Clarínia, o distrito que desapareceu

Clarínia, o distrito que desapareceu na história de S. Cruz

Escombros, casarões destruídos e um
pequeno cemitério são o que restou de
um distrito que teve cartório e até cinema

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Difícil imaginar que naquele local existiu um povoado, pessoas cresceram e um comércio atuou durante décadas. A pouco mais de 30 quilômetros de Santa Cruz do Rio Pardo, uma fazenda possui escombros de velhos casarões, uma escola semi destruída e o que restou de uma praça pública, onde havia igreja e um coreto. As placas de ferro anunciando obras inauguradas em 1966 pelo ex-prefeito Carlos Queiroz ainda brilham, mesmo desbotadas, em meio ao pasto. A pouco mais de dois quilômetros da área, a situação de abandono de um pequeno cemitério denuncia que o tempo foi implacável com Clarínia, o antigo distrito de Santa Cruz que desapareceu na história.

Segundo antigos moradores, o distrito teve uma economia forte, inclusive com armazéns, serraria, oficinas, cartório, farmácia e até cinema. Nas acirradas eleições municipais, havia duas seções eleitorais em Clarínia. Pelo menos um antigo vereador, Elídio Crivelli, foi eleito pelo distrito nos anos 1950. De fato, o censo do IBGE na década de 1950 estimou 5.800 moradores na região de Clarínia, claro que espalhados pelas propriedades rurais. A sede do povoado tinha, em média, cerca de 300 eleitores, número que podia decidir uma eleição em Santa Cruz, com a disputa histórica e apertada entre “vermelhos” e “azuis”. Em 1968, por exemplo, Onofre Rosa venceu José Carlos Camarinha por 62 votos de diferença.

O TEMPO PAROU – Antigo prédio da escola ainda tem placa do prefeito Carlos Queiroz; abaixo, escombros da sala de aula

De acordo com o historiador Celso Prado, há registros de propriedade de terras no “termo de Clarínia” em 1857 pelo mineiro José Custódio de Souza. O nome era “Fazenda Santa Clara”, associada à “Cocaes”. Não se sabe ao certo quando teve início o povoado no local, mas uma foto de 1939 mostra o italiano Antônio Consalter Longo junto com dezenas de japoneses, provavelmente imigrantes, no grande movimento em busca de oportunidades que começou em 1908 ne só terminou em 1950. A imagem tem ao fundo o casarão de Consalter, um dos poucos imóveis que ainda estão em condições razoáveis de conservação no antigo distrito.

Clarínia ganhou o “status” de distrito em 1944, através de uma lei estadual. Havia empregos fartos, graças à cultura do café, milho, algodão e amendoim. Em 1971, já decadente pela vinda das famílias para a cidade e pelo fim de várias culturas, voltou a ser apenas um povoado. Bastaram mais três décadas para Clarínia virar um povoado “fantasma”, com um ou nenhum habitante. Hoje, apenas as ruínas são sinais de que, um dia, existiu um distrito naquele local.

No meio de um pasto, escombros do distrito estão à vista

Lembranças

O aposentado José Sebastião Nardi, 61, nasceu em Clarínia e cursou o primário na escola que existia no distrito. O pai, Paulino, era dono de um armazém que vendia de tudo – açúcar, sardinha, grãos a granel, tecidos, fumo de corda e até querosene para as lamparinas do lugarejo. A eletrificação só chegou em 1966. Antes, a energia era precária, vinda de uma pequena usina improvisada a um quilômetro do distrito.

“Eu me lembro que o movimento era muito grande”, disse Nardi, que acompanhou a reportagem na visita ao que sobrou de Clarínia. “Tinha até um time de futebol. Aos domingos, o povo se reunia no campo e era uma festa, embora quase sempre saísse briga”, lembra o aposentado, rindo.

Restos da antiga praça de Clarínia: igreja ruim depois de um vendaval
Alguns casarões estão quase destruídos

O prédio da antiga “venda” dos pais ainda está de pé, mas a destruição é visível. Falta uma porta na fachada e o interior sugere abandono de muitos anos. “Foi aí que eu nasci”, diz Nardi, olhando o velho casarão como se buscasse na memória os momentos da infância. A venda, segundo ele, tinha até pano para fabricação de caixões de defunto, que eram feitos na serraria do distrito.
Em frente ao comércio da família, havia outra “venda”, de propriedade de Turíbio Ramos, pai do ex-vereador “Toninho Dentista”, de Ipaussu.

“Olha, a árvore ainda é a mesma”, diz Nardi, admirado, ao avistar a seringueira ao lado das ruínas da escola primária. Na parede, ainda há a placa de inauguração, com o nome do prefeito Carlos Queiroz, do vice José Carlos Camarinha e uma homenagem ao casal Maria e Salvador Consalter. A data é de 1966.

