Vai um ‘Acácio’ aí?

O músico santa-cruzense Vasco de Britto está vendendo dois quadros do artista plástico Acácio Gonçalves

É raro alguém vender um quadro
do saudoso artista, mas Vasco de
Britto decidiu oferecer duas obras

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Dois quadros do principal artista plástico santa-cruzense, Acácio Gonçalves, estão à venda na cidade. O músico Vasco de Britto, 68, diz que, “infelizmente”, não tem mais espaço em sua casa para as duas pinturas. Na verdade, Vasco contra que enfrentou problemas de saúde, inclusive um AVC há dois anos, cujas sequelas, mesmo que pequenas, estão comprometendo momentaneamente sua carreira.

As obras foram compradas no século passado pelo avô de Vasco, José Antônio Ramos, personagem histórico de Santa Cruz do Rio Pardo. Ramos foi um dos donos da rádio Difusora, numa sociedade com o deputado Leônidas Camarinha e o empresário João Queiroz Júnior. Além disso, era gerente de banco e especialista em finanças. Por último, José foi amante das artes, tanto que chegou a colecionar vários quadros.

“Ele comprou mais quadros do Acácio. Alguns vendeu tempos depois. Outros, não sei o destino”, disse o neto Vasco.

Acácio Gonçalves é uma referência na arte plástica de Santa Cruz do Rio Pardo. Era sobrinho distante do coronel Antônio Evangelista da Silva, o lendário “Tonico Lista”. Também era irmão do professor Wilson Gonçalves, que se notabilizou como cronista do DEBATE durante muitos anos, assinando uma coluna como “Jacinto Q. Torra”.

Muitos artistas plásticos citam Acácio como referência e alguns mais velhos até aprenderam com ele. Acácio morreu em 1965. Tinha um caroço no pescoço, que muita gente acreditava ser câncer. No entanto, na época o diagnóstico na cidade era precário.

Na verdade, Acácio não viveu da arte. Como muitos artistas famosos, teve a obra reconhecida apenas após sua morte, embora fosse homenageado várias vezes em sua cidade.

Seus quadros também envolviam imagens de Santa Cruz do Rio Pardo — muitos deles retratados em cenários do começo do século XX. Há vários em repartições públicas, como a prefeitura, biblioteca e até na Câmara Municipal, dona de um enorme quadro retratando a cidade nos idos de 1915.

Há também murais em Santa Cruz pintados pelo artista, como uma parede do andar superior do Icaiçara — clube batizado pelo irmão, Wilson, em homenagem ao caipira rural. Mas também há afrescos no “Bar do Augustinho Marin” e na antiga “Pensão Nossa Senhora Aparecida”. Havia outros, que desapareceram junto com reformas ou demolições.

ARTISTA — O artista Acácio Gonçalves pinta quadro na década de 1950, fotografado por Paulo Suzuki

Raridade

Simples e sem posses, Acácio gostava de retratar paisagens e o caipira rural, como o pescador — também chamado de “caiçara”. Um de seus personagens preferidos era “Tito Sabiá”, um morador folclórico que viveu em Santa Cruz do Rio Pardo no início do século passado.

Por isso, um dos quadros que o músico Vasco de Britto colocou à venda parecer ser único. Trata-se de uma paisagem marítima, imagem que Acácio não costumava retratar. “Só por isso acho que a obra é rara”, brinca o músico.

Ele ainda nem sabe ao certo o valor estimado das obras. “Me falaram que pode valer de R$ 10 a R$ 20 mil”, afirmou. Cada quadro tem um formato diferente. O maior retrata uma paisagem em Santa Cruz do Rio Pardo, possivelmente as imediações do antigo “Chafariz” na primeira década do século passado.

RARIDADE — Obra de 1955 retrata paisagem marítima, que é incomum nos quadros de Acácio Gonçalves

História

Acácio Gonçalves teve duas homenagens que desapareceram ao longo dos anos, ambas no governo de Adilson Donizeti Mira (PSDB). Ele dava nome à Galeria de Artes do “Palácio da Cultura Umberto Magnani Netto”, inaugurada no governo de Clóvis Guimarães Teixeira Coelho. O espaço ficava no saguão do antigo prédio do cinema e era usado para exposições de diversos artistas plásticos.

Como Mira abortou o projeto de Clóvis, de transformar o Palácio num foco de irradiação de cultura — com teatro, galeria e cinema —, a “Galeria de Artes Acácio Gonçalves” acabou. Hoje, é a bilheteria e bomboniére do cinema.

Acácio também dava nome à antiga Sala de Cultura do prédio do antigo Colégio Companhia de Maria. Como o imóvel foi cedido à Faculdade de Direito Oapec, o nome também não foi mais usado.


TRADICIONAL — Um dos quadros retrata as paisagens preferidas de Acácio

Após AVC, músico
vai voltar aos palcos

O músico Vasco de Britto nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo e aprendeu a tocar violão clássico aos 13 anos. Depois, encontrou-se na música popular, pela qual se fez artista. Foi morar no Japão em 1984, a convite do Consulado Geral, para uma temporada de seis meses na casa noturna “Copacabana”.

Também se estabeleceu na França em 1991 e fez diversos shows na Europa. Voltou ao Japão em 1995, onde gravou a música “Visions”, indicada ao prêmio Disco de Ouro da MPB. Em 2001 e lançou “Praia dos Corais”, álbum gravado no Rio de Janeiro e Nova Iorque.

No total, Vasco ficou mais de 20 anos no Japão. Sua música passou a ser exibida nos aviões da Japan Airlines. Foi seu melhor momento.

De volta ao Brasil, gravou outros discos, fez apresentações e voltou a Santa Cruz. Há dois anos, sofreu um AVC que o deixou “de molho”. Ele admite que ainda tem dificuldades em retomar plenamente a carreira musical. Planos, porém, não faltam. 

  • Publicado na edição impressa de 29/12/2019
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