tesoureira contou que Moral continuou retirando “mesadas” durante o início do governo de Otacílio Parras, quando ela decidiu “dar um basta”. Foi quando entrou na história, de acordo com a versão dela, o ex-presidente da Codesan, Cláudio Agenor Gimenez. Ele teria descoberto o esquema e, ainda segundo Sueli, fez ameaças para que ela entregasse dinheiro através de um motoboy previamente contratado por Agenor.

Sueli Feitosa ficou 40 dias presa. Seu cunhado, Adilson Gomes, alguns dias a mais. A mãe, Maria da Conceição, permaneceu na prisão pouco mais de uma semana. Hoje, estão em liberdade e usufruem dos bens, embora todos estejam bloqueados pela Justiça. Os agentes públicos citados por Sueli Feitosa negam qualquer participação no esquema criminoso de corrupção. 

PROTESTO — Casa de Sueli Feitosa chegou a ser pichada em sinal de protesto
  • Publicado na edição impressa de 29/12/2019
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