O casarão em que nasceu Sebastião Nardi ainda existe (na foto, antes e hoje)

Em frente à escola, havia a praça da igreja onde as famílias se reuniam. Hoje, só existem escombros do coreto, local em que bandas musicais costumavam se apresentar. A igreja desapareceu. Restos de um monumento de concreto ainda ostentam uma placa de 1966, novamente do prefeito Carlos Queiroz e onde consta também o nome do deputado Leônidas Camarinha. “Este marco assinala a eletrificação do distrito como fator de progresso para seu povo”, diz a inscrição.

LEMBRANÇAS — José Sebastião Nardi, que nasceu em Clarínia, observa os escombros do antigo coreto da praça

Cerca de duas quadras abaixo, está um barracão que já foi oficina e, algum tempo antes, cinema. Sim, Clarínia teve até cinema. “Não é da minha época, mas me contavam que o cinema lotava nos finais de semana”, conta José Nardi, que deixou o distrito em 1980. “Já estava muito decadente. Naquele ano, muitos prédios estavam abandonados e a venda não existia mais”, lembrou. 


ESCOMBROS — Antigo cemitério tem restos de túmulos

Um vendaval destruiu até a antiga igreja

Sônia Consalter, que nasceu em Clarínia
e morou no velho casarão, diz que fim
das culturas provocou o fim do distrito

Hoje aposentada, Sônia Maria Consalter Vieira, 70, deixou Clarínia aos 10 anos, quando a família veio para Santa Cruz do Rio Pardo. O pai, Idarilho Consalter — conhecido como “Lilo Longo” — era um dos donos da fazenda e Sônia morou no velho casarão que ainda existe no antigo distrito. Era a sede da fazenda, a maior casa de Clarínia, construída pelo avô, Antônio Consalter Longo. As memórias, aliás, ainda estão vivas na mente de Sônia, que se aposentou como funcionária do INSS em Santa Cruz.

A menina que brincou nas ruas empoeiradas de Clarínia ainda se lembra da igreja, que ficava numa praça e que caiu após um forte vendaval que atingiu a região na década de 1990. “Tenho muita saudade daquele lugar”, afirmou.

Sônia estudou na escola de Clarínia, onde cursou até a “admissão“ para o ginásio. “Tinha muito aluno, pois as crianças de todas as fazendas da região estudavam na escola”, disse. A praça ficava em frente à escola. “A igreja desmoronou num temporal, quando eu não estava mais em Clarínia. Nossa família veio para a cidade em 1960, quando eu tinha dez anos”, lembra.

MEMÓRIAS — Filha do dono, Sônia nasceu e passou a infância em Clarínia

Naquela época, Sônia disse que o distrito já dava sinais de decadência, mas ainda mantinha um certo movimento. “Eu fui a muitos casamentos e festas. Algumas eram realizadas na rua e havia leilão de assados muito concorridos”, contou.

Os partos eram feitos nas próprias residências, pelas mãos de “dona” Nilza Bretas, mulher do tabelião José Sebastião Bretas, o “Jucão”, que comandava o cartório.

A política também era forte. “Clarínia chegou a eleger um vereador, o Elídio Crivelli. Meu pai era dos azuis, grupo que quase sempre ganhava as eleições no distrito”, lembra Sônia. Talvez por isso Carlos Queiroz, prefeito na década de 1960, investiu forte em Clarínia, inaugurando obras como a nova escola e a eletrificação.

RESTOS DE UM POVOADO — Barracão que era o cinema antes de ser oficina

Sônia conta que havia muitos japoneses que trabalhavam nas lavouras da região, provavelmente imigrantes que tentavam a sorte nos cafezais. Havia até uma linha de ônibus regular para Clarínia. “Se não me engano, era de um tal de Benjamim”, disse.

Para Sônia, o cemitério que ainda existe no antigo distrito servia apenas para o sepultamento de bebês, pois naquela época a mortalidade infantil era alta. “Pode ser que tenha um ou outro adulto. Mas a maioria eram crianças”, diz. Talvez isto explique o fato de o cemitério ser muito pequeno.

“Quando o gado e a cana chegaram, as pessoas começaram a deixar Clarínia. A maioria se mudou para Espírito Santo do Turvo”, disse. Segundo Sônia, começou a faltar pessoas até mesmo para a procissão. No final da década de 1990, praticamente não havia mais ninguém em Clarínia. 

* Colaborou Toko Degaspari

Foto de 1939 mostra o pioneiro Antônio Consalter Longo com japoneses no velho casarão

 

  • Publicado na edição impressa de 29/12/2019
